O Lume Continua Alto: BALEIA BALEIA BALEIA Lançam “OUTRA VEZ ARROZ”

By VoxPop - fevereiro 23, 2026

 

    A 12 de fevereiro, os BALEIA BALEIA BALEIA voltaram a servir arroz. Mas não aquele que sobra no fundo do tacho. Falamos de receita apurada, lume controlado e tempero próprio. OUTRA VEZ ARROZ, o quinto lançamento da dupla portuense e terceiro longa-duração de originais, é menos uma repetição e mais um statement. Quando a fórmula é tua, repetir é reivindicar território.

    Editado pela Saliva Diva, com o apoio da Fundação GDA, o disco chega em vinil e CD como um objeto físico que condiz com a ética da banda. Mãos na massa, suor no palco, zero verniz desnecessário. A pré-venda limitada do vinil reforçou a lógica de culto que o duo tem vindo a consolidar, baseada em proximidade, comunidade e fricção direta.

    O título pode soar a piada interna, mas funciona como tese. OUTRA VEZ ARROZ parte da metáfora culinária para falar de maturidade criativa. Se já encontraste o teu tempero, não precisas de reinventar a cozinha a cada prato. Manuel Molarinho, no baixo e voz, e Ricardo Cabral, na bateria e voz, mantêm a formação minimalista como arma estética. Não há camadas supérfluas nem distrações. Só músculo, repetição hipnótica e palavras que tanto mordem como piscam o olho.

    Sonoramente, o álbum encosta-se ao rock alternativo dos anos 90 sem lhe prestar vassalagem nostálgica. O grunge aparece na densidade crua das linhas de baixo e na aspereza emocional. O punk infiltra-se nas estruturas diretas e na urgência quase física. Há torções inesperadas, desvios rítmicos e um sentido de ironia que impede qualquer leitura saudosista. O caos aqui é ferramenta, nunca acidente.

    Liricamente, a banda continua a operar naquele território onde a sátira social se cruza com o comentário existencial. O quotidiano é desmontado com humor ácido, mas também com uma estranha ternura. A própria definição do disco, “a entrar na meia-idade sem queimar no tacho, malandrinho no trato, agulha no tempero”, revela essa consciência do tempo. Não se trata de abrandar, trata-se de saber exatamente quando aumentar o lume.

    Depois do homónimo de 2018 e de Suicídio Comercial em 2022, OUTRA VEZ ARROZ consolida uma linguagem que já não pede validação externa. É a reafirmação de uma identidade construída à margem, quilómetro após quilómetro, palco após palco. Repetir, aqui, é insistir até que a repetição se transforme em mantra.

    No dia 28 de fevereiro, o álbum ganha corpo ao vivo com a apresentação na Casa Capitão, onde o arroz promete ser servido quente, direto do tacho para a plateia.


Fotografia 1: @torstudio

Fotografia 2: Óscar Silva

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