Há qualquer coisa de anacrónico em Paco Pecado, um personagem que parece ter escapado de uma fotografia dos anos 70, atravessado uma bodega, passado por uma verbena e chegado ao presente. Bon vivant com espírito de bandoleiro, Paco move-se confortavelmente entre o kitsch, o retro e o vetusto, entre o excesso e a fragilidade, entre a celebração e o melodrama. Pode ser o Rei da Festa ou, no instante seguinte, o intérprete mais vulnerável de uma canção de amor.
É precisamente nessa contradição que começa a ganhar forma o seu universo musical. A sua música recupera linguagens populares, a rumba, o bolero, a cumbia, o folclore e cruza-as com a tradição da canção de autor, sem qualquer preocupação em esconder as suas referências. Há nela qualquer coisa de bodega e de salão de baile, de romance antigo e de festa que se prolonga até de madrugada. Mas, por detrás da aparência festiva, existe também uma dimensão sentimental e melancólica. Paco canta o amor, o desamor, a solidão e as pequenas contradições humanas como quem sabe que a melhor maneira de falar de coisas sérias pode ser, justamente, dançar sobre elas.
Essa tensão entre a festa e a vulnerabilidade está no centro de “Entre Bodegas y Ferias”, o álbum com que Paco Pecado encontrou uma nova direção no início de 2025. O título funciona quase como uma declaração de princípios: de um lado, a bodega, espaço de intimidade, excesso e conversa; do outro, a feira, lugar de espetáculo, encontro e celebração. Entre os dois mundos constrói-se uma personagem e, sobretudo, uma linguagem própria.
O disco combina as suas influências retro com letras sinceras e uma dimensão visual inseparável da música. Paco não parece interessado em separar canção, personagem e imaginário. Tudo faz parte do mesmo universo: as roupas, as referências populares, o humor, o romantismo, os excessos e uma certa nostalgia por um mundo que talvez nunca tenha existido exatamente como ele o imagina. O resultado é um exercício de folclore kitsch que consegue ser simultaneamente irónico e genuíno.
A aposta teve consequências. Entre “Bodegas y Ferias” marcou um ponto de viragem na carreira de Paco Pecado e valeu-lhe, em 2025, o Primeiro Prémio dos Rock Villa de Madrid, um dos mais importantes concursos espanhóis dedicados à descoberta de novos talentos. Entre cerca de mil propostas, foi o seu universo singular, entre a música popular, o folclore e a estética kitsch, que acabou por se destacar.
Mas é sobretudo ao vivo que esta personagem ganha outra dimensão. A festa deixa de ser apenas uma ideia presente nas canções e passa a ser uma experiência partilhada. Paco assume o palco com uma presença carismática e teatral, transformando o imaginário das suas músicas num espetáculo que tanto convida à dança como à contemplação. O público pode entrar pela porta da festa e acabar, quase sem dar por isso, dentro de uma história de amor, de uma memória ou de uma ressaca emocional.
É também por isso que a proposta de Paco Pecado encontra o seu lugar natural na atual cena alternativa em castelhano. Num momento em que tantos artistas procuram reconstruir a relação entre tradição e música contemporânea, Paco não tenta modernizar o folclore apagando aquilo que nele existe de excessivo, popular ou sentimental. Faz precisamente o contrário: abraça essas características e transforma-as em matéria artística.
Agora, com um segundo álbum previsto para o outono de 2026, Paco Pecado prepara-se para aprofundar esse caminho. A promessa é consolidar uma identidade autoral assente nesse particular folclore kitsch que já se tornou a sua assinatura. Se Entre “Bodegas y Ferias” apresentou o personagem e abriu as portas do seu universo, o próximo capítulo poderá revelar até onde é possível levar essa mistura de nostalgia setentista, romantismo, humor, tradição popular e excesso.
No fundo, achamos que a maior força de Paco Pecado seja precisamente não escolher entre ser festa ou melancolia, personagem ou compositor, passado ou presente. Preferir viver no espaço intermédio, aquele lugar onde ainda se pode dançar enquanto o coração parte.
Poderás vê-lo ao vivo no MIL LISBOA dia 8

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