Conheci Beatriz Madruga no Festival Emergente, no final de 2025. Primeiro, vi-a em palco com MALVA, guitarra elétrica entre vozes e outros instrumentos. No dia seguinte, voltou a aparecer, mas desta vez estava sozinha. Uma guitarra, um amplificador e o silêncio de uma sala à espera de ser preenchido.
Foi aí que fiquei verdadeiramente atenta, ou melhor presa à sua música. Há qualquer coisa muito forte e ao mesmo tempo sensivel na forma como Beatriz toca que nos faz esquecer, por momentos, que estamos simplesmente a ouvir uma guitarra. Ela não canta, nem precisa, pois há uma voz muito clara naquilo que faz. Está nas notas que escolhe, na maneira como as deixa respirar, nos silêncios entre elas, na tensão que cria e desfaz. A guitarra parece ser o lugar onde Beatriz pensa, sente e comunica. E há uma intimidade muito particular nessa relação: como se cada som fosse uma palavra e cada frase musical dissesse um pouco mais do que aquilo que conseguimos explicar.
Depois de a ver tocar e de me deparar com tanto talento na guitarra, soube que queria que Beatriz fizesse parte desta rubrica. The Shape of Her Sound nasce precisamente da vontade de conhecer e dar espaço às mulheres que fazem música, às suas diferentes linguagens, percursos e formas de ocupar o espaço musical. Mais do que falar apenas sobre aquilo que fazem, esta rubrica procura perceber o que existe por detrás do som: as referências, as escolhas, as inquietações e as histórias que dão forma a cada percurso. E, no caso de Beatriz, há uma história que se ouve na forma como toca, uma história feita de estudo, descoberta, colaboração e, sobretudo, de uma relação muito profunda com a guitarra.
O percurso da Beatriz começou na guitarra clássica. Entre 2011 e 2016, Beatriz estudou na Escola Profissional de Música de Espinho, onde integrou a Orquestra de Jazz de Espinho e teve contacto com músicos como Tó Trips, Carlos Azevedo e Rita Maria. Foi ali que começou também a alargar os limites daquilo que a guitarra podia ser para si, aproximando-se de diferentes linguagens e formas de fazer música. Encontrando a sua própria forma de comunicar apenas com guitarra.
Mais tarde, levou o instrumento consigo para os Países Baixos, onde estudou Guitarra Jazz no Prins Claus Conservatorium, em Groningen, e concluiu a licenciatura em 2022. Nesse mesmo ano surgiu OXALÁ, o seu primeiro trabalho a solo. O álbum reúne peças que Beatriz escreveu entre os 13 e os 23 anos, composições que acompanham, quase como um diário, uma década de crescimento e de descoberta através da guitarra. É um trabalho onde se encontram a formação clássica, as influências do jazz e uma vontade constante de procurar novas possibilidades para o instrumento.
Mas o percurso de Beatriz também se faz de encontros. Tem colaborado com diferentes artistas e, nos últimos anos, passou a integrar a banda de MALVA, onde a guitarra assume outro lugar, inserida num universo coletivo e numa linguagem diferente daquela que encontramos no seu trabalho a solo. Entre estes dois espaços, o palco onde a guitarra é inteira protagonista e aquele onde se torna parte de algo maior, Beatriz vai construindo o seu caminho.
Talvez seja precisamente essa capacidade de fazer a guitarra dizer coisas diferentes que torna o seu trabalho tão cativante. Há a técnica, claro, mas há sobretudo escuta, intenção e uma vontade permanente de descobrir. Beatriz não precisa de cantar para ocupar o espaço com uma voz, ela encontrou outra maneira de o fazer. E quem me conhece sabe o quanto adoro este dom.
É sobre essa voz através da guitarra que ela encontrou, sobre o caminho que a trouxe até aqui e sobre aquilo que ainda está por descobrir que conversámos com Beatriz Madruga.
Não foi possível não querer saber mais e tivemos à conversa com a Beatriz, para vos trazer um pouco do seu mundo.
1 - O que costuma vir primeiro quando começas a compor: uma imagem, uma sensação física ou um som muito concreto na guitarra?
Quando comecei a compor, fazia-o quase sempre na sequência de novas descobertas no instrumento - um acorde novo, uma técnica recém-aprendida, pequenas revelações sonoras. Com o tempo, isso foi mudando. Atualmente, a composição nasce mais de uma sensação. É quase como agarrar a música antes de ela se tornar som. É um processo mais subliminar e menos literal do que era antes.
2 - Nas tuas músicas sente-se muito o espaço o silêncio, de uma forma maravilhosa, pois é algo cheio e valioso. O silêncio, para ti, é uma escolha estética consciente ou algo que simplesmente acontece?
Antes de mais, obrigada! Pensar na música instrumental como algo silencioso acaba por se tornar inevitável no tempo em que vivemos. Naturalmente, a predisposição que temos para receber este tipo de música é praticamente nula — não só pela falta de contextos de escuta disponíveis para o fazer, mas também por este género já não dominar o meio mainstream.
É curioso pensar que, até meados do século XX, a música instrumental dominava uma grande parte do que era então entendido como entretenimento e que, até aí, era sempre interpretada em formato acústico. Em contraste, hoje em dia temos acesso a todo o tipo de música, com géneros e subgéneros praticamente infinitos, e a todos os níveis de volume.
O silêncio — ou o espaço — que se manifesta na minha música não é inteiramente inconsciente, mas sim persistente. Continuarei em busca dessa pausa nas minhas composições.
3 - Houve alguma música tua que te tenha “ensinado” algo sobre ti mesma depois de estar terminada?
Sim. A minha música “MOA” ensinou-me que, como qualquer outra língua, a música é uma linguagem que demora anos a desenvolver. Tendo eu influências tão distintas como o jazz e a música clássica, só após alguns anos de estudo é que senti que ambas se começaram a fundir. Essa música é um exemplo perfeito disso.
4 - Quando tocas a solo, disseste que ficas mais tímida, sentes que estás mais próxima do público ou mais dentro de ti?
Para quem me conhece pessoalmente, é engraçado imaginar-me como alguém que sofre dessa timidez. Tocar sozinha em palco é uma experiência bonita, embora assustadora. A timidez resulta precisamente desse medo de ocupar o espaço.
5 - Existem alguns livros ou filmes que te influenciam na construção da tua música ou de alguma das músicas em especial?
Não diretamente. Existe uma conexão inevitável com o mundo visual, sendo que a música que escrevo tem sempre um carácter cinematográfico. No entanto, não há uma referência concreta a filmes ou livros. Houve paisagens, momentos e talvez algumas questões existenciais que me fizeram sentir inspirada.
Na minha música “Barcarello”, por exemplo, senti-me inspirada pela paisagem dessa região de Itália e pelos momentos que lá vivi. É possível que, no futuro, venha a musicar algumas passagens de um dos meus livros de eleição, The Left Hand of Darkness, de Ursula K. Le Guin.
7 - Como é que sabes que uma música está “acabada” e não apenas abandonada no momento certo?
Confesso que fujo das que não acabadas - o que, por si só, demonstra qual é qual.
8 - Já alguma vez uma música tua te levou para um sítio emocional para o qual não estavas preparada?
Durante o processo de composição, nunca. No palco, sim. É natural que este traga essa sensação em certos momentos. No fim de contas, é o mesmo que falar sozinho ou com alguém — na música, é igual.
9 - O que é que aprendeste a desaprender desde que começaste a lançar música em teu nome?
Aprendi a aceitar que a perfeição não existe, tal como o “final” de uma música. É um processo, e nunca nos parece realmente acabado. Isto foi algo que sempre mexeu comigo. Ao querer que tudo fosse demasiado perfeito, acabei por me privar de tocar ao vivo e de gravar coisas novas. É bom sermos exigentes connosco próprios, mas é ainda mais importante apercebermo-nos de que essa exigência não pode ser um entrave à nossa criatividade.
10 - Se tivesses de escolher uma única palavra que atravessasse todo o teu trabalho até agora, qual seria?
Persistência.
12 - Neste momento da tua vida, o que é que a música ainda te deve — e o que é que tu sentes que lhe deves a ela?
Tempo.
Texto: Sofia Reis
Fotografias: Gentilmente cedidas por Beatriz Madruga







.webp)











