Festival MIL Lisboa 2026: Dia Para lá do cartaz, outras músicas por descobrir
A 10 de outubro, o MIL chegou à última noite na Casa Capitão, em Lisboa, com um cartaz que voltou a atravessar fronteiras musicais e geográficas. Bluay, Candura, damoridemort, Duques do Precariado, Fillas de Cassandra, Filloas, Grupo Pilon, H.LLS, Helena Casella, HeyRicoo, I’A’V, Mantis, MARTA., Mordo Mia, Nega do Babado, obelga, Pikika e Rayssa Dias fizeram parte de uma programação que passou pela pop, eletrónica, hip-hop e música alternativa. Ao longo de quatro dias, o festival procurou aproximar artistas que nem sempre partilham os mesmos circuitos. No encerramento, essa vontade de pôr diferentes cenas em contacto continuou a definir o alinhamento.
Entre os projetos portugueses, Duques do Precariado, Mordo Mia, Mantis, Pikika e I’A’V representaram diferentes caminhos da música independente nacional. Não há uma sonoridade única que os reúna, nem essa parece ser a intenção. A presença destes nomes num festival com dimensão internacional tem interesse precisamente por permitir que a criação portuguesa seja apresentada ao lado de projetos de outras origens, sem ficar limitada a uma secção isolada do cartaz. Para quem acompanha a música independente, é também uma oportunidade de perceber como diferentes artistas trabalham as suas referências e procuram um lugar próprio num panorama que continua em transformação.
A Galiza trouxe dois projetos que partilham uma origem, mas pouco precisam de partilhar na forma como fazem música. Fillas de Cassandra cruza referências da tradição galega com eletrónica e pop contemporânea, recuperando elementos culturais e colocando-os num contexto sonoro atual. Filloas segue por um caminho mais experimental, próximo do hyperpop e das sonoridades digitais. Num projeto, a tradição serve de matéria para uma reinterpretação contemporânea; no outro, a experimentação passa por uma linguagem mais associada à cultura digital. A presença de ambos mostrou que a identidade cultural não tem de corresponder a uma fórmula musical fixa.
Também de Espanha chegou damoridemort, duo catalão formado por Blanc Nua e Rikamichie, associado à avant-pop. As vozes, os sintetizadores e a utilização de instrumentos menos expectáveis, como a flauta, fazem parte de uma abordagem que prefere explorar possibilidades a ficar presa às convenções de um género. As referências à cultura catalã integram esse universo, mas não o encerram numa ideia de tradição. Em vez de reproduzir fórmulas reconhecíveis, o projeto trabalha o contraste entre elementos distintos e constrói uma linguagem própria, situada entre a canção e a experimentação. Num cartaz que reuniu tantas direções musicais, damoridemort acrescentou outra perspetiva à representação internacional.
A eletrónica apareceu sob formas bastante diferentes através de MARTA. e H.LLS. O duo francês MARTA. cruza techno tocada ao vivo com violino e bateria, recorrendo também a efeitos eletrónicos para aproximar a instrumentação acústica da pulsação repetitiva da pista de dança. Um concerto que ficariamos horas a ouvir e a dançar. H.LLS, trio anónimo de Londres, parte de outro território: entre alternative R&B e música eletrónica, trabalha vozes distorcidas e uma produção ligada à dubstep britânica e à cultura de clubes londrina. Os dois projetos afastam-se, cada um à sua maneira, da ideia mais convencional de música eletrónica. MARTA. coloca instrumentos acústicos no centro da composição; H.LLS explora as possibilidades de deformar e reconstruir elementos da música urbana. A diferença entre as duas abordagens mostra a amplitude de uma linguagem que há muito deixou de caber apenas atrás de uma mesa de mistura.
A presença brasileira trouxe outras referências ao último dia. Nega do Babado, obelga e Rayssa Dias integraram a programação, enquanto Helena Casella apresentou um percurso que cruza influências brasileiras e belgas, numa abordagem próxima do neo-soul, marcada pela atenção à voz e às texturas musicais. O Grupo Pilon acrescentou uma ligação a Cabo Verde, alargando o mapa cultural do alinhamento. Mais do que uma questão de representação geográfica, estas presenças colocaram em contacto diferentes contextos musicais e mostraram como as referências culturais podem viajar, misturar-se e adquirir novos significados quando passam para o trabalho de cada artista.
Bluay trouxe uma proposta ligada à afro-pop, enquanto os restantes projetos do cartaz exploraram diferentes cruzamentos entre pop, eletrónica e música alternativa. A programação não procurou estabelecer um género dominante para a última noite. O alinhamento passou por diferentes linguagens sem exigir que estas convergissem numa única identidade, dando espaço a artistas com percursos próprios e propostas que nem sempre chegam aos circuitos mais convencionais. Para o público, essa variedade abre a possibilidade de encontrar nomes desconhecidos; para os artistas, cria um contexto em que a sua música pode chegar a ouvintes que, de outra forma, talvez não a procurassem.
É precisamente aqui que a proposta do MIL ganha importância, num panorama musical em que a atenção se concentra frequentemente nos mesmos nomes, dar espaço a projetos emergentes significa permitir que outras vozes entrem na conversa. Mas a descoberta não se esgota na presença de um artista num cartaz, depende também da curiosidade que desperta, da vontade de procurar mais música depois do concerto e de acompanhar o que acontece quando deixa de estar sob a atenção imediata de um festival. A programação pode ser temporária mas os percursos dos artistas continuam.
Ao fim de quatro dias na Casa Capitão, o MIL 2026 encerrou sem precisar de encontrar uma fórmula comum para os projetos que apresentou. A música portuguesa independente, as propostas galegas e catalãs, as diferentes abordagens à eletrónica e os cruzamentos de referências brasileiras e cabo-verdianas deram forma a um último dia marcado pela variedade. O interesse esteve menos em procurar semelhanças entre todos estes artistas do que em perceber o que cada um trazia de particular ao alinhamento.
Quando termina um festival dedicado à música emergente, a pergunta que fica não é apenas quais foram os concertos mais marcantes, mas que nomes merecem continuar a ser ouvidos. É nesse prolongamento que o MIL encontra parte do seu sentido, nas descobertas que não acabam à saída da Casa Capitão, nos artistas que passam a fazer parte das nossas escolhas e na vontade de continuar a procurar música para lá dos circuitos habituais. Muitos dos artistas desta edição, tal como de anteriores, ficam a fazer parte nas nossas playlist e falaremos deles futuramente. É bom haver um festival que dá espaço a bandas/músicos emergentes mas que não soam todos ao mesmo. O Festival MIL Lisboa vai mudando as suas logísticas, espaços, mas a entidade nunca está perdida e é sempre um ponto de encontro de musica nova e contacto com diversos estilos musicais.









