Festival MIL Lisboa 2026: Dia 3, Quando a música passa para o corpo
No dia 9 de outubro, a Casa Capitão mudou de andamento. O terceiro dia do MIL trouxe a dança para o centro da programação, com um alinhamento em que os ritmos urbanos, a eletrónica e diferentes tradições de música de dança deram o tom. Afreekassia, Afrokillerz, MC Luanna, Gayance, Active Boyz, DENNYH, LZ, RAISSA, Gisela Mabel, Hause Plants, Lambada da Serpente, Novelaço, Carmen Lancho, Bianca Steck e André Droga estiveram entre os nomes que passaram pelo festival. Entre concertos e atuações mais próximas da lógica de pista, o dia abriu espaço a diferentes formas de sentir o ritmo: umas centradas na palavra, outras na batida, outras ainda no cruzamento entre referências que raramente ficam quietas dentro do mesmo género.
A música urbana ocupou uma parte importante do cartaz. MC Luanna trouxe o rap para primeiro plano, com uma abordagem marcada pela afirmação pessoal e pela força da palavra. Afreekassia, por sua vez, cruzou influências do hip-hop com diferentes ritmos urbanos, explorando uma linguagem própria. São propostas que lembram que a intensidade de um concerto não se mede apenas pelos graves ou pela quantidade de pessoas a dançar. A escrita, a presença em palco e a relação que se estabelece com quem está do outro lado também contam. Há música que faz mexer o corpo; há música que começa por prender a atenção. Nem sempre é possível separar as duas coisas.
Noutro ponto do alinhamento, Afrokillerz e Active Boyz levaram a programação para terrenos mais diretamente ligados à dança e a urbana. O duo português Afrokillerz, com raízes luso-angolanas, cruza afro-house e house, construindo a sua proposta a partir de ritmos penstruindo sets em que o movimento nasce de uma relação menos previsível entre os ritmos. A sua presença encaixou na orientação do dia, em que a pista não era apenas um lugar para assistir à música, mas um espaço para responder a ela. Numa programação deste género, o público deixa de ser necessariamente um conjunto de espetadores parados diante de um palco, o som prolonga-se no movimento, e a experiência também se constrói a partir dessa resposta coletiva, foi um dos melhores concertos do dia.
A dança não ficou, contudo, entregue aos DJs e à eletrónica. Os Hause Plants, banda lisboeta, trouxeram uma abordagem diferente, mostrando como a vontade de fazer mexer também pode nascer de guitarras e instrumentos tocados ao vivo. Inicialmente associados ao indie rock, os portugueses têm vindo a incorporar elementos de dance-punk e pop eletrónica na sua sonoridade. Essa evolução aproxima-os de um território em que a energia da banda e a pulsação da pista se cruzam, alargando a ideia do que pode ser um concerto dançável. Num dia dominado pelo ritmo, a sua presença ajudou a evitar que a programação ficasse presa a uma sucessão de atuações eletrónicas.
Houve também espaço para projetos que procuraram o ritmo noutras memórias musicais. Lambada da Serpente explorou ligações à música brasileira, enquanto Novelaço, projeto de Luca Argel e Jhon Douglas, partiu do imaginário musical das telenovelas das décadas de 1980 e 1990 para construir uma nova proposta artística. Aqui, a relação com a música passa também pelo reconhecimento: melodias, referências e memórias de uma cultura popular que continuam disponíveis para serem reinterpretadas. Em vez de seguir uma linha exclusivamente orientada para a pista, estes projetos introduziram outras formas de pensar a dança, cruzando-a com a memória e com referências culturais partilhadas.
Gisela Mabel, RAISSA, LZ, Carmen Lancho e Bianca Steck contribuíram igualmente para alargar o espectro musical do dia, reunindo outras abordagens à música contemporânea. A presença destes nomes, a par dos restantes projetos do alinhamento, permitiu alternar entre diferentes ambientes e intensidades, sem reduzir a programação a uma única fórmula. A identidade do terceiro dia construiu-se precisamente nessa coexistência entre propostas mais diretamente ligadas à pista e outras que exploram diferentes maneiras de trabalhar o ritmo, a voz e a presença musical.
Foi um dia do MIL com uma orientação distinta dentro do festival, dio rap à kizomba, do afro-house à eletrónica, passando pelo dance-punk e por projetos que recuperam referências da música popular, a programação mostrou que a música de dança não cabe num único género nem depende de uma única tradição. Os artistas portugueses e internacionais presentes trouxeram perspetivas diferentes sobre o movimento, cruzando linguagens e influências sem apagar as particularidades de cada projeto.
Mais do que uma sequência de concertos ligados pela vontade de dançar, o terceiro dia encontrou a sua identidade na forma como aproximou artistas, sonoridades e públicos através do ritmo. A música urbana trouxe a palavra e a afirmação pessoal; os projetos eletrónicos trabalharam a relação com a pista, as bandas e os projetos ligados à memória musical abriram outras possibilidades. Na Casa Capitão, a dança foi o fio condutor de uma programação que mostrou diferentes maneiras de chegar ao mesmo lugar: aquele em que ouvir deixa de ser apenas um exercício de atenção e passa também a ser uma experiência física.









