A sala, crua e densa, serviu de caixa de
ressonância emocional. A geometria minuciosa dos azulejos, iluminada por
flashes secos, recortava os músicos como sombras em movimento, como se a própria
parede estivesse envolvida na performance. Aquilo não era só cenário: era
matéria viva, cúmplice, cúmplice no sentido mais íntimo do termo.
O duo entrou em silêncio e, num instante, o
espaço ganhou peso. As primeiras camadas de eletrónica e manipulação sonora
surgiram como fricção, não para introduzir, mas para instalar. As vozes
emergiam como corpos estranhos, ora suspensas, ora a rasgar, flutuando entre
murmúrio, grito e ruído. Nada de formas fechadas. Nada de narrativas fáceis.
Cada peça era um bloco mutante, feito de tensão acumulada e liberação
controlada.
Mas o concerto não se fazia apenas de som.
Havia gestos, havia corpo. Os dois músicos reagiam ao som como se estivessem
ligados a ele por fios invisíveis. Moviam-se com contenção, mas ao mesmo tempo
como se o corpo fosse mais um instrumento, ou talvez o primeiro de todos. A sua
fisicalidade fazia do palco um campo de energia: a performance tornava-se
visível não só na luz, mas no suor, na repetição, na entrega. O que prova que
por vezes não é preciso “partir” tudo para que o concerto seja único.
A iluminação acompanhava tudo como uma terceira
entidade: a luz quente a cortar o escuro, sombras a escalar azulejos, silhuetas
a emergir e desaparecer. Os momentos em que tudo se contraía, com pausas,
silêncios, ou simplesmente a ausência, soavam tão cheios como os picos de
distorção. Havia uma atenção rara ao espaço, ao ritmo interior das coisas.
O que HiraHira Violence Club faz não se
encaixa em moldes e ainda bem. Não há refrões nem ancoragens fáceis. Há som
como matéria crua, visual e camadas, todas elas vivas, frágeis, perigosas. Como
se cada peça estivesse a ser inventada em tempo real, a um passo do colapso. E
é aí, nesse limiar, que tudo ganha sentido, ou que nos acaba por prender de
vez.
No contexto do Festival MIL, onde a
urgência, a novidade e o risco fazem parte da gramática, esta atuação destacou-se
precisamente pela forma como recusou o formato showcase. Em vez de mostrar, o
duo criou. Em vez de provar, incendiou. Sem concessões. Sem hesitação.
Se o MIL é uma montra do que pode ser o futuro da música, HiraHira Violence Club lembrou-nos que esse futuro também pode ser denso, físico, exigente. Pode não pedir aplauso, mas absorção total. E naquela noite no Forno, com os azulejos a devolverem luz e som, o presente estava mesmo ali. A tremer, a gritar, a respirar.

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