Vodafone Paredes de Coura 2026: A última noite antes do silêncio
O último dia começou com uma sensação diferente no Taboão. Depois de três dias de música, noites longas e um recinto que já fazia parte da rotina de quem ali estava, havia no ar aquela consciência inevitável de que tudo estava a chegar ao fim. Às 16h30, Noiserv abriu o Coura Sem Paredes, enquanto pouco depois, às 17h10, Patrick Watson, sozinho ao piano, dava início à programação do palco Vodafone. Era uma forma particularmente adequada de começar o último capítulo: depois de dias de grandes produções e multidões, o festival começava com a simplicidade de uma voz, um piano e um espaço inteiro disposto a ouvir.
Às 18h10, Hudson Freeman continuou a tarde no Coura Sem Paredes, enquanto Cate Le Bon, às 18h55, levava para o palco principal a sua personalidade artística singular. A tarde avançava lentamente, mas já se sentia que o último dia tinha uma identidade própria. Não havia a urgência dos primeiros dias; havia uma espécie de vontade de aproveitar cada momento, como se cada concerto trouxesse consigo a consciência de que aquele seria o último fim de tarde passado no Taboão.
Às 19h55, Sophia Stel ocupou o Coura Sem Paredes e, pouco depois, às 20h45, Meute fizeram o palco Vodafone explodir de energia. A banda alemã transformou a música eletrónica em espetáculo através de metais e percussão, levando para o recinto uma força física que rapidamente contagiou o público. Depois de um início de tarde mais contemplativo, o ambiente mudou completamente: já não era apenas uma questão de ouvir música, mas de sentir o ritmo a atravessar o espaço.
Enquanto a noite avançava, Julia Mestre atuava às 21h45 no Coura Sem Paredes, criando um contraste com a intensidade que se sentia no palco principal. Às 22h45, Thundercat assumiu o protagonismo, trazendo consigo o seu baixo virtuoso e uma sonoridade impossível de encaixar numa única categoria. Funk, jazz, soul e eletrónica encontraram-se num concerto que manteve o último dia em movimento e deu ao festival mais um daqueles momentos em que a música parece existir num território próprio.
Às 23h45, Prostitute levaram o Coura Sem Paredes para uma dimensão mais crua e intensa. Já perto da meia-noite, o recinto começava a entrar naquele estado característico da última noite: toda a gente sabe que é a última oportunidade para estar ali, por isso ninguém parece ter pressa de abandonar o espaço. Há quem dance, quem procure os últimos concertos, quem se sente na relva e quem simplesmente fique parado a absorver o ambiente.
Às 00h35, Amyl and the Sniffers chegaram ao palco Vodafone e trouxeram consigo a descarga de energia que a última noite pedia. O punk da banda australiana encontrou um público já completamente entregue, transformando o palco numa explosão de movimento. Era difícil imaginar uma forma mais direta de entrar na reta final do festival: guitarras, suor, gritos e uma multidão que parecia querer gastar as últimas reservas de energia antes do adeus.
Mas ainda havia madrugada pela frente. À 01h35, Dame Area assumiram o Coura Sem Paredes, prolongando a noite com uma sonoridade marcada pela eletrónica e pelo pós-punk. E, às 02h50, Marie Davidson, em DJ set, ficou encarregada de conduzir os últimos resistentes pela madrugada. Já não havia amanhã de festival para esperar. Cada música tinha agora um peso diferente porque era uma das últimas.
E talvez seja essa a parte mais estranha do último dia, durante horas, o festival continua a funcionar exatamente como nos dias anteriores, mas por baixo de tudo existe a certeza de que desta vez não haverá outro concerto depois daquele. Quando Marie Davidson terminou, o Taboão começou finalmente a perder o som, as luzes foram desaparecendo e o espaço que durante quatro dias tinha sido ocupado por milhares de pessoas começou a recuperar o silêncio.
O último dia não precisou de um grande momento para se despedir. Teve Patrick Watson ao piano, a energia de Meute, a liberdade musical de Thundercat, a explosão de Amyl and the Sniffers e a eletrónica que levou a madrugada até ao fim. Mas, acima de tudo, teve aquela sensação inevitável de despedida que se instala quando já não há mais horários para consultar nem concertos para esperar. Quando a última música terminou, não acabou apenas uma noite, começou o silêncio de um lugar que, durante quatro dias, nunca pareceu dormir, mais de 115 mil pessoas estiveram no Couraíso e agora só nos resta esperar pela próxima edição, que será entre 18 e 21 de Agosto de 2027. Até lá.









































