Há algo de inquietante nos OkA, não é apenas o volume, nem a distorção, nem a velocidade com que uma bateria pode transformar uma sala. É a sensação de que, dentro daquela formação reduzida a guitarra, bateria e voz, existe muito mais espaço do que seria suposto. O trio lisboeta trabalha precisamente nesse território onde o silêncio pode tornar-se tão importante como o ruído e onde uma música aparentemente caótica revela, quando se escuta com atenção, uma arquitetura própria.
Os OkA usufruem da sua linguagem parte do noise punk, mas rapidamente começa a escapar pelas margens. Há dissonância, polirritmia, distorção e uma intensidade física que aproxima o projeto de nomes como Melt-Banana, Deerhoof ou Lightning Bolt, mas também existe uma dimensão experimental e quase lúdica que impede a música de se tornar previsível.
É uma questão de equilíbrio, a guitarra pode soar como se estivesse prestes a desintegrar-se, enquanto a bateria mantém uma precisão quase matemática. A voz não surge necessariamente como uma camada separada, mas como mais um elemento rítmico, misturado com o corpo da música. O resultado é uma espécie de organismo em permanente movimento, em que cada elemento parece empurrar os outros para descobrir até onde podem ir.
Essa abordagem está já presente em ombu, o primeiro EP dos OkA. Auto produzido pela banda, com mistura e masterização de João Galvão, o trabalho condensa em poucos minutos uma quantidade considerável de tensão. O ruído e a distorção convivem com estruturas rítmicas complexas, enquanto a dissonância não aparece como um fim em si mesma. Existe composição por detrás do caos e, sobretudo, existe uma vontade de experimentar sem perder a dimensão física da música.
O experimentalismo não os afasta do corpo, pelo contrário, a música parece construída para ser sentida antes de ser explicada, aliás nem precisa ser explicada. O baixo peso da guitarra, a bateria quase convulsiva e as vozes transformam-se numa experiência que acontece tanto nos ouvidos como no espaço à volta. É música que pede volume, proximidade e movimento.
Ao vivo, essa dimensão torna-se ainda mais evidente. A formação de três elementos poderia sugerir contenção, mas nos OkA acontece precisamente o contrário, funcionam como partes de uma mesma máquina, alternando entre momentos de tensão, explosão e suspensão. O palco torna-se um laboratório onde as estruturas podem ser esticadas até ao limite, sem nunca perder completamente o sentido de ritmo e de melodia.
É também aí que se percebe por que razão a banda consegue habitar simultaneamente o punk e a experimentação. Existe uma atitude punk na recusa de complicar a formação e na vontade de tocar sem filtros, mas existe também uma curiosidade que os leva para territórios menos previsíveis. A música pode ser agressiva sem ser simplesmente agressiva, estranha sem ser inacessível e ruidosa sem deixar de ser profundamente rítmica.
Depois de apresentarem ombu em diferentes palcos, incluindo a ZDB, em Lisboa, os OkA continuam a desenvolver uma identidade que ainda está longe de estar fechada. Um novo álbum está previsto para 2027, abrindo espaço para perceber como este primeiro universo poderá crescer quando transportado para um formato mais longo.
Por agora, é no presente que vale a pena encontrá-los. No ruído, na guitarra, na bateria, na voz e naquele momento imprevisível em que uma estrutura parece estar prestes a partir-se e, em vez disso, encontra uma nova forma.
Dia 8 de outubro, os OkA apresentam-se no Festival MIL, em Lisboa, onde poderás conhecer o seu universo e perceber o que aqui descrevemos.

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