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damoridemort: canções para habitar o espaço entre o amor e a morte

By VoxPop - outubro 03, 2026

 

    O que acontece quando uma canção deixa de explicar uma história e começa a sugeri-la através de vozes, texturas e imagens dispersas? É nesse espaço que se movem os damoridemort, duo catalão formado em Barcelona por Blanc Nua e Rikamichie. Entre a pop experimental, a eletrónica e a música ambiental, as duas artistas trabalham a composição como um espaço de transformação, onde as melodias nem sempre seguem caminhos previsíveis e a voz pode assumir tanto o papel de narradora como o de instrumento. Desafiam as fronteiras entre canção e experimentação, sem abandonar a dimensão emocional que está na origem da música pop.

    A identidade do projeto constrói-se a partir da relação entre elementos distintos. As vozes entrelaçam-se com sintetizadores, processamento eletrónico e instrumentos acústicos, enquanto a flauta introduz uma presença orgânica numa sonoridade frequentemente marcada por texturas artificiais. Em vez de organizar estes elementos segundo uma hierarquia fixa, Blanc Nua e Rikamichie exploram as possibilidades de os combinar, alterar e fazer coexistir. A composição nasce desse diálogo, com cada camada a contribuir para a evolução das restantes.

    O próprio nome damoridemort coloca em relação duas experiências fundamentais da existência: o amor e a morte. Esta associação atravessa o imaginário do duo, não como uma oposição simples entre começo e fim, mas como uma forma de pensar a fragilidade das relações e a transformação dos sentimentos ao longo do tempo. A intimidade surge, assim, ligada à passagem do tempo, à perda e à dificuldade de compreender por completo aquilo que nos aproxima dos outros.

    Em 2023, o duo editou “cançons d'amor i de mort”, um álbum de doze faixas que estabeleceu as bases deste universo. As composições afastam-se frequentemente das estruturas convencionais da pop, privilegiando a repetição, as mudanças subtis e a sobreposição de camadas sonoras. A progressão de cada tema depende menos de uma narrativa linear do que da relação entre voz, melodia e ambiente, numa sequência em que as canções se complementam sem perderem a sua autonomia.

    No ano seguinte, “CAT POP” introduziu outra faceta do projeto. O título, de tom lúdico, contrasta com as questões existenciais presentes no trabalho anterior e aponta para uma abordagem em que o jogo e a experimentação não são incompatíveis com a reflexão. A pop deixa de ser apenas uma estrutura a seguir e passa a funcionar como matéria disponível para ser desmontada e reorganizada. As convenções do género permanecem reconhecíveis, mas são alteradas de acordo com as necessidades de cada composição.

    Essa liberdade manifesta-se sobretudo na forma como as duas artistas trabalham a voz. Em vez de a utilizarem exclusivamente para transmitir o significado das letras, exploram o seu potencial musical e expressivo, transformando-a através de efeitos e colocando-a em diálogo com os instrumentos. Uma frase pode adquirir uma função rítmica, uma melodia pode dissolver-se numa textura eletrónica e um elemento aparentemente secundário pode passar a ocupar o centro da composição. A experimentação resulta, assim, de decisões concretas sobre o som e a estrutura, e não apenas de uma vontade abstrata de fugir às convenções.

    A escolha do catalão acrescenta uma dimensão importante a este processo. A língua integra a identidade cultural do duo e oferece possibilidades particulares de ritmo, acentuação e construção melódica. As palavras mantêm o seu lugar na escrita, mas a sua função não se esgota no significado literal: a sonoridade das sílabas e a maneira como são articuladas também participam na composição. A voz torna-se, deste modo, um elemento que liga a narrativa verbal à arquitetura musical.

    A discografia continuou a crescer nos anos seguintes. Em 2025, os damoridemort lançaram “como me río”, seguindo-se, em 2026, temas como “Beija Flor”, “Cielo Rojo” e “De Regalo”. Estes lançamentos mostram um projeto em desenvolvimento, que incorpora diferentes referências linguísticas e culturais no seu repertório. Mais do que apontarem necessariamente para uma mudança radical de direção, os novos temas prolongam a exploração das possibilidades da voz e da relação entre composição pop e experimentação sonora.

    A ligação à cena independente de Barcelona ajuda a enquadrar um percurso que não se limita às classificações habituais de género. O trabalho dos damoridemort aproxima-se de práticas em que a música dialoga com a performance e a arte sonora, explorando a forma como os sons podem organizar o espaço e alterar a perceção de uma composição. A eletrónica não serve apenas para modernizar uma estrutura tradicional, tal como os elementos acústicos não funcionam como contraponto decorativo. Ambos participam na construção de uma linguagem comum.

    Em palco, as vozes, os instrumentos e as camadas eletrónicas são apresentados num contexto partilhado, em que as composições podem adquirir novas proporções fora do estúdio. A atenção desloca-se entre os diferentes elementos, permitindo acompanhar as escolhas que sustentam a música e a forma como estas se articulam no momento.

    As letras podem sugerir várias interpretações, enquanto os arranjos desenvolvem relações que não dependem de uma explicação única. O ouvinte é convidado a estabelecer as suas próprias ligações entre sons, palavras e imagens, sem que o projeto imponha um significado definitivo às canções.

    Entre “cançons d'amor i de mort”, “CAT POP” e os lançamentos mais recentes, os damoridemort têm vindo a desenvolver uma identidade assente na transformação constante dos materiais musicais. O amor e a morte permanecem como referências centrais, mas o interesse do duo estende-se à própria natureza da canção: aquilo que pode dizer, aquilo que consegue sugerir e aquilo que acontece quando a voz deixa de estar limitada às palavras.

    Num panorama em que a música pop é frequentemente organizada em categorias bem definidas, Blanc Nua e Rikamichie preferem trabalhar nas zonas de contacto entre diferentes linguagens. A sua música preserva a melodia, mas altera as estruturas que a sustentam; mantém a palavra, mas explora o som para lá do seu significado. É nessa relação entre composição e pesquisa sonora que os damoridemort encontram o espaço para continuar a desenvolver um projeto que não precisa de escolher entre emoção e experimentação.

    Tocam dia 10 no MIL Lisboa.

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