MIL

Filloas: crescer na Internet, dançar contra a ansiedade

By VoxPop - outubro 03, 2026

 

    Algumas pessoas transformam as inquietações em silêncio; outras encontram na arte uma maneira de lhes dar voz. Filloas faz das duas coisas matéria de criação, cruzando batidas aceleradas, humor e referências da cultura digital com temas como a saúde mental, a precariedade e as relações pessoais. Por detrás do nome artístico está Iago Galego, músico galego que encontrou no cruzamento entre o hyperpop, o punk e a eletrónica uma forma de explorar as contradições de crescer numa geração permanentemente ligada à Internet.

    Natural de Vigo, onde nasceu em 1996, cresceu rodeado de música. A guitarra e o punk marcaram os primeiros passos, numa fase em que integrou projetos locais e começou a descobrir o lugar que queria ocupar enquanto músico. Mais tarde, mudou-se para Santiago de Compostela para estudar Engenharia Informática. Foi durante os anos universitários que surgiu a alcunha Filloas, inicialmente usada pelos amigos e que acabaria por dar nome a um projeto a solo, mais livre e pessoal.

    A pandemia foi o ponto de partida para essa transformação. Afastado dos concertos e da dinâmica habitual de uma banda, começou a experimentar novas possibilidades de composição e produção, aproximando a energia do punk das ferramentas da música eletrónica. O resultado afastou-se das estruturas convencionais do rock e abriu espaço à convivência entre pop urbano, trap e hyperpop, sem a necessidade de obedecer a fronteiras estilísticas rígidas. A escolha do galego tornou-se igualmente central, afirmando uma identidade linguística e cultural contemporânea, enraizada na realidade do artista.

    Os primeiros lançamentos ajudaram a consolidar este percurso. Em 2022, Filloas editou o álbum homónimo, seguido de O Segundo XD, em 2023. Entre a experimentação sonora e uma escrita marcada pela ironia, começou a desenvolver uma abordagem que lhe permite falar de inseguranças sem recorrer a um tom excessivamente confessional. O humor não elimina a vulnerabilidade, mas cria uma distância a partir da qual é possível olhar para as próprias dificuldades sem perder a leveza.

    Essa identidade ganhou novos contornos com súbete ao EVA, editado em fevereiro de 2025 pela Alende, em parceria com a Altafonte. Com sete faixas, o EP aprofunda a exploração da eletrónica e incorpora referências ao anime, aos videojogos e aos memes, elementos familiares a quem cresceu online. Mais do que simples referências geracionais, fazem parte do vocabulário com que Filloas observa o quotidiano e traduz experiências pessoais. A aparente descontração convive com questões mais difíceis, revelando o desconforto que pode existir por detrás de uma vida aparentemente preenchida e ligada aos outros.

    A ansiedade, a pressão para corresponder a expectativas e a dificuldade em encontrar estabilidade atravessam, assim, o seu trabalho sem se tornarem o único assunto. A música oferece espaço para reconhecer essas inquietações, mas também para rir delas e relativizá-las. É nessa abordagem, que dispensa tanto o dramatismo como a superficialidade, que as canções encontram parte da sua força: experiências individuais tornam-se reconhecíveis sem perderem o humor e a singularidade de quem as escreve.

    Em janeiro de 2026, o single «Google calendar» antecipou uma nova fase criativa, marcada por uma abordagem eletrónica mais vincada. A rotina e a obsessão pela organização surgem como temas centrais, num imaginário visual que cruza ficção científica, anime e cultura pop. Entre calendários, horários e listas, a necessidade de controlar o tempo transforma-se numa reflexão sobre uma vida em que até o descanso parece exigir planeamento. A ironia serve aqui para questionar a pressão de manter tudo sob controlo, mesmo quando a própria ideia de produtividade se torna fonte de ansiedade.

    Em maio do mesmo ano, lançou a inesperada virtude da ignorancia, um novo EP centrado no processo criativo, na autoexigência e na síndrome do impostor. O trabalho aborda o conflito entre a vontade de criar e o receio de não estar à altura, explorando a possibilidade de encontrar na dúvida não apenas um obstáculo, mas também um ponto de partida. Em vez de procurar respostas definitivas, Filloas volta a interessar-se pelos momentos de incerteza que acompanham o crescimento artístico e pessoal.

    Entre as raízes punk, a liberdade da produção eletrónica e a afirmação da língua galega, Filloas tem vindo a construir um percurso próprio, atento às inquietações de quem tenta encontrar o seu lugar num mundo acelerado. A sua música não promete resolver essas contradições, mas transforma-as em matéria criativa, com espaço para a experimentação, a autocrítica e o humor.

    Filloas atua a 10 de outubro no Festival MIL Lisboa.

  • Share:

You Might Also Like

0 comments