MДQUIИД. encontraram a forma perfeita de controlar o caos em BODY TRANSMISSION
Há bandas que só fazem álbuns e concertos e há outras como os Os MДQUIИД. entram em combustão e fazem-nos a nós entrar também. São daquelas bandas que podes ver vinte vezes que o teu corpo vai sentir sempre o mesmo.
Nos últimos dois anos, o trio lisboeta construiu uma reputação rara: concertos onde o palco deixa de ser fronteira e passa a ser epicentro. O público responde em cadeia, corpos projetados sobre a multidão, crowdsurfing, circle pits que parecem abrir crateras no chão, volume suficiente para transformar repetição em transe. Quem os viu ao vivo sabe que há qualquer coisa de físico na experiência. Como se a música deixasse de ser som para passar a ser impacto. Para nós a pergunta inevitável é: como se grava isso? e a resposta chama-se BODY TRANSMISSION.
Editado pela londrina Fuzz Club, o segundo LP dos MДQUIИД. chega depois de um dos períodos mais intensos da carreira da banda. O caminho até aqui foi sendo desenhado através dos singles "pressure/pleasure" e "agony", da colaboração com o duo catalão Dame Area em "dança" e da estreia dos MДQUIИД. num tema totalmente instrumental com "simulation". O álbum reúne agora todas essas peças, mas revela uma transformação mais profunda: o trio funde impulso das jams com a arquitetura da canção.
Pelo meio, houve uma extensa digressão europeia, a primeira passagem pelo Brasil, uma atuação na icónica KEXP, integrada no Trans Musicales 2025, e uma sucessão de concertos em festivais como The Great Escape Festival, Festival Impulso, Basqueiral e Rock in Bourlon, em França. Em palco, o ritual repetiu-se noite após noite, culminando num dos momentos mais memoráveis da digressão, quando Silvia Konstance, metade do duo catalão Dame Area, subiu ao palco para interpretar "dança" com a banda.
Mas BODY TRANSMISSION não é um souvenir dessa viagem. É a consequência dela.
"Obrigámo-nos a escrever canções em vez de apenas captar jams. Queríamos que soasse pesado, concentrado e dançável. É um álbum sempre a abrir."
A frase parece simples. Na prática, redefine completamente a banda.
Se PRATA (2024) respirava como uma massa viva, expandindo-se, contraindo-se e encontrando força na repetição, BODY TRANSMISSION funciona como uma máquina industrial perfeitamente calibrada, nada sobra, nada abranda. Cada riff entra exatamente quando deve. Cada batida parece empurrar a seguinte e cada silêncio existe apenas para tornar a próxima explosão inevitável.
É um disco construído sobre fricção. Noise rock contra techno. Krautrock contra thrash metal. Industrial punk contra EBM. O motorik alemão encontra a violência de Arise, dos Sepultura; as sombras eletrónicas de Schwefelgelb cruzam-se com o ADN pós-punk dos Section 25 e a agressividade de Fugitive. Em vez de parecer um exercício de referências, BODY TRANSMISSION faz algo mais difícil: dissolve todas essas linguagens até formar um vocabulário próprio.
As dez faixas, "4-to-the-floor", "collapsing", "dança", "agony", "bizarro", "valve", "simulation", "step on me", "out of fear" e "pressure/pleasure", comportam-se menos como capítulos independentes do que como uma única corrente elétrica. O álbum quase nunca oferece descanso. Quando parece perder intensidade, está apenas a ganhar impulso.
Também nas letras existe uma ambição renovada. Temas como "agony" mergulham em questões como a desinformação, o conflito e a alienação, enquanto o restante disco aborda ansiedade, isolamento e a pressão constante da vida contemporânea. Mesmo quando o discurso se torna sombrio, a música recusa o imobilismo: há sempre um ritmo insistente a empurrar tudo para a frente.
A receção inicial confirma aquilo que os concertos já deixavam adivinhar. BODY TRANSMISSION tem sido apontado por vários meios especializados como um dos lançamentos mais marcantes do ano no universo do noise rock e da música alternativa europeia, elogiado pela capacidade de transportar para estúdio a intensidade quase incontrolável que fez dos MДQUIИД. uma das propostas mais excitantes do circuito underground europeu.
BODY TRANSMISSION não representa apenas uma evolução em relação a PRATA. É o momento em que os MДQUIИД. deixam de tentar documentar o caos e passam finalmente a dominá-lo. O resultado é um disco simultaneamente mais disciplinado e mais violento, onde a repetição deixa de ser apenas hipnose e passa a ser linguagem, e onde cada canção parece existir no instante imediatamente anterior ao impacto.
É esse equilíbrio entre precisão e descontrolo que faz de BODY TRANSMISSION o trabalho mais conseguido da banda até à data. Não soa como um concerto gravado. Soa ao momento em que a eletricidade salta do palco para o corpo, antes mesmo de haver tempo para reagir.
Texto: Sofia Reis
Fotofrafia: Emmnuel Poteau













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