O Lume Continua Alto: BALEIA BALEIA BALEIA Lançam “OUTRA VEZ ARROZ”
A 12 de fevereiro, os BALEIA BALEIA
BALEIA voltaram a servir arroz. Mas não aquele que sobra no fundo
do tacho. Falamos de receita apurada, lume controlado e tempero próprio. OUTRA VEZ
ARROZ, o quinto lançamento da dupla portuense e terceiro
longa-duração de originais, é menos uma repetição e mais um statement. Quando a
fórmula é tua, repetir é reivindicar território.
Editado
pela Saliva
Diva, com o apoio da Fundação GDA, o disco chega em
vinil e CD como um objeto físico que condiz com a ética da banda. Mãos na
massa, suor no palco, zero verniz desnecessário. A pré-venda limitada do vinil
reforçou a lógica de culto que o duo tem vindo a consolidar, baseada em
proximidade, comunidade e fricção direta.
O
título pode soar a piada interna, mas funciona como tese. OUTRA VEZ ARROZ
parte da metáfora culinária para falar de maturidade criativa. Se já
encontraste o teu tempero, não precisas de reinventar a cozinha a cada prato.
Manuel Molarinho, no baixo e voz, e Ricardo Cabral, na bateria e voz, mantêm a
formação minimalista como arma estética. Não há camadas supérfluas nem
distrações. Só músculo, repetição hipnótica e palavras que tanto mordem como
piscam o olho.
Sonoramente,
o álbum encosta-se ao rock alternativo dos anos 90 sem lhe prestar vassalagem
nostálgica. O grunge aparece na densidade crua das linhas de baixo e na
aspereza emocional. O punk infiltra-se nas estruturas diretas e na urgência
quase física. Há torções inesperadas, desvios rítmicos e um sentido de ironia
que impede qualquer leitura saudosista. O caos aqui é ferramenta, nunca
acidente.
Liricamente,
a banda continua a operar naquele território onde a sátira social se cruza com
o comentário existencial. O quotidiano é desmontado com humor ácido, mas também
com uma estranha ternura. A própria definição do disco, “a entrar na meia-idade
sem queimar no tacho, malandrinho no trato, agulha no tempero”, revela essa
consciência do tempo. Não se trata de abrandar, trata-se de saber exatamente quando
aumentar o lume.
Depois
do homónimo de 2018 e de Suicídio Comercial em 2022, OUTRA VEZ
ARROZ consolida uma linguagem que já não pede validação externa. É
a reafirmação de uma identidade construída à margem, quilómetro após
quilómetro, palco após palco. Repetir, aqui, é insistir até que a repetição se
transforme em mantra.
No dia 28 de fevereiro, o álbum ganha corpo ao vivo com a
apresentação na Casa Capitão, onde o arroz promete ser servido quente,
direto do tacho para a plateia.
Fotografia 1: @torstudio
Fotografia 2: Óscar Silva



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