Primavera Sound Porto divulga cartaz para a edição de 2026
O vento vindo do Atlântico vai voltar a misturar-se com guitarras, sintetizadores e vozes que parecem atravessar fronteiras. O Primavera Sound Porto regressa ao Parque da Cidade de 11 a 14 de junho de 2026, e o seu cartaz não é apenas uma lista de nomes com base em algoritmos, é um manifesto sobre o presente (e o futuro) da música alternativa e bem haja.
Há mais de uma década
que o festival transformou o Porto num dos epicentros da cultura musical
europeia. E nesta 13.ª edição, a promessa mantém-se: quatro dias de som, suor e
emoções que cruzam gerações,
géneros e geografias.
Os nomes maiores
estão à altura do seu estatuto: Gorillaz, Massive Attack, The XX e IDLES encabeçam um alinhamento
que, mais do que reunir estilos, junta mundos. É o Primavera Sound Porto na sua forma mais
pura juntando o diverso, provocador e emotivo.
Na manhã de hoje, o
festival revelou o seu cartaz através de um vídeo lançado nas redes sociais, produzido pela Vampire Films e pela VETA. A peça audiovisual, de ritmo
hipnótico e imagens poéticas, mostra o Parque da Cidade como um território onírico, o mar, floresta,
palco e multidão fundem-se numa sequência onde a música parece nascer da
própria terra.
Em letras brancas,
sobrepostas a um crepúsculo portuense, surgem os nomes que fazem o coração
bater mais rápido: Gorillaz, Massive Attack, The XX, IDLES, Kneecap, Peggy Gou, Ethel Cain. Este vídeo é um teaser e, ao mesmo tempo, uma declaração artística. Ficou resumido o
espirito do festival de uma forma incrível e mostrou que o Primavera Sound
Porto já não é apenas a extensão portuguesa do evento de Barcelona, tem uma
identidade própria, enraizada no Atlântico, na diversidade e na comunhão
musical.
Os Gorillaz regressam com a
grandiosidade habitual. A primeira vez que o vimos foi em 1999, num festival da
Mtv na Torre de Belém e por mais concertos que tenhamos visto deles depois,
aquele pela sua diferença, marcou-nos bastante. A banda antes apenas virtual
de Damon Albarn é há
muito mais do que uma curiosidade animada é um espelho da cultura pop do século
XXI. No Porto, prometem apresentar The Mountain, o novo álbum, num
espetáculo audiovisual que mistura nostalgia digital e futurismo decadente.
Logo a seguir,
os Massive Attack, discretos,
misteriosos, mas sempre essenciais. A sua música continua a ser uma espécie de
manifesto político envolto em batidas lentas e sombras luminosas. O trip-hop de
Bristol nunca soou tão urgente, e a sua estreia na edição portuguesa do
festival tem sabor histórico e terá certamente o impacto por eles sempre
marcado com os vídeos ou com a polémica dos reconhecimentos faciais do publico.
E depois há The XX. Quase uma década e meia após a
sua última passagem pelo Porto, onde estivemos e foi um dos cartazes que
mais gostamos. Romy, Oliver Sim e Jamie xx regressam com o minimalismo
elegante que redefiniu o pop alternativo moderno. Silêncio, tensão, respiração,
três elementos que a banda domina como ninguém. No Primavera, promete-se o
reencontro da intimidade com a grandiosidade.
Mas se há um país que
domina a linguagem da inquietação moderna, esse país continua a ser o Reino Unido, que está em peso nesta
edição, para além dos nomes mencionados anteriormente, temos mais.
Os IDLES regressam como força telúrica. O quinteto de Bristol
é um dos raros casos em que a fúria e a ternura coexistem no mesmo palco. Com
guitarras que cortam como lâminas e letras que desarmam com empatia, os IDLES
tornaram-se o grito emocional de uma geração que aprendeu a dançar enquanto
desabafa. O novo álbum, TANGK, é uma prova de que o punk pode ser
catártico sem ser cínico.
Mais a norte,
de Leeds, chegam os Yard Act, os cronistas mais irónicos
da Grã-Bretanha moderna. O vocalista James Smith fala mais do que canta, num estilo que mistura poesia
e crítica social. As suas canções, meio desabafos, são pequenos retratos de um
país em colapso.
E se a sátira
britânica tem um sotaque do norte, a revolta política vem da Irlanda do Norte. Os Kneecap, trio de Belfast, são o grupo
de hip-hop mais incendiário e controverso a surgir nas ilhas nos últimos
anos. Mo Chara, Moglaí Bap e DJ Próvaí rimam em gaélico irlandês e inglês,
transformando a língua numa arma de resistência cultural. As suas letras, ferozes
e provocatórias, falam de identidade, desigualdade e independência, sempre com
humor e fúria. Já enfrentaram críticas e censura de setores unionistas, que os
acusam de “romantizar” o republicanismo. Eles respondem com sarcasmo e batidas.
“Fazemos política porque respiramos política”, disse Mo Chara à Hot
Press. No Primavera Sound Porto, o seu concerto promete ser um dos mais intensos, festivos e desafiadores da
edição.
Para continuarmos numa
Europa que parece estar em declínio, vem da Suécia, os Viagra Boys que completam este
retrato de caos e sarcasmo europeu. O seu punk-funk é uma mistura de crítica social, humor grotesco e
energia bruta. Liderados pelo carismático Sebastian Murphy, oferecem concertos tão imprevisíveis quanto
libertadores.
Juntos, IDLES, Yard Act, Kneecap e Viagra Boys formam uma espécie de
quadrado mágico da rebeldia contemporânea, quatro maneiras diferentes de dizer
que a Europa está cansada, mas não calada.
O Primavera Sound Porto sempre foi um
lugar onde o ruído e a introspeção coexistem. Este ano, o leque vai do folk
arrebatador de Big Thief ao
R&B cru de Dijon,
passando pela poesia etérea de Ethel
Cain, cujas canções soam a filmes sobre fé, trauma e redenção.
Há também o regresso
dos Slowdive, pioneiros do
shoegaze, e a sofisticação pop de Amaarae e Oklou, que apontam para o futuro da
música eletrónica e híbrida.
A música portuguesa
como é óbvio também tem espaço no festival. Capicua traz um novo espetáculo em que poesia e ativismo se
fundem. PAUS regressam
com o seu rock de percussão tribal e eletrónica pulsante. E nomes como NAPA, Rita Vian, emmy Curl, Inês Marques Lucas e MXGPU mostram que o país vive um
momento de grande vitalidade criativa, menos preocupado em seguir tendências,
mais disposto a criar as suas próprias.
E como já é tradição, o festival fecha com o Primavera Bits, no domingo, 14 de junho — uma rave ao ar livre onde Peggy Gou, Dixon, Xinobi e SuM transformarão o Parque da Cidade numa pista de dança sob as estrelas. O fecho perfeito para um evento que vive entre o corpo e o espírito.
O Primavera Sound Porto 2026 é,
mais uma vez, um espelho do seu
tempo. Num mundo onde as fronteiras entre géneros e identidades se
dissolvem, o festival reafirma o seu papel de plataforma global, um espaço onde
o underground encontra o
mainstream, onde a política
se confunde com a arte, e onde o público se torna parte da experiência.
A curadoria é ousada,
mas coerente, o Primavera Sound Porto desenha um mapa emocional de um planeta
em constante mutação.
E como diz a frase num dos muros do Parque da Cidade “A música é o que resta quando o mundo parece demasiado confuso para ser explicado.”


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