MIL

Hira Hira Violence Club no MIL: Ruído com olhos e corpo

By VoxPop - outubro 26, 2025

   


   O concerto de HiraHira Violence Club, aconteceu no Palco do Forno do Festival MIL e acreditamos que este palco foi o palco perfeito, pelo pano de fundo, pela energia que o lugar em si transmite. Numa sala de contornos industriais, marcada por um fundo de azulejos pintados à mão, que neste concerto em especifico, pareciam saídos de um altar pós-moderno e o duo montou um ritual de tensão, ruído e presença perfeito. Visual e som a dançar juntos, não podia ser mais cativante.

    A sala, crua e densa, serviu de caixa de ressonância emocional. A geometria minuciosa dos azulejos, iluminada por flashes secos, recortava os músicos como sombras em movimento, como se a própria parede estivesse envolvida na performance. Aquilo não era só cenário: era matéria viva, cúmplice, cúmplice no sentido mais íntimo do termo.

    O duo entrou em silêncio e, num instante, o espaço ganhou peso. As primeiras camadas de eletrónica e manipulação sonora surgiram como fricção, não para introduzir, mas para instalar. As vozes emergiam como corpos estranhos, ora suspensas, ora a rasgar, flutuando entre murmúrio, grito e ruído. Nada de formas fechadas. Nada de narrativas fáceis. Cada peça era um bloco mutante, feito de tensão acumulada e liberação controlada.

    Mas o concerto não se fazia apenas de som. Havia gestos, havia corpo. Os dois músicos reagiam ao som como se estivessem ligados a ele por fios invisíveis. Moviam-se com contenção, mas ao mesmo tempo como se o corpo fosse mais um instrumento, ou talvez o primeiro de todos. A sua fisicalidade fazia do palco um campo de energia: a performance tornava-se visível não só na luz, mas no suor, na repetição, na entrega. O que prova que por vezes não é preciso “partir” tudo para que o concerto seja único.

    A iluminação acompanhava tudo como uma terceira entidade: a luz quente a cortar o escuro, sombras a escalar azulejos, silhuetas a emergir e desaparecer. Os momentos em que tudo se contraía, com pausas, silêncios, ou simplesmente a ausência, soavam tão cheios como os picos de distorção. Havia uma atenção rara ao espaço, ao ritmo interior das coisas.

    O que HiraHira Violence Club faz não se encaixa em moldes e ainda bem. Não há refrões nem ancoragens fáceis. Há som como matéria crua, visual e camadas, todas elas vivas, frágeis, perigosas. Como se cada peça estivesse a ser inventada em tempo real, a um passo do colapso. E é aí, nesse limiar, que tudo ganha sentido, ou que nos acaba por prender de vez.

    No contexto do Festival MIL, onde a urgência, a novidade e o risco fazem parte da gramática, esta atuação destacou-se precisamente pela forma como recusou o formato showcase. Em vez de mostrar, o duo criou. Em vez de provar, incendiou. Sem concessões. Sem hesitação.

    Se o MIL é uma montra do que pode ser o futuro da música, HiraHira Violence Club lembrou-nos que esse futuro também pode ser denso, físico, exigente. Pode não pedir aplauso, mas absorção total. E naquela noite no Forno, com os azulejos a devolverem luz e som, o presente estava mesmo ali. A tremer, a gritar, a respirar.

  • Share:

You Might Also Like

0 comments