The Shape of Her Sound: Traz-nos Alice Bag

By VoxPop - fevereiro 16, 2026

 

O nome dela é Alicia Armendariz, mas o mundo conhece-a como Alice Bag. Nasceu a 7 de novembro de 1958, em Los Angeles, filha de imigrantes mexicanos, e desde cedo sentiu o peso e a beleza de crescer entre duas culturas, com a cidade inteira a pulsar no peito e na alma. Cresceu a ouvir rancheras, soul e rock, misturando o som da rua com o som do coração, e descobriu que a música não era apenas som: era identidade, era resistência, era raiva e beleza líquida que queimava dentro dela. Na adolescência, Alice enfrentou o bullying, a exclusão, o peso de ser mulher e latina num mundo que não queria ouvir a sua voz, mas encontrou na filosofia, estudada na California State University, Los Angeles, uma lente para compreender a vida, a sociedade e a si própria.

Depois de se formar, Alice tornou-se professora de inglês em escolas do centro de Los Angeles, usando o nome Alice Velazquez, e dedicou-se à educação bilíngue em contextos de grande desafio social. Esta experiência não só lhe permitiu transformar vidas de jovens em bairros desfavorecidos, como também aprimorou a sua própria capacidade de comunicação e empatia. “Trabalhar com crianças ensinou-me que não podia ficar zangada com elas. Se havia dificuldade em comunicar, era minha responsabilidade encontrar a forma certa de me fazer entender,” recorda Alice. A experiência docente trouxe-lhe clareza e maturidade que mais tarde se refletiram nas letras das suas canções, transformando a raiva crua do punk em mensagens mais conscientes e precisas. Após vinte anos na sala de aula, aposentou-se, mantendo a educação como uma extensão da sua arte e ativismo.

Foi no punk rock de Los Angeles, em 1977, que Alice irrompeu para o mundo. Ela e Patricia “Pat Bag” Morrison fundaram os The Bags, uma banda que incendiava tudo à sua volta com energia crua, feroz e revolucionária. Em atuações selvagens, com sacos de papel na cabeça ou a gritar letras como “Violent Girl” e “Survive”, Alice deixou claro: não pediria permissão para existir. A banda contava com Alice Bag na voz principal, Patricia Morrison no baixo, Craig Lee na guitarra, Rob Ritter / Rob Graves na guitarra e baixo, e Terry Graham na bateria, formando um núcleo poderoso que captava a essência do punk de Los Angeles. Em fases de ensaio ou gravação, trabalharam também com músicos como Janet Koontz, Geza X e Joe Nanini, criando uma rede de ligação entre o punk, o deathrock e o gótico, conectando-se com tudo o que a cidade tinha de mais elétrico e rebelde.

Os Bags actuaram em clubes icónicos como The Masque e Hong Kong Café, partilhando palco ou bairro com bandas como The Germs, The Weirdos, X e Black Flag, e foram filmados para o documentário seminal “The Decline of Western Civilization”, onde surgiram como Alice Bag Band devido a alterações na formação da banda durante a edição do filme. Apesar de nunca terem atingido grande sucesso comercial, os membros dos Bags mantiveram ligações duradouras com figuras importantes da música. Patricia Morrison, após os Bags, tocou nos Gun Club, nas Sisters of Mercy e nos Damned, chegando mesmo a casar com Dave Vanian, vocalista dos Damned. Rob Ritter integrou os 45 Grave, pioneiros do deathrock, enquanto Terry Graham colaborou com os Gun Club e Craig Lee se tornou crítico e escritor de referência sobre a cena punk, escrevendo para fanzines como Slash e coautor do livro “Hardcore California: A History of Punk and New Wave”. Estes laços mostram como os Bags, mesmo ofuscados pelo género e pelo preconceito, estavam no centro da rede que ligava o punk de Los Angeles às cenas alternativas e góticas internacionais, criando uma teia de música, amizade e rebeldia que se estenderia por décadas.

Alice Bag é bissexual, mulher, mãe, filha. Pausou a carreira para criar a filha e reencontrar-se consigo própria. Enfrentou os fantasmas do punk: álcool, autolesão e a tentação do caos, mas sempre com uma coragem rara de se olhar ao espelho e continuar. A sua autobiografia, “Violence Girl: From East L.A. Rage to Hollywood Stage”, é um manifesto de sobrevivência, identidade e autenticidade, um grito que atravessa o tempo e mostra a força de quem se recusa a ser apagado. Tornou-se também educadora, escritora e ativista, transformando dor em inspiração e memória em revolução. Os seus álbuns a solo — “Alice Bag”, “Blueprint” e “Sister Dynamite” — não são apenas músicas; são bandeiras erguidas contra o machismo, o racismo e a invisibilidade das mulheres e artistas latinos no rock. Cada acorde, cada verso, cada nota de guitarra é uma declaração: ela existiu, existe e resistirá.

Hoje, olhar para Alice Bag é ver a história do punk escrita em letras femininas e chicanas, é ouvir a voz de quem jamais se deixou apagar. A sua importância na música é colossal, embora muitas vezes tenha sido ofuscada pelo género e pelo preconceito. Ela é prova viva de que talento, coragem e autenticidade não têm género, e que a verdadeira revolução começa quando alguém se recusa a ser invisível. Alice Bag não é apenas uma cantora punk. Alice Bag é uma tempestade, uma memória viva, uma heroína que desafia o mundo e convida todos a resistir consigo, com gritos de guitarra e raiva no coração, fazendo da música um acto de sobrevivência, identidade, liberdade absoluta e ensino transformador.

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