Um violino pode fazer mais do que desenhar melodias, e uma bateria não precisa de acompanhar uma canção para a fazer avançar. Nos marta, os dois instrumentos assumem o protagonismo de uma proposta de techno construída em tempo real, com pedais de efeitos e processamento eletrónico a expandirem as possibilidades de cada som. O duo francês parte de uma formação pouco habitual na música de dança para explorar o encontro entre execução instrumental, improvisação e precisão rítmica, sem depender da configuração tradicional de uma cabine de DJ.
Formados em França, em 2022, os marta juntam Joachim Baumerder, violinista com formação clássica, e Simon Lacouture, baterista com raízes no jazz. Apesar de partirem de percursos musicais distintos, os dois partilhavam o interesse pela eletrónica e pela capacidade do ritmo para alterar a perceção do tempo. A ideia de cruzar os instrumentos que já dominavam com uma linguagem habitualmente associada a sintetizadores e sequenciadores tornou-se o ponto de partida para o projeto.
A ligação entre o jazz e o techno revelou-se decisiva. A repetição, a construção de tensão e a procura de um estado de concentração aproximam os dois géneros, enquanto a improvisação permite introduzir variações numa estrutura rítmica contínua. Nos concertos, essa combinação significa que as composições não são reproduzidas de forma mecânica: os músicos podem alterar detalhes, prolongar determinadas passagens e responder às mudanças que vão surgindo durante a atuação.
O dispositivo instrumental é reduzido, mas oferece uma ampla margem de experimentação. O violino de Baumerder passa por pedais e efeitos que transformam o seu timbre, permitindo-lhe produzir ruídos, texturas e sequências repetitivas que se aproximam da linguagem dos sintetizadores. Lacouture, por sua vez, constrói a componente rítmica através da bateria, ajustando a intensidade e a dinâmica de acordo com o desenvolvimento de cada composição. As camadas eletrónicas complementam os instrumentos, sem retirar centralidade à execução dos dois músicos.
Esta economia de meios foi uma escolha consciente. A dupla chegou a experimentar uma formação mais alargada, com um terceiro elemento dedicado aos sintetizadores, mas acabou por perceber que a relação entre violino e bateria oferecia possibilidades suficientes para sustentar o projeto. Em vez de aumentar a instrumentação, os marta decidiram aprofundar as capacidades dos dois instrumentos, fazendo da limitação uma ferramenta de composição. A produção eletrónica funciona, assim, como uma extensão daquilo que os músicos conseguem criar em palco.
Em janeiro de 2025, o duo apresentou ROOM, o EP de estreia, editado pela Tetra. Com seis faixas, o trabalho estabelece as bases da sua abordagem à techno, cruzando elementos de house e eletrónica minimalista. As composições desenvolvem-se através de padrões rítmicos e alterações graduais, dando importância à evolução dos timbres e à forma como pequenas mudanças modificam a estrutura de uma faixa. Em vez de depender de uma sucessão constante de momentos culminantes, o disco privilegia a construção paciente e a atenção aos detalhes.
A seleção de ROOM para o Qobuzissime contribuiu para dar visibilidade à proposta do duo, destacando uma abordagem que coloca o violino no centro da composição, em vez de o utilizar apenas como um elemento melódico adicional. Essa escolha distingue os marta num género em que a produção digital ocupa frequentemente o primeiro plano e demonstra como a execução instrumental pode assumir um papel estrutural numa composição eletrónica.
Entre as referências que ajudam a enquadrar o projeto estão nomes como Floating Points, Daniel Avery e Jon Hopkins, associados a diferentes abordagens da música eletrónica, da experimentação tímbrica à construção de ambientes densos. Os marta partilham o interesse pela transformação gradual do som, mas desenvolvem-no a partir de uma configuração instrumental própria. A presença física dos músicos introduz uma dimensão que não depende apenas da programação: cada batida e cada gesto fazem parte de um processo de criação visível para quem assiste.
Em 24 de abril de 2026, a dupla lançou PUSH, o segundo EP, aprofundando a exploração do techno instrumental. O novo trabalho dá continuidade à investigação iniciada em ROOM, mas surge numa fase em que o projeto já conta com maior experiência de palco e uma presença mais consolidada no circuito de música eletrónica. A evolução mantém-se fiel ao princípio original: explorar as possibilidades de uma formação reduzida sem transformar a singularidade instrumental num mero exercício de estilo.
Até o nome do projeto contrasta com a exigência da música, escolhido de forma descontraída, a partir de uma experiência partilhada durante umas férias com amigos, «marta» não querem impor uma imagem solene ou excessivamente conceptual, essa informalidade acompanha uma abordagem em que a experimentação técnica não se sobrepõe ao objetivo essencial de criar música de dança. A complexidade dos arranjos está integrada na composição, sem exigir que o público conheça os processos utilizados para os apreciar.
O trabalho dos marta mostra que a distinção entre instrumentos acústicos e eletrónicos pode ser menos rígida do que parece. Um violino processado pode desempenhar funções habitualmente atribuídas a um sintetizador, enquanto uma bateria tocada ao vivo consegue sustentar padrões repetitivos com a precisão necessária ao techno. A diferença está na maneira como estes elementos são articulados e na possibilidade de os transformar em cada atuação.
Os marta atuam a 10 de outubro no Festival MIL Lisboa.

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