The Shape of Her Sound - Roberta Bayley: A Lente Que Capturou o Punk de Nova Iorque
Nova Iorque, primavera de 1974. O Bowery ainda era uma rua esquecida, ladeada por postos de gasolina e hotéis baratos, onde a vida parecia atravessar o tempo sem pressa. É nesse cenário que chega Roberta Bayley, uma jovem californiana de Pasadena, com uma passagem só de ida e uma paixão incandescente por música. Criada na região da Baía de São Francisco, cresceu a ouvir os Beatles, os Rolling Stones, os Kinks, os Who, os Byrds e Bob Dylan. Mas nada a prepararia para a energia, o caos e a liberdade que encontraria no Lower East Side.
Em 1973, em
Londres, conheceu Ian Dury e o seu grupo Kilburn and the High Roads, com quem
viveu um romance. No ano seguinte, em 1974, comprou a única passagem de volta
que podia pagar para os Estados Unidos e chegou a Nova Iorque. Não conhecia
ninguém na cidade, mas rapidamente se inseriu na cena musical local. Poucos
meses depois, conheceu o músico e poeta Richard Hell, que a apresentou ao CBGB,
clube recém-inaugurado no Bowery, ainda pequeno e modesto, mas prestes a
tornar-se o epicentro do punk nova-iorquino.
Roberta
começou por trabalhar na porta do CBGB, a cobrar três dólares de entrada e
observando cada movimento, cada interação. Não era uma visitante ocasional —
estava lá cinco noites por semana, vendo as bandas crescerem, conhecendo os
músicos, absorvendo a energia do lugar. Foi nesse contacto diário, íntimo e
natural, que começou a fotografar. Em 1975 comprou a sua primeira câmara e, sem
formação formal, desenvolveu um estilo instintivo. Como dizia, “fotografia é
mais o olho do que a técnica”. As suas primeiras fotos capturaram os
Heartbreakers e, pouco depois, tornou-se fotógrafa-chefe da Punk Magazine,
contribuindo para consolidar a estética visual do punk.
Fotografou artistas como Iggy Pop, Debbie Harry e Blondie, Richard
Hell, Elvis Costello, Sex Pistols, The Clash, The Damned, New York Dolls, X-Ray
Spex, Dead Boys, Brian Eno, Nick Lowe, Squeeze, entre muitos outros. Cada imagem era fruto de proximidade e
amizade: Roberta fotografava amigos, não trabalhos. Viajou com Blondie, estava
presente em ensaios, bastidores e shows, capturando momentos espontâneos que
poucos conseguiriam.
As suas
imagens icónicas definiram visualmente o punk. A capa do álbum Ramones, a
fotografia de Richard Hell para Blank Generation, a imagem dos Heartbreakers que
apareceu no livro Please Kill Me, tudo contribuiu para a memória
coletiva do movimento. Mas, por décadas, Roberta permaneceu invisível. Enquanto
fotógrafos homens com menos créditos ou talento eram celebrados, a indústria,
dominada por homens, raramente reconheceu o valor da sua visão. A desigualdade
de género no rock transformou parte do seu trabalho numa presença silenciosa,
apesar do respeito e amizade que sempre teve dos músicos.
Em 1976,
Roberta conheceu David Godlis na porta do CBGB. Ambos se tornaram amigos e
documentaram a cena punk de formas diferentes. Godlis, fotógrafo de rua,
admirava a capacidade de Roberta de capturar a vida do clube sem interferir.
Ela estava próxima das bandas sem ser intrusiva, mantendo a naturalidade dos
momentos. “Se eu tivesse levado luzes, maquilhadores ou cenários, tudo teria
sido diferente”, lembrava, descrevendo sessões com os Ramones e com Blondie. A
sua invisibilidade voluntária permitiu-lhe registar a autenticidade da cena e
momentos íntimos que se tornaram históricos.
O CBGB era um
microcosmo de intensidade criativa. Cada noite trazia novas histórias, novas
faces, novas músicas. Roberta recorda-se dos primeiros shows do Blondie, sempre
com palcos cheios, mas com os Ramones havia espaço para fotografias únicas,
capturando fãs, artistas nos bastidores, a vida a acontecer sem encenação. Para
David Godlis, a experiência era quase cinematográfica: “Estavas a urinar no
banheiro masculino e pensavas: talvez devesse fotografar isto? Era estranho e
natural ao mesmo tempo.”
Além da
fotografia, Roberta co-escreveu Patti Smith: An Unauthorized Biography e publicou Blondie
Unseen. Apareceu no filme independente Downtown 81, estrelado
por Jean Michel Basquiat, que documentava a cena artística do Lower East Side
nos anos 80. As suas fotos viajaram pelo mundo, de Nova Iorque a Tóquio, de
Paris a Buenos Aires, e até Connecticut. Cada imagem era mais do que um
retrato; era memória, história, arte.
Mesmo com
talento inquestionável e respeito absoluto dos músicos, Roberta enfrentou a
invisibilidade institucional. Muitos fotógrafos homens, com menos créditos ou
mesmo menos talento, tornaram-se mais reconhecidos. “É difícil ser mulher na
indústria da música. É um lugar de homens”, refletia. Apesar de estar no
coração do punk, o seu trabalho raramente recebia o crédito que merecia.
Roberta nunca
deixou que isso a impedisse. Continuou a fotografar com instinto, coragem e
proximidade, preservando a autenticidade da cena. Cada imagem é uma janela para
a energia crua do punk, para a amizade, para os bastidores, para os momentos
privados. Ela transformou a sua visão em história, ajudando a definir
visualmente um movimento inteiro.
Quando lhe
perguntam se imaginava que as suas fotos continuariam a ser discutidas décadas
depois, responde que não. Entre os anos 70 e 90, quase ninguém dava valor. Só
com o sucesso de bandas como Nirvana, que citavam o punk como influência, é que
a indústria voltou a olhar para o seu trabalho. Mesmo assim, muitas portas
permaneceram fechadas, muitas oportunidades nunca surgiram, simplesmente por
ser mulher.
Hoje, é impossível contar a história do punk sem mencionar Roberta Bayley. O seu arquivo é um dos registos mais completos, honestos e sensíveis da cena de Nova Iorque. Mais do que fotografias, são documentos culturais. Mais do que memórias, são provas de que o talento feminino foi muitas vezes esquecido, mas resiste quando verdadeiro. Falar de Roberta é reconhecer que a história da música não se fez apenas nos palcos, mas também através dos olhos e da câmara de mulheres que deram rosto ao movimento, mesmo quando a indústria lhes negava o crédito que mereciam.
Roberta
Bayley vive atualmente em Nova Iorque, onde continua a ser testemunha e guardiã
de um dos momentos mais cruciais da história da música. Cada fotografia sua
mantém a força, a amizade e a liberdade que presenciou, provando que a arte
verdadeira não se apaga, mesmo quando a história tentou esquecê-la.
Texto Escrito por Sofia Reis


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