Sophia Chablau & Felipe Vaqueiro no MIL: quando o silêncio também é discurso
No meio de um festival construído sobre a ideia de futuro, novos nomes, novas alianças e novas promessas, o concerto de Sophia Chablau e Felipe Vaqueiro no Festival MIL destacou-se por não querer provar nada, tendo sido precisamente aí que ganhou força.
A dupla brasileira subiu ao palco sem recorrer às identidades que os tornaram reconhecíveis. Longe da urgência ruidosa de Sophia Chablau e Uma Enorme Perda de Tempo ou do eclectismo expansivo dos Tangolo Mangos, o projecto conjunto apresenta-se como um gesto de recuo, menos afirmação e mais escuta. NOVA ERA / OHAYO SARAVÁ não é um manifesto nem uma ruptura declarada; é um espaço intermédio, onde a música se constrói a partir da dúvida.
O concerto avançou com uma economia de meios assumida, com duas guitarras sustentaram toda a actuação, desenhando um ambiente contido e íntimo, onde cada variação rítmica ou harmónica ganhava peso. A ausência de outros instrumentos soou a uma escolha estética clara, reforçando a proximidade entre voz, palavra e gesto. Há ecos evidentes da música popular brasileira, mas filtrados por uma sensibilidade contemporânea que evita tanto o revivalismo como a citação fácil, senão mesmo tempo que soa a nostalgia, soa a novo, a presente.
Sophia Chablau surge aqui numa versão menos expansiva e mais concentrada. A voz, livre de excessos, funciona como matéria crua, por vezes frágil, por vezes incisiva, sempre ao serviço da canção. Felipe Vaqueiro, discreto mas decisivo, assume o papel de eixo do concerto, conduzindo a base harmónica com precisão e deixando espaço para que as músicas respirem.
As canções não explodem, nem pedem aplauso imediato, não se fecham em soluções fáceis, elas permanecem em aberto, como se ainda estivessem a ser pensadas em tempo real. Para alguns, esta contenção pode soar excessiva; para outros, é precisamente aí que reside o interesse. Num festival onde muitos concertos competem por atenção, este optou por confiar no tempo e na concentração do público.
No contexto do MIL, a actuação de Sophia Chablau e Felipe Vaqueiro funcionou como um lembrete oportuno que nem toda a relevância se mede pela intensidade ou pela escala. Às vezes, o futuro da música passa por projectos que preferem existir em estado de pergunta, em vez de resposta. Sem muito fuzz, apenas focados na qualidade e na necessidade de trazer cá para fora sentimentos, pensamentos em forma de arte.

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