Festival MIL Lisboa 2026: Dia 2 Cinco países, muitas maneiras de fugir ao óbvio
No dia 8 de outubro, a Casa Capitão voltou a encher-se de música para o segundo dia do MIL. O cartaz atravessou Portugal, França, Espanha, Brasil e Reino Unido, mas a geografia foi apenas o ponto de partida. O que interessava estava nas diferenças: guitarras que puxam para o punk, canções que escapam às fronteiras da pop, eletrónica feita para o corpo e projetos que vão buscar à tradição matéria-prima para construir qualquer coisa de novo. Do rock alternativo à música urbana, passando por ritmos populares e experiências mais difíceis de arrumar numa categoria, o alinhamento reuniu artistas que não soam necessariamente uns aos outros e ainda bem.
A representação portuguesa mostrou isso desde logo. OkA e Manga Cava partilham uma proximidade com o rock, mas chegam lá por caminhos diferentes: os primeiros aproximam-se do noise-punk, num território mais experimental, enquanto os segundos cruzam indie-pop, punk e rock alternativo. Noutro ponto do alinhamento, Alex D’Alva trabalha a pop à sua maneira, B Fachada continua a distinguir-se pela escrita e pela construção de um universo musical próprio, e os Expresso Transatlântico fazem a ponte entre referências da música tradicional portuguesa e sonoridades contemporâneas. São cinco projetos com abordagens distintas, que mostram como a música feita em Portugal pode partir de lugares muito diferentes sem precisar de caber numa identidade comum.
De França chegaram Chéri, Flippeur e Hey Bony, três nomes que alargaram ainda mais o espectro sonoro do dia. Chéri explora a pop eletrónica; Flippeur prefere a urgência crua e irreverente do egg-punk, um território pouco convencional, avesso ao polimento excessivo. Hey Bony acrescenta outra camada a esta seleção. Originário da Guadalupe e radicado em Paris, o artista cruza o bouyon, ligado às culturas afro-caribenhas, com jungle, techno, bass e dancehall. O resultado conceptual deste encontro de referências aponta para uma música em que o ritmo e a cultura de pista ocupam um lugar central. Mais do que uma simples mistura de géneros, é um exemplo de como diferentes heranças culturais podem entrar na linguagem da música eletrónica contemporânea.
A Espanha fez-se representar por Las Petunias, Queralt Lahoz, HOFE e Paco Pecado, entre outros artistas. Aqui, a variedade não se resolve numa etiqueta nacional: basta olhar para a distância entre os projetos para perceber porquê. O trio madrileno Las Petunias move-se entre o punk-pop e o rock alternativo, com guitarras e uma atitude irreverente. Queralt Lahoz parte de outro lugar, cruzando flamenco e copla com hip-hop, soul, R&B e eletrónica. HOFE e Paco Pecado acrescentam perspetivas diferentes a esta presença espanhola, contribuindo para um alinhamento que não tenta apresentar uma única imagem da música produzida no país. A seleção ganha precisamente por não o fazer.
Do lado britânico, os green star, banda de East London associada ao shoegaze, ao noise-rock e ao rock independente, trouxeram para o cartaz uma linguagem construída sobre guitarras densas, distorção e ambientes atmosféricos. É uma abordagem que contrasta com as propostas mais centradas no ritmo e na dança presentes no festival. Entre estas duas direções há uma diferença de intenção e de textura: de um lado, a música que se expande em camadas de som; do outro, aquela que procura sobretudo o movimento. A presença dos green star ajudou a alargar o alcance estético do alinhamento, sem o prender a um género dominante.
O Brasil ofereceu talvez um dos contrastes mais claros entre artistas que partilham referências culturais, mas não necessariamente uma forma de as trabalhar. Lau Ro cruza bossa nova e música popular brasileira com folk, rock e psicadelismo, construindo uma sonoridade experimental e intimista. Colar de Rapariga segue outra direção: parte de ritmos populares do Nordeste brasileiro, como o brega, o arrocha e o piseiro, e combina-os com eletrónica e referências urbanas. Onde Lau Ro privilegia um cruzamento mais contemplativo, Colar de Rapariga aposta numa abordagem rítmica, ligada à dança e à cultura popular. A proximidade das raízes não apaga a diferença entre os dois projetos; pelo contrário, torna-a mais evidente.
É nesta distância entre propostas que o segundo dia encontra uma das suas razões de interesse. A diversidade do cartaz não se resume à presença de cinco países, nem a uma lista de géneros musicais suficientemente extensa para preencher um programa. Está na forma como cada artista transforma as suas referências, escolhe o que conserva e o que altera, e procura uma linguagem que não seja apenas a repetição de fórmulas conhecidas. Para quem chega sem conhecer parte dos nomes, o festival funciona como uma oportunidade de escuta fora dos hábitos. Para quem acompanha estas cenas, permite encontrar projetos que nem sempre recebem grande atenção mediática. A aposta do MIL está precisamente em criar esse espaço de contacto entre artistas e público, sem limitar a programação aos nomes já estabelecidos.
Há, no entanto, uma questão que atravessa esta edição e que se tornou particularmente evidente no segundo dia: a forma como os concertos foram distribuídos no tempo. Concentrar toda a programação musical na Casa Capitão permitiu reunir os vários palcos num único edifício e facilitou a circulação entre espaços. Mas estar tudo debaixo do mesmo teto não significa conseguir ver tudo. Com atuações em simultâneo, o público teve de escolher entre concertos que gostaria de acompanhar na íntegra, deixando inevitavelmente alguns para trás. Concentrar toda a programação na Casa Capitão facilitou a organização e criou um ponto de encontro comum, mas a sobreposição de concertos tornou mais difícil acompanhar as atuações na íntegra. É uma questão que ganha particular importância num festival cuja proposta passa precisamente por dar tempo e espaço a projetos que o público pode ainda não conhecer. O acesso ao terraço era gratuito pelo que havia muita gente apenas a conviver, mas quem queria ver o festival andava numa correria.
Afinal, há uma diferença entre passar por um palco e ficar para ouvir um concerto e passar por 10 minutos e seguir para outro. Quando a descoberta é parte central da identidade de um festival, o tempo dedicado a cada artista também conta.
A procura pelos bilhetes confirmou, ainda assim, o interesse suscitado pelo segundo dia: as entradas esgotaram já durante o festival. A adesão reforça o lugar do MIL enquanto ponto de encontro entre artistas e público, mas também torna pertinente pensar na distribuição dos horários. Num programa que aposta na descoberta, importa que a variedade não exista apenas no papel e que haja condições para acompanhar os concertos sem ter de abdicar constantemente de outros.
O segundo dia deixou um alinhamento marcado pelo contraste: entre o ruído das guitarras e os ambientes do shoegaze, a pop eletrónica e os ritmos afro-caribenhos, a música de autor e as reinvenções da tradição brasileira e portuguesa. Não há uma sonoridade única que una todos estes projetos, nem precisa de haver. O que os aproxima é a vontade de explorar caminhos próprios. Cabe ao MIL continuar a criar espaço para esses encontros, afinal de contas este segundo dia também esgotou antes de acontecer.









