O Baile da Utopia: Molly Nilsson e Scott Hardware na Galeria Zé dos Bois

By VoxPop - fevereiro 09, 2026

     Na véspera de uma lua cheia que se adivinhava carregada de simbolismo, o aquário da ZDB, em Lisboa, transformou-se num refúgio de emoções cruas e músicas pulsantes. Molly Nilsson, a profeta do DIY, regressou à capital depois bem 20 anos para um concerto esgotado que oscilou entre a melancolia da balada e o fervor da pista de dança.

    A noite arrancou com a elegância discreta de Scott Hardware. Num registo despido, servido apenas pela sua voz e guitarra, o músico canadiano soube ler a sala. Onde outrora encontrámos arranjos mais densos, nesta noite de lotação esgotada fomos brindados com um minimalismo sugestivo.

    A sua atuação foi um exercício de vulnerabilidade. As atmosferas criadas envolveram o público num abraço melancólico, preparando o terreno emocional para o que viria a seguir. Foi uma abertura curta, mas certeira, que provou que, por vezes, menos é mais quando a composição é sólida.

    Quando Molly Nilsson subiu ao palco, a energia na sala mudou instantaneamente. Sem banda e com uma presença que preenche cada centímetro da Galeria, a sueca reafirmou por que é uma figura única na pop contemporânea.

    O alinhamento foi uma montanha-russa emocional perfeitamente calibrada. Molly explorou as várias faces do amor, não aquele amor de postal, mas a versão distorcida e real que caracteriza o seu ultimo álbum “Amateur". O ritmo acelerou quando os sintetizadores invocaram a urgência da dança. Foi nesse momento que a ZDB se transformou numa espécie de “party comunista” como foi apresentado pela mesma sueca: uma coletividade unida pelo ritmo.
    Para além da música, Molly revelou-se uma anfitriã nata. Entre temas partilhou histórias, comentários perspicazes e momentos de humor que quebraram a quarta parede. Esta capacidade de entreter e dialogar com o público criou uma ligação genuína que manteve a audiência rendida durante todo o set.

    Com a sala completamente cheia e os bilhetes esgotados, o calor humano misturou-se com a bruma eletrónica. Molly domina o palco com uma confiança desarmante, alternando entre momentos de introspeção profunda e hinos que fazem o público saltar em uníssono.

    A coincidência da véspera de lua cheia pareceu emprestar uma aura mística ao espetáculo. No final, o que ficou foi a sensação de termos testemunhado algo autêntico. Entre o desabafo íntimo, a interação constante e o batido eletrónico, Molly Nilsson e Scott Hardware ofereceram-nos a todos uma noite de resistência poética e celebração coletiva.

    Para veres a reportagem fotográfica passa pela nossa página de Instagram.

Texto e Fotografias de António Colombini


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