As
Manga Cava parecem ter nascido antes do verão, naquele intervalo
estranho da primavera em que os dias começam a ficar maiores, mas o
calor ainda não chegou. Há sombra, mato e silvas pelo caminho,
guitarras ao colo e uma vontade quase infantil de inventar qualquer
coisa antes que alguém apareça para dizer como deve ser feita. As
melodias podem ser sussurradas ou gritadas, as tardes podem durar
horas e correr sem destino é uma atividade perfeitamente legítima.
É a partir desse lugar que Joana, Maria Marta, Pires e Maria estão a construir uma das propostas mais recentes e singulares do circuito independente português. As Manga Cava fazem aquilo que elas próprias descrevem, com uma boa dose de humor, como “girly indie pop punk rock tuga do mato”. A expressão parece uma piada, mas acaba por funcionar como uma espécie de manifesto. Há indie pop, há punk, há rock, há uma energia assumidamente feminina e há, sobretudo, uma relação muito física e despreocupada com o espaço onde a música acontece.
As canções vivem entre a doçura e o ruído. Podem começar quase em segredo e acabar num grito, mantendo pelo caminho uma espécie de fragilidade deliberadamente imperfeita. As vozes não procuram uma polidez excessiva e as guitarras não parecem interessadas em esconder as suas arestas. Existe uma espontaneidade lo-fi que aproxima a banda de quem está a ouvir, como se a música pudesse ter sido inventada numa tarde qualquer entre amigos e, por alguma razão, tivesse decidido ficar.
Essa sensação de proximidade não é acidental. As Manga Cava nasceram da amizade entre Joana e Maria Marta, ambas na guitarra e nas vozes, em meados de 2025. No final desse ano juntaram-se Pires, no baixo, e Maria, na bateria e voz, e aquilo que começara como uma relação entre duas pessoas transformou-se num quarteto. Desde então, a banda tem percorrido diferentes cidades do país, passando por Viana do Castelo, Coimbra, Lisboa e Porto.
O percurso ainda é curto, mas já existe nele uma característica importante: movimento. As Manga Cava parecem estar a construir-se enquanto tocam, aprendendo a banda ao mesmo tempo que aprendem as próprias canções. Cada concerto acrescenta qualquer coisa ao projeto e cada cidade abre mais uma porta dentro de um circuito independente onde as relações pessoais, os pequenos palcos e a circulação de música entre comunidades continuam a ter um peso enorme.
É difícil ouvir as Manga Cava sem pensar na liberdade. Não necessariamente na liberdade como conceito político ou manifesto, mas naquela liberdade mais simples e física de uma tarde sem planos. De andar de braços ao léu, de dormir uma sesta a meio da tarde, de correr apenas porque há energia a mais no corpo. A música parece nascer dessa mesma vontade de não transformar tudo numa questão demasiado séria.
Mas há uma dimensão agridoce por baixo dessa leveza. As melodias podem ser doces, mas existe sempre qualquer coisa a ameaçar interrompê-las. O punk aparece precisamente nesse ponto, quando a delicadeza já não chega e é preciso aumentar o volume. O resultado é uma música que pode ser divertida sem ser superficial e despreocupada sem ser vazia.
Entre as referências que atravessam o projeto estão as Pega Monstro, uma influência que as próprias Manga Cava reconhecem tanto de forma consciente como inconsciente. A proximidade não está apenas na combinação de guitarras, pop e uma certa liberdade punk, mas também na capacidade de transformar experiências íntimas e quotidianas em matéria para canções. Ainda assim, as Manga Cava estão a começar a criar uma identidade própria, mais ligada à ideia de mato, verão, amizade e descoberta.
No dia 22 de agosto, essa identidade ganhou o primeiro registo físico com o lançamento de Retrato da Menina Abandonada no Lixo. O título parece conter toda uma pequena novela dentro dele, entre o absurdo, o humor e alguma coisa de estranhamente melancólica. O EP começou entretanto a circular pelo circuito independente português, funcionando como o primeiro retrato de uma banda que ainda está a descobrir o tamanho do seu próprio universo.
Ainda não existe uma fórmula fechada, nem parece haver vontade de a encontrar. Há quatro pessoas, instrumentos, amizade, canções e uma série de cidades por onde passar. Há a vontade de experimentar, de errar, de fazer barulho e de continuar a tocar.
Dia 8 de outubro, esse percurso chega novamente a Lisboa, desta vez através do Festival MIL. Às 19h15, no Unicorn Stage, as Manga Cava vão levar para o palco essa mistura de guitarras, melodias, energia punk e uma certa despreocupação solar que parece acompanhar tudo o que fazem.
Talvez
seja demasiado cedo para saber onde vão chegar. Por enquanto, parece
mais interessante acompanhar o caminho. As Manga Cava ainda estão
algures entre a primavera e o verão.
Fotografia: Maria Valente




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