Algunas musicas que nascem da necessidade de olhar para trás antes de perceber para onde seguir, em Último Ensaio Sobre Seus Olhos, obelga transforma esse movimento numa coleção de canções sobre o amor, a passagem do tempo e as experiências que moldam a nossa identidade. Natural de Uberlândia, no estado brasileiro de Minas Gerais, Matheus Augusto de Oliveira cruza o rap com o soul e o boogie, construindo uma sonoridade que combina a força narrativa do hip-hop com arranjos melódicos e uma abordagem atenta às pequenas histórias do quotidiano.
Antes de editar o primeiro álbum de estúdio, o músico foi desenvolvendo o seu percurso através de lançamentos independentes. As mixtapes Caim, de 2021, Retaliação, de 2022, e Chucrilhos, de 2023, acompanharam diferentes etapas dessa evolução. Editada pela Sertão da Farinha Podre, editora fundada pelo próprio artista, a última reforçou a dimensão autónoma do projeto e a importância da experimentação e da colaboração na construção da sua identidade musical.
A escrita continua a ser um dos elementos centrais do trabalho de obelga, mas a sua abordagem ultrapassa as convenções do rap. As rimas convivem com harmonias vocais, instrumentos acústicos e ritmos que evocam a tradição brasileira do soul e do boogie. Por vezes, a voz abandona a cadência habitual do hip-hop para se aproximar do canto, enquanto os arranjos assumem um papel tão importante como as palavras.
Entre as referências que ajudam a enquadrar este universo estão Quincy Jones e Isaac Hayes, pela riqueza dos arranjos e pela relação entre ritmo e melodia, e Mano Brown, pela importância da escrita na tradição do rap brasileiro. Estas influências não funcionam como modelos a reproduzir, mas como pontos de partida para uma linguagem que combina diferentes heranças musicais com a experiência de crescer e trabalhar numa cena independente.
Editado em novembro de 2025 pela RISCO, Último Ensaio Sobre Seus Olhos assinala um novo capítulo neste percurso. Com dez faixas, o álbum reúne vários colaboradores e desenvolve uma narrativa em torno das relações afetivas, da espera e das marcas deixadas pelas experiências vividas. A sequência alterna entre momentos de maior contenção e passagens mais expansivas, sem perder a coesão. É um disco que convida tanto à escuta atenta como ao movimento, deixando que a componente rítmica e a riqueza instrumental coexistam com a densidade das letras.
A faixa de abertura, «descansar é pecado», conta com a participação de Ana Frango Elétrico e introduz uma das questões que atravessam o álbum: a dificuldade de abrandar num quotidiano dominado pela inquietação e pela vontade de seguir em frente. A colaboração acrescenta uma nova dimensão ao tema, enquanto as participações de VND, Murica, JOCA, dadá joãozinho, Gab Ferreira e Tarcis ampliam as possibilidades sonoras do projeto, trazendo diferentes vozes e sensibilidades para a narrativa.
A concretização destas ideias dependeu também de um trabalho coletivo no estúdio. Os produtores RyamBeatz e Pirlo tiveram um papel central na construção do álbum, trabalhando os arranjos, as vozes e a instrumentação para encontrar um equilíbrio entre a produção eletrónica e os instrumentos tocados. Teclados, guitarra, baixo, bateria, metais e vozes aproximam várias faixas de uma formação de soul, dando-lhes uma dimensão orgânica e permitindo que as composições se desenvolvam para além da estrutura tradicional do rap.
As canções revelam diferentes facetas deste universo. Em «Particular», um início contido dá lugar a um ritmo mais envolvente, enquanto «33 Noites» mergulha numa atmosfera noturna, marcada pela saudade. «Céu da Casa» aborda a ambição, a sobrevivência e o desejo de mudança. Já «Num Bairro Num Canto do Mundo» inclui uma gravação da avó do artista, incorporando uma voz familiar na composição e estabelecendo uma ligação direta entre a música e as histórias que passam de geração em geração.
A dimensão familiar estende-se à componente visual do projeto. Em colaboração com o artista Bruno Queiroz, obelga desenvolveu uma imagem que coloca a família e a comunidade no centro da narrativa. A fotografia associada ao álbum recria um casamento em frente à Igreja Nossa Senhora do Rosário de Miraporanga, em Uberlândia, com os próprios avós do músico entre os protagonistas. A escolha remete para as raízes do artista e para a importância dos lugares e das pessoas na construção de uma história individual.
Esta atenção às origens não significa, contudo, que o álbum se limite ao passado. As canções também abordam as dificuldades de construir um percurso profissional, manter relações e encontrar alguma estabilidade enquanto artista independente. São questões que surgem sem dramatização excessiva, integradas numa visão do quotidiano em que a incerteza faz parte da experiência de viver. É precisamente essa escala humana que permite que histórias particulares encontrem eco noutras vidas.
Em 2026, o lançamento de «Desabou» e a apresentação ao vivo de Último Ensaio Sobre Seus Olhos deram continuidade a esta fase do percurso. Em palco, obelga apresenta as canções acompanhado por uma formação alargada de músicos, valorizando a instrumentação e a interação entre os diferentes elementos. A passagem do estúdio para o concerto permite explorar novas dinâmicas e evidencia o peso que os arranjos assumem na identidade do álbum.
Num panorama em que o rap pode privilegiar a urgência da palavra ou o impacto imediato da produção, obelga aposta também na subtileza, na melodia e na construção gradual das composições. O seu trabalho não procura separar a reflexão do prazer de ouvir música: uma linha de baixo, uma mudança de ritmo ou uma harmonia vocal podem ser tão determinantes como aquilo que é dito. É nesse equilíbrio que o artista encontra uma abordagem própria, capaz de aproximar linguagens sem perder de vista a força da escrita.
O título Último Ensaio Sobre Seus Olhos sugere a tentativa de fixar uma imagem antes que ela se transforme em lembrança. Ao longo do disco, obelga explora justamente esse intervalo entre a experiência e a compreensão, entre aquilo que permanece e o que inevitavelmente muda. Sem procurar respostas definitivas, constrói um trabalho em que as histórias pessoais ganham novas dimensões através da música, cruzando a tradição do rap brasileiro com a riqueza melódica do soul.
obelga atua a 10 de outubro no Festival MIL Lisboa.

0 comments