Há uma América Latina que não cabe num mapa, que atravessa fronteiras e encontra nas pistas de dança uma língua comum. É nessa dimensão, entre ritmos que carregam décadas de história e máquinas que parecem apontar para outra dimensão, que se movimentam os Lambada da Serpente. Formados em Brasília por Son Andrade e Ramiro Galas, o duo brasileiro cruza tradições musicais do Brasil e de outros pontos do continente com eletrónica, sintetizadores e percussão, construindo um universo sonoro tão ligado à memória como à vontade de a reinventar.
A história do projeto começou a desenhar-se a partir de um encontro entre músicos que já conheciam o trabalho um do outro. Son Andrade, percussionista e investigador de sonoridades brasileiras e latino-americanas, encontrou em Ramiro Galas, produtor e DJ ligado ao projeto Forró Red Light, um parceiro com quem partilhar referências e experimentar novas combinações. O que começou a partir de um convite para trabalhar num espetáculo transformou-se num projeto próprio, alimentado pela curiosidade musical de ambos e por uma vontade de aproximar linguagens que, apesar das suas diferenças, partilham ritmos, acentos e histórias.
O nome Lambada da Serpente transporta já parte deste imaginário. Inspirado na canção homónima de Djavan, convoca um ritmo profundamente associado à memória musical brasileira e uma figura que atravessa mitologias e culturas de diferentes geografias. Como se o próprio nome antecipasse a natureza do projeto: uma música que se contorce, muda de direção e encontra novas formas de movimento sem perder o contacto com as suas raízes.
É também assim que Son Andrade e Ramiro Galas trabalham o som, a cumbia, o carimbó, a lambada, a guitarrada, o brega, o forró e o baião cruzam-se com batidas eletrónicas, samples e sintetizadores, criando uma linguagem que o duo descreve como música latino-americana futurista. A expressão não aponta para uma tentativa de apagar o passado em nome da modernidade, mas para a possibilidade de transportar tradições populares para outros contextos, deixando que se transformem no contacto com novas tecnologias e formas de produção.
Em agosto de 2025, os Lambada da Serpente apresentaram o seu primeiro EP, homónimo, composto por quatro temas que funcionam como diferentes entradas neste universo. «Salve!» abre o percurso com uma pulsação marcada pela cumbia e por sintetizadores de carácter retro, enquanto «Cúmbia do Médio Oriente» aproxima ritmos latino-americanos de melodias e ambientes que evocam outras geografias. «Brega Sintetizado» e «Melozinha» exploram diferentes relações entre percussão, melodias eletrónicas e balanço, mostrando como elementos aparentemente distantes podem encontrar um ponto de contacto sem perder a sua identidade.
O disco nasceu de um processo de criação aberto, feito de trocas de ideias, gravações caseiras, samples, melodias e sons recolhidos no quotidiano e durante viagens. Son e Ramiro trabalham tanto presencialmente como à distância, enviando materiais um ao outro e desenvolvendo as ideias a partir das contribuições de cada um. Essa forma de composição permite que as canções cresçam por acumulação e transformação, sem ficarem presas a uma única maneira de fazer música. O resultado mantém uma dimensão orgânica, mesmo quando os computadores e os sintetizadores ocupam o centro da construção sonora.
Ao vivo, esse diálogo ganha outra escala. A combinação de instrumentos de percussão, teclados, computadores e elementos eletrónicos transforma o repertório numa experiência pensada para o movimento, onde a repetição rítmica e a improvisação têm espaço para se desenvolver. O duo parte de tradições que nasceram em contextos específicos, mas não as trata como peças de museu. Pelo contrário, coloca-as em circulação, aproximando sons brasileiros, andinos e caribenhos numa espécie de cartografia musical que se desenha à medida que a música avança.
A identidade dos Lambada da Serpente também se constrói a partir das relações que estabelecem com outros músicos. Entre os artistas com quem têm desenvolvido colaborações encontram-se Felix Robatto, Layse, Felipe Cordeiro, Muntchako e Esdras Nogueira, nomes ligados a diferentes vertentes da música brasileira contemporânea. Essas ligações ampliam o universo do duo e reforçam a ideia de que o projeto não procura fechar-se numa definição rígida, preferindo crescer através da troca, da pesquisa e do encontro entre diferentes experiências musicais.
Há uma dimensão cultural nesta música que ultrapassa a vontade imediata de fazer dançar. Ao aproximarem tradições brasileiras e latino-americanas, Son Andrade e Ramiro Galas colocam em diálogo repertórios que muitas vezes são apresentados separadamente, apesar das ligações históricas e rítmicas que os atravessam. A eletrónica funciona como ferramenta de aproximação, criando novas possibilidades para sons que continuam a transportar as marcas dos lugares, das comunidades e das gerações que os fizeram chegar até aqui.
Os Lambada da Serpente encontram-se, assim, em permanente transformação, onde o passado não serve apenas de referência e o futuro não aparece como uma promessa distante. Cada ritmo traz consigo uma história, mas também a possibilidade de seguir outro caminho. Entre a percussão, os sintetizadores e os balanços que atravessam o continente, o duo constrói uma música que prefere as fronteiras abertas às categorias fechadas, convidando o ouvinte a descobrir as ligações entre sons que, à primeira vista, poderiam parecer pertencer a mundos diferentes.
No universo dos Lambada da Serpente, a tradição não fica quieta e a tecnologia não precisa de apagar aquilo que veio antes. As duas encontram-se, transformam-se e seguem juntas, num movimento que faz da pista de dança um espaço de descoberta, numa espécie de viagem sonora que não procura reproduzir uma América Latina idealizada, mas imaginar aquilo que pode nascer quando as suas múltiplas vozes começam a dançar umas com as outras.
Dia 9 poderás ir dançar ao seu som no Festival MIL Lisboa.


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