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Candura: do Brasil à Noruega, uma viagem ao ritmo da música

By VoxPop - outubro 03, 2026



    Os Candura nasceram em Oslo, mas a sua história musical passa por outras geografias. No centro do projeto está Gabriela Garrubo, cantora brasileira cuja voz conduz canções onde a bossa nova e o samba convivem com a disco italiana, o funk e o indie pop. A combinação não procura reproduzir fielmente nenhuma destas tradições: parte delas para construir uma sonoridade contemporânea, marcada pelo trabalho dos arranjos e por uma relação próxima entre a voz e os instrumentos. Com apenas um single editado, a banda começa a afirmar-se como um dos projetos a acompanhar na nova música norueguesa.

    A formação reúne Gabriela Garrubo na voz, Sigmund Vestrheim na bateria, Leo Geller no baixo e Ole Petter Aalgård nos teclados. A direção musical e a produção estão a cargo de Erlend Mokkelbost, músico e produtor cuja curiosidade pela música brasileira teve um papel decisivo na criação do grupo. A diversidade de percursos dos seus membros permite abordar referências distintas sem as reduzir a uma simples soma de influências, dando origem a uma identidade que se desenvolve através da colaboração.

    O interesse de Mokkelbost pela música brasileira foi-se aprofundando ao longo dos anos, levando-o a explorar tanto os géneros mais reconhecidos como os caminhos menos convencionais da música popular do país. Entre as suas referências estão a psicadelia tropicalista e as experiências que, nas décadas de 1960 e 1970, desafiaram as estruturas tradicionais da canção brasileira. Nos Candura, essa pesquisa encontra uma nova expressão: em vez de recuperar essas sonoridades como peças de um arquivo musical, o grupo integra-as numa linguagem própria, aberta a outras influências e sensibilidades.

    A base rítmica e melódica vem da MPB, da bossa nova e do samba, mas a construção das canções segue outras direções. A disco italiana acrescenta uma pulsação mais marcada, o funk reforça o papel do baixo e da bateria, e o indie pop contribui para organizar as diferentes camadas instrumentais. Os teclados de Ole Petter Aalgård desempenham um papel importante na criação dos ambientes sonoros, enquanto a secção rítmica sustenta as melodias sem lhes retirar espaço. A produção procura precisamente esse equilíbrio entre a precisão dos arranjos e a liberdade de cada instrumento se afirmar.

    A língua portuguesa é outro elemento determinante. Cantadas por Gabriela Garrubo, as palavras não são apenas um veículo para as melodias: transportam cadências e particularidades fonéticas que influenciam a própria composição. A voz estabelece uma ligação direta à música brasileira, mesmo quando os arranjos seguem referências vindas de outras geografias. Esta escolha também distingue os Candura dentro da cena norueguesa, permitindo-lhes desenvolver uma identidade que não depende exclusivamente do contexto em que a banda foi formada.

    O primeiro lançamento oficial chegou em 2026, com «Por Aí», editado pela Jansen Records. O single apresenta a abordagem do grupo através de uma composição centrada na melodia e no groove, deixando perceber como as diferentes referências se articulam sem que uma se sobreponha às restantes. O título aponta para a ideia de movimento, mas também para uma certa abertura de caminhos: o projeto ainda está numa fase inicial e as possibilidades de desenvolvimento permanecem amplas.

    Apesar de uma discografia ainda reduzida, os Candura começaram cedo a despertar o interesse de programadores e festivais. O grupo foi anunciado para o SPOT Festival, na Dinamarca, e para o Øyafestivalen, na Noruega, dois palcos relevantes para a circulação de novos projetos musicais na região nórdica. A estreia ao vivo aconteceu em abril de 2026, no Jungelfest, em Bergen, dando início à apresentação em palco de um repertório que continuará a crescer à medida que a banda desenvolve o seu trabalho de estúdio.

    O percurso inicial dos Candura é particularmente interessante pela forma como reúne experiência e descoberta, os músicos trazem consigo conhecimentos técnicos e referências consolidadas, mas o projeto não se limita a prolongar os seus trabalhos anteriores. A colaboração permite-lhes experimentar outras formas de composição, explorando o espaço entre a estrutura rítmica, a melodia vocal e os detalhes instrumentais. A música brasileira funciona como uma base importante, mas não como um conjunto de regras a respeitar.

    Há também uma dimensão visual e espacial na forma como as composições são construídas. Os arranjos recorrem a harmonias, texturas e variações instrumentais que sugerem ambientes sem depender de descrições explícitas. Essa atenção à produção dá às canções profundidade e permite que os diferentes elementos ocupem o seu próprio espaço, sem tornar a composição excessivamente densa. A identidade dos Candura desenvolve-se tanto através da escolha dos ritmos como da maneira subtil com que os instrumentos se relacionam.

    O primeiro álbum de longa duração, intitulado “Candura”, tem lançamento previsto para fevereiro de 2027. O disco deverá expandir o universo apresentado em “Por Aí”, permitindo perceber como o grupo trabalha as suas influências ao longo de um conjunto mais amplo de composições. Será também uma oportunidade para conhecer melhor o contributo individual de cada músico e perceber
até que ponto a combinação entre a música brasileira e as referências europeias pode continuar a evoluir.

    O nome Candura sugere delicadeza e espontaneidade, características que se refletem numa abordagem que privilegia a musicalidade sem abdicar do cuidado na composição. Existe uma preocupação evidente com os detalhes, mas estes não tornam as canções inacessíveis. Pelo contrário, os arranjos são construídos de forma a preservar a clareza das melodias, deixando que a complexidade se revele gradualmente, à medida que se presta atenção às diferentes camadas instrumentais.

    A ligação entre Gabriela Garrubo e os restantes músicos permite ainda pensar a identidade artística para além das fronteiras nacionais. Formada na Noruega e com uma voz profundamente ligada à língua portuguesa, a banda não precisa de escolher entre os dois contextos. O seu repertório nasce precisamente da relação entre eles, mostrando como as referências culturais podem ser transformadas através do encontro entre músicos com experiências distintas. Não se trata de representar uma nacionalidade específica, mas de construir uma linguagem que resulta dessa colaboração.

    Os Candura estão ainda no início do percurso discográfico, mas “Por Aí” já estabelece algumas coordenadas para o que poderá vir a seguir. A combinação de ritmos brasileiros, produção contemporânea e arranjos cuidadosamente trabalhados dá ao projeto uma direção reconhecível, sem limitar as possibilidades de evolução. O álbum de estreia será o próximo passo para perceber como esta identidade se sustenta ao longo do tempo e que novas ideias surgirão do trabalho conjunto, este está previsto para 2027.

Os Candura atuam a 10 de outubro no Festival MIL Lisboa.

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