Três rostos ocultos, uma identidade visual enigmática e uma música que nos prende. Os H.LLS nasceram no noroeste de Londres, entre culturas, bairros e referências que raramente cabem na mesma definição musical. No seu universo, o R&B encontra os graves do dubstep, o hip-hop cruza-se com a eletrónica e a energia das raves convive com momentos de maior intimidade. Mais do que esconder quem são, o trio parece querer inverter as regras habituais da descoberta musical: antes de conhecer os artistas, importa perceber o que têm para dizer através do som.
Os três membros são amigos desde a infância e cresceram num contexto em que a diversidade cultural de Londres fazia parte da vida quotidiana. O hip-hop e o trap acompanharam a sua formação musical, a par da soul, do rock e da eletrónica que encontravam na cultura das raves. Estas referências não surgem como ingredientes reunidos para construir uma sonoridade artificialmente eclética. Fazem parte das experiências que partilharam e de uma cidade onde diferentes comunidades e tradições musicais coexistem, influenciam-se e transformam-se constantemente.
O projeto reúne dois vocalistas e um produtor, mas as funções não definem fronteiras rígidas dentro do grupo. Os três participam na construção da identidade dos H.LLS, desde a composição e produção até às decisões visuais e à escolha de colaboradores. Essa dinâmica permite-lhes abordar cada faixa de maneira diferente, sem a obrigação de permanecer num único registo. As vozes podem surgir fragmentadas ou envolvidas em efeitos, os graves assumem um papel central e os ritmos alternam entre a cadência do R&B e a intensidade da música de dança.
Até o nome da banda resulta de uma combinação entre acaso e intenção. Inicialmente, os músicos escolheram Hills, palavra associada ao local elevado onde costumavam reunir-se para criar música. Mais tarde, retiraram os dois «i», que associavam à ideia de ego, chegando à grafia H.LLS. A aparência de uma sigla ou de um endereço digital reforçou uma identidade difícil de decifrar, suficientemente aberta para acompanhar a evolução do projeto sem o prender a uma imagem convencional.
A componente visual segue uma lógica semelhante. Nas fotografias promocionais, os rostos surgem cobertos por quadrados vermelhos ou alaranjados, uma solução gráfica que interrompe a apresentação habitual de uma banda e desloca a atenção para outros elementos. Essa opção faz parte da identidade online dos H.LLS, mas não deve ser confundida com os acessórios que possam utilizar nas atuações. O anonimato funciona, sobretudo, como uma forma de questionar a importância da imagem na maneira como descobrimos e avaliamos os artistas.
Em 2024, o trio lançou TAPE 1, o álbum de estreia que apresentou de forma mais abrangente a sua abordagem musical. O disco cruza vozes de R&B processadas com uma produção eletrónica marcada por graves intensos, ritmos quebrados e influências do dubstep. Em vez de separar a dimensão melódica da componente mais física da produção, os H.LLS fazem-nas coexistir. As vozes mantêm uma presença próxima, enquanto a instrumentação cria estruturas densas, por vezes ásperas, que afastam o álbum das convenções mais polidas do R&B contemporâneo.
As participações de Tay Iwar, Col3trane e Tommy Saint acrescentam novas vozes ao projeto e revelam o interesse do grupo pela colaboração. Os convidados não servem apenas para alargar o alcance do disco: integram uma visão que procura aproximar artistas com percursos distintos e criar condições para experimentar fora de territórios familiares. Para os H.LLS, a construção de uma comunidade criativa é uma parte importante do projeto, tão relevante como o desenvolvimento da sua própria discografia.
Essa abertura também se reflete no método de produção, onde o processo começa frequentemente com a exploração de sons e ideias que ainda não têm uma função definida. Em vez de procurar uma fórmula imediatamente reconhecível, o grupo experimenta diferentes possibilidades e, depois, elimina o que não considera essencial. O trabalho passa tanto por acrescentar camadas como por saber quando as retirar. É nesse equilíbrio que uma faixa pode encontrar a sua estrutura, sem perder a espontaneidade que esteve na origem da composição.
Londres permanece uma referência fundamental para compreender esta abordagem. A tradição das rádios piratas, o grime e a cultura das raves ajudam a enquadrar a relação dos H.LLS com a música eletrónica britânica. Mais do que uma influência estritamente sonora, essa herança representa uma maneira independente de criar e divulgar música, através de redes informais, encontros entre artistas e espaços que permitem experimentar longe dos circuitos mais previsíveis.
O anonimato ganha outro significado neste contexto, pois numa indústria em que a imagem pessoal, a presença nas redes sociais e a construção de uma narrativa pública podem determinar a forma como um artista chega ao público, os H.LLS escolhem limitar a informação visual disponível. Os quadrados nas fotografias despertam curiosidade, mas a intenção não se esgota nesse efeito. O desafio consiste em fazer com que a música sustente o interesse para lá do mistério inicial, sem depender da exposição das identidades individuais. Adoramos o conceito e o motivo.
Depois de TAPE 1, o grupo continuou a desenvolver o projeto através de novos lançamentos e de uma atividade crescente ao vivo. Em 2026, a realização de sessões de escuta em Londres, dedicadas também à apresentação de material inédito, prolongou a aposta em experiências próximas do público. Estes encontros permitem testar novas composições e criar momentos de descoberta partilhada, mantendo a colaboração e a comunidade no centro do percurso dos H.LLS.
Nos concertos, a combinação entre vozes processadas e produção eletrónica aproxima a música da energia da rave, sem eliminar a sua dimensão melódica. Os graves e os ritmos assumem uma presença física, enquanto as vozes introduzem outra escala de expressão. A passagem do estúdio para o palco coloca também a identidade visual do grupo num contexto diferente: o anonimato deixa de ser apenas uma imagem fixa e passa a integrar a presença dos músicos perante o público, sem que isso signifique que a música tenha de ser secundária.
O interesse dos H.LLS está na forma como mantêm em aberto elementos que outros projetos procurariam resolver. A delicadeza do R&B pode coexistir com a aspereza do dubstep, a experimentação não impede a criação de melodias e a recusa da exposição pessoal não exclui a vontade de estabelecer relações próximas com quem acompanha o grupo. Em vez de escolherem entre diferentes lados da sua identidade, os três músicos trabalham a partir da tensão entre eles.
É também por isso que o projeto não se deixa definir facilmente por um género ou por uma imagem. A música nasce de experiências partilhadas, mas permanece disponível para novas colaborações e mudanças de direção. O anonimato não substitui a identidade artística, muito pelo contrário, faz parte dela, ao lado das escolhas de produção, da relação com a cena londrina e da vontade de criar sem depender de fórmulas estabelecidas.
Os H.LLS começaram por esconder os rostos, mas o percurso do grupo revela progressivamente aquilo que está por detrás dessa escolha: uma forma coletiva de pensar a música, construída a partir da amizade, da diversidade cultural de Londres e da liberdade de experimentar. Num panorama em que a imagem chega muitas vezes antes da obra, o trio propõe outra ordem de descoberta. Primeiro, as canções; depois, as perguntas que deixam em aberto.
Os H.LLS atuam dia 10 no Festival MIL Lisboa.

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