A história da banda começa em 2007, quando os seus membros se conheceram num campo de férias de verão ligado a uma comunidade protestante. Ao longo dos anos, essa relação foi amadurecendo até dar origem a um projeto coletivo marcado pela diversidade de referências e pelo gosto pela composição. A formação de cada músico contribui para uma abordagem que combina rigor instrumental com uma escrita pouco convencional, onde o humor tem um lugar tão importante como a própria música.
Em 2023, os Mordo Mia editaram “Sente-se Primeiro”, o primeiro álbum de longa duração, gravado e produzido de forma independente. O disco apresentou um grupo interessado em explorar as possibilidades dos arranjos, alternando entre estruturas elaboradas e passagens que escapavam às convenções habituais do rock. A riqueza instrumental ocupava um lugar central, estabelecendo as bases de um projeto que procurava conciliar a ambição composicional com a liberdade de experimentar.
Em 2024, a vitória num concurso de bandas da Universidade Católica de Lisboa acrescentou um episódio insólito ao percurso. Entre os prémios estavam uma guitarra Fender Jazzmaster e uma sessão ao vivo que acabou por ser cancelada. Os Mordo Mia encararam o sucedido com ironia, transformando o contratempo numa espécie de ponto de viragem. A preparação do trabalho seguinte abriu caminho a uma abordagem diferente, menos dependente da exuberância instrumental e mais interessada nas possibilidades de uma composição económica e imprevisível.
Essa mudança concretizou-se em “Chumbo Côncavo”, editado em outubro de 2025 pela Saliva Diva. Com oito faixas, o segundo álbum apresenta arranjos mais minimalistas e estruturas menos previsíveis, num percurso que atravessa o rock alternativo, o punk e a pop experimental. As canções desenham cenários próximos de pequenas histórias noturnas, habitados por personagens que lidam com as relações sociais, as inquietações da adolescência tardia e os constrangimentos do quotidiano. Em comparação com o primeiro disco, há menos interesse em preencher todos os espaços e mais vontade de explorar aquilo que pode surgir quando a música deixa margem para o inesperado.
O próprio título sugere uma combinação de elementos aparentemente contraditórios: o chumbo remete para o peso e a densidade, enquanto a concavidade evoca um espaço vazio, à espera de ser ocupado. Esta imagem acompanha a transformação sonora do grupo, que encontra novas possibilidades ao reduzir os excessos e questionar as estruturas habituais das canções. Em vez de seguir uma narrativa contínua, o álbum aproxima-se de uma sucessão de situações e imagens que ganham significado através das relações que estabelecem entre si.
As letras de João Roque, responsável também pela voz, pelo piano e pelos teclados, dão forma a esse universo narrativo. O bullying, as e-girls, os neotrads e as falhas de memória surgem entre os temas abordados, mas não como elementos de uma crónica literal sobre o presente. O interesse está sobretudo nos comportamentos, nas obsessões e nos códigos sociais que revelam algo sobre a forma como as pessoas se relacionam. A escrita combina observação e absurdo, recorrendo a situações invulgares para expor contradições que, por vezes, estão demasiado próximas da realidade para serem imediatamente reconhecidas.
Em “E.B. -2, -3”, por exemplo, uma sequência alfabética torna-se o ponto de partida para uma experiência musical que desafia as expectativas. Noutros momentos, as letras desenvolvem imagens que parecem retiradas de um sonho ou de uma conversa levada longe demais. O humor nasce muitas vezes dessa desproporção entre as situações descritas e a forma como são apresentadas, sem que a banda precise de explicar a piada ou de a transformar numa conclusão moral.
A instrumentação acompanha as mudanças de direção da escrita. Bernardo Pereira, na bateria, António Pinto, no baixo, e Simão Bárcia, nas guitarras, formam a base de uma música que alterna entre passagens rítmicas mais diretas e estruturas menos convencionais. O violino de Ana Eduarda acrescenta uma textura distintiva, introduzindo novas tensões e ampliando as possibilidades tímbricas do grupo. Com a produção a cargo da própria banda, Chumbo Côncavo preserva a interação entre os instrumentos e evita uma sonoridade excessivamente polida, deixando que as composições mantenham o seu carácter irregular.
A dimensão performativa torna-se particularmente importante nos concertos, quando componente narrativa das letras cruza-se com a presença descontraída dos músicos, criando espaço para mudanças de intensidade e momentos de interação com o público. Em vez de reproduzir simplesmente os arranjos do disco, a atuação ao vivo permite explorar o lado mais teatral das composições e a relação entre a música e as personagens que nela habitam.
Num contexto musical em que os projetos são frequentemente apresentados através de etiquetas fáceis de reconhecer, os Mordo Mia seguem um caminho menos linear. A técnica não exclui o humor, tal como a complexidade dos arranjos não impede a espontaneidade. Com “Chumbo Côncavo”, o grupo aprofunda uma abordagem que privilegia a descoberta e a construção de canções capazes de mudar de forma sem perder a sua coerência interna.
Os Mordo Mia atuam a 10 de outubro no Festival MIL Lisboa.

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