O nome dela é Alicia Armendariz, mas o
mundo conhece-a como Alice Bag. Nasceu a 7 de novembro de 1958, em Los Angeles,
filha de imigrantes mexicanos, e desde cedo sentiu o peso e a beleza de crescer
entre duas culturas, com a cidade inteira a pulsar no peito e na alma. Cresceu
a ouvir rancheras, soul e rock, misturando o som da rua com o som do coração, e
descobriu que a música não era apenas som: era identidade, era resistência, era
raiva e beleza líquida que queimava dentro dela. Na adolescência, Alice
enfrentou o bullying, a exclusão, o peso de ser mulher e latina num mundo que
não queria ouvir a sua voz, mas encontrou na filosofia, estudada na California
State University, Los Angeles, uma lente para compreender a vida, a sociedade e
a si própria.
Depois de se formar, Alice tornou-se
professora de inglês em escolas do centro de Los Angeles, usando o nome Alice
Velazquez, e dedicou-se à educação bilíngue em contextos de grande desafio
social. Esta experiência não só lhe permitiu transformar vidas de jovens em
bairros desfavorecidos, como também aprimorou a sua própria capacidade de
comunicação e empatia. “Trabalhar com crianças ensinou-me que não podia ficar
zangada com elas. Se havia dificuldade em comunicar, era minha responsabilidade
encontrar a forma certa de me fazer entender,” recorda Alice. A experiência
docente trouxe-lhe clareza e maturidade que mais tarde se refletiram nas letras
das suas canções, transformando a raiva crua do punk em mensagens mais
conscientes e precisas. Após vinte anos na sala de aula, aposentou-se, mantendo
a educação como uma extensão da sua arte e ativismo.
Foi no punk rock de Los Angeles, em 1977,
que Alice irrompeu para o mundo. Ela e Patricia “Pat Bag” Morrison fundaram os
The Bags, uma banda que incendiava tudo à sua volta com energia crua, feroz e
revolucionária. Em atuações selvagens, com sacos de papel na cabeça ou a gritar
letras como “Violent Girl” e “Survive”, Alice deixou claro: não pediria
permissão para existir. A banda contava com Alice Bag na voz principal,
Patricia Morrison no baixo, Craig Lee na guitarra, Rob Ritter / Rob Graves na
guitarra e baixo, e Terry Graham na bateria, formando um núcleo poderoso que
captava a essência do punk de Los Angeles. Em fases de ensaio ou gravação,
trabalharam também com músicos como Janet Koontz, Geza X e Joe Nanini, criando
uma rede de ligação entre o punk, o deathrock e o gótico, conectando-se com
tudo o que a cidade tinha de mais elétrico e rebelde.
Os Bags actuaram em clubes icónicos como
The Masque e Hong Kong Café, partilhando palco ou bairro com bandas como The
Germs, The Weirdos, X e Black Flag, e foram filmados para o documentário
seminal “The Decline of Western Civilization”, onde surgiram como Alice Bag
Band devido a alterações na formação da banda durante a edição do filme. Apesar
de nunca terem atingido grande sucesso comercial, os membros dos Bags
mantiveram ligações duradouras com figuras importantes da música. Patricia
Morrison, após os Bags, tocou nos Gun Club, nas Sisters of Mercy e nos Damned,
chegando mesmo a casar com Dave Vanian, vocalista dos Damned. Rob Ritter
integrou os 45 Grave, pioneiros do deathrock, enquanto Terry Graham colaborou
com os Gun Club e Craig Lee se tornou crítico e escritor de referência sobre a
cena punk, escrevendo para fanzines como Slash e coautor do livro “Hardcore
California: A History of Punk and New Wave”. Estes laços mostram como os Bags,
mesmo ofuscados pelo género e pelo preconceito, estavam no centro da rede que
ligava o punk de Los Angeles às cenas alternativas e góticas internacionais,
criando uma teia de música, amizade e rebeldia que se estenderia por décadas.
Alice Bag é bissexual, mulher, mãe, filha.
Pausou a carreira para criar a filha e reencontrar-se consigo própria.
Enfrentou os fantasmas do punk: álcool, autolesão e a tentação do caos, mas
sempre com uma coragem rara de se olhar ao espelho e continuar. A sua
autobiografia, “Violence Girl: From East L.A. Rage to Hollywood Stage”, é um
manifesto de sobrevivência, identidade e autenticidade, um grito que atravessa
o tempo e mostra a força de quem se recusa a ser apagado. Tornou-se também educadora,
escritora e ativista, transformando dor em inspiração e memória em revolução.
Os seus álbuns a solo — “Alice Bag”, “Blueprint” e “Sister Dynamite” — não são
apenas músicas; são bandeiras erguidas contra o machismo, o racismo e a
invisibilidade das mulheres e artistas latinos no rock. Cada acorde, cada
verso, cada nota de guitarra é uma declaração: ela existiu, existe e resistirá.
Hoje, olhar para Alice Bag é ver a história
do punk escrita em letras femininas e chicanas, é ouvir a voz de quem jamais se
deixou apagar. A sua importância na música é colossal, embora muitas vezes
tenha sido ofuscada pelo género e pelo preconceito. Ela é prova viva de que
talento, coragem e autenticidade não têm género, e que a verdadeira revolução
começa quando alguém se recusa a ser invisível. Alice Bag não é apenas uma
cantora punk. Alice Bag é uma tempestade, uma memória viva, uma heroína que
desafia o mundo e convida todos a resistir consigo, com gritos de guitarra e
raiva no coração, fazendo da música um acto de sobrevivência, identidade,
liberdade absoluta e ensino transformador.


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