Elsa, Natalia e Cecilia têm qualquer coisa de difícil de domesticar, juntas, formam Las Petunias, um trio que encontrou na colisão entre a raiva do punk e as melodias pop numa linguagem própria, feita de guitarras, energia e uma vulnerabilidade que nunca aparece como fraqueza. As suas canções falam de ansiedade, romances, inseguranças e do vertiginoso processo de crescer, mas fazem-no sem solenidade. Há humor, irreverência, doçura e uma vontade evidente de transformar aquilo que dói em qualquer coisa que também se possa cantar e dançar.
A juventude é o território onde tudo isto acontece, estar nos vinte anos significa, para Las Petunias, viver entre expectativas e incertezas, entre a sensação de que tudo é possível e a suspeita de que nada está verdadeiramente no lugar certo. As suas letras partem desse lugar íntimo e transformam experiências pessoais em algo coletivo. Uma guitarra torna-se descarga, uma melodia transforma-se em confissão e um refrão pode ser, ao mesmo tempo, um grito e um abraço.
Essa identidade ganhou a sua primeira grande forma em “Creo que soy de porcelana”, o álbum de estreia lançado em 2024. O título funciona quase como uma chave para entrar no universo do trio. A porcelana evoca delicadeza e fragilidade, mas também algo precioso, resistente e capaz de sobreviver durante décadas. O disco percorre ansiedades, romances e o vertigem de ser jovem, combinando letras íntimas com uma energia desenfreada. Entre momentos de maior agressividade e outros de inesperada doçura, Las Petunias deixam claro que mostrar as próprias fragilidades pode ser uma forma de força.
A música não é, contudo, apenas um espaço de confissão. Existe uma atitude por detrás dela. Las Petunias não parecem interessadas em corresponder às expectativas que lhes são colocadas nem em suavizar aquilo que têm para dizer. A sua irreverência faz parte da linguagem, tal como a raiva, o humor e a intensidade. É essa combinação que as colocou entre os nomes mais estimulantes da nova vaga underground espanhola.
Depois do álbum de estreia, o trio continuou a expandir esse território com “Ahí te pudras, maldita”, EP que aprofunda a sua linguagem e mostra uma banda em movimento. Temas como “Historias de mi madre”, “Poeta en NY” e “Tirant lo Blanc” acrescentam novas personagens, referências e estados de espírito a um universo que nunca parece completamente fechado. O punk continua presente, mas as melodias pop e a dimensão emocional das canções impedem que a música seja reduzida a uma única etiqueta.
É no palco, porém, que toda essa energia encontra a sua forma mais física, ao vivo, Las Petunias são um torvelinho. Elsa, Natalia e Cecilia ocupam o espaço com carisma e uma atitude sem complexos, transformando as canções em momentos de descarga coletiva. A distância entre quem está em palco e quem está a assistir rapidamente desaparece. O público entra nas histórias, responde aos refrões, dança e acaba por fazer parte da própria dinâmica do concerto.
Essa dimensão performativa ajuda a explicar o lugar que Las Petunias têm vindo a conquistar na cena independente espanhola. A música tem a urgência do punk e o imediatismo do pop, mas é a honestidade emocional que lhe dá profundidade. Não há qualquer tentativa de esconder as arestas ou de transformar a vulnerabilidade numa pose. Pelo contrário, as inseguranças, os romances falhados, a ansiedade e a confusão de crescer são assumidos como matéria artística.
Há qualquer coisa de delicado na imagem de uma flor, mas a música do trio está longe de ser frágil. As suas petúnias crescem entre o ruído, o excesso e a inquietação, florescendo precisamente onde seria mais fácil desaparecer. A delicadeza e a ferocidade não aparecem como opostos, mas como duas partes da mesma identidade.
É esse universo que Las Petunias trazem a Lisboa no dia 8 de outubro, para uma atuação no Festival MIL. Será uma oportunidade para conhecer ao vivo uma das propostas mais vibrantes da nova cena underground espanhola e perceber o que acontece quando três jovens artistas transformam a vulnerabilidade em guitarras, melodias e pura energia.
Las Petunias não estão interessadas em parecer invulneráveis, preferem fazer daquilo que pode partir-se a matéria com que constroem as suas canções.

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