Primavera Sound Porto divulga cartaz para a edição de 2026

By VoxPop - outubro 28, 2025

   

  O vento vindo do Atlântico vai voltar a misturar-se com guitarras, sintetizadores e vozes que parecem atravessar fronteiras. O Primavera Sound Porto regressa ao Parque da Cidade de 11 a 14 de junho de 2026, e o seu cartaz não é apenas uma lista de nomes com base em algoritmos, é um manifesto sobre o presente (e o futuro) da música alternativa e bem haja.

    Há mais de uma década que o festival transformou o Porto num dos epicentros da cultura musical europeia. E nesta 13.ª edição, a promessa mantém-se: quatro dias de som, suor e emoções que cruzam gerações, géneros e geografias.

   Os nomes maiores estão à altura do seu estatuto: GorillazMassive AttackThe XX e IDLES encabeçam um alinhamento que, mais do que reunir estilos, junta mundos. É o Primavera Sound Porto na sua forma mais pura juntando o diverso, provocador e emotivo.

    Na manhã de hoje, o festival revelou o seu cartaz através de um vídeo lançado nas redes sociais, produzido pela Vampire Films e pela VETA. A peça audiovisual, de ritmo hipnótico e imagens poéticas, mostra o Parque da Cidade como um território onírico, o mar, floresta, palco e multidão fundem-se numa sequência onde a música parece nascer da própria terra.

    Em letras brancas, sobrepostas a um crepúsculo portuense, surgem os nomes que fazem o coração bater mais rápido: GorillazMassive AttackThe XXIDLESKneecapPeggy GouEthel Cain. Este vídeo é  um teaser e, ao mesmo tempo, uma declaração artística. Ficou resumido o espirito do festival de uma forma incrível e mostrou que o Primavera Sound Porto já não é apenas a extensão portuguesa do evento de Barcelona, tem uma identidade própria, enraizada no Atlântico, na diversidade e na comunhão musical.

    Os Gorillaz regressam com a grandiosidade habitual. A primeira vez que o vimos foi em 1999, num festival da Mtv na Torre de Belém e por mais concertos que tenhamos visto deles depois, aquele pela sua diferença, marcou-nos bastante. A banda antes apenas virtual de Damon Albarn é há muito mais do que uma curiosidade animada é um espelho da cultura pop do século XXI. No Porto, prometem apresentar The Mountain, o novo álbum, num espetáculo audiovisual que mistura nostalgia digital e futurismo decadente.

    Logo a seguir, os Massive Attack, discretos, misteriosos, mas sempre essenciais. A sua música continua a ser uma espécie de manifesto político envolto em batidas lentas e sombras luminosas. O trip-hop de Bristol nunca soou tão urgente, e a sua estreia na edição portuguesa do festival tem sabor histórico e terá certamente o impacto por eles sempre marcado com os vídeos ou com a polémica dos reconhecimentos faciais do publico.

    E depois há The XX. Quase uma década e meia após a sua última passagem pelo Porto, onde estivemos e foi um dos cartazes que mais gostamos. RomyOliver Sim e Jamie xx regressam com o minimalismo elegante que redefiniu o pop alternativo moderno. Silêncio, tensão, respiração, três elementos que a banda domina como ninguém. No Primavera, promete-se o reencontro da intimidade com a grandiosidade.

    Mas se há um país que domina a linguagem da inquietação moderna, esse país continua a ser o Reino Unido, que está em peso nesta edição, para além dos nomes mencionados anteriormente, temos mais.

    Os IDLES regressam como força telúrica. O quinteto de Bristol é um dos raros casos em que a fúria e a ternura coexistem no mesmo palco. Com guitarras que cortam como lâminas e letras que desarmam com empatia, os IDLES tornaram-se o grito emocional de uma geração que aprendeu a dançar enquanto desabafa. O novo álbum, TANGK, é uma prova de que o punk pode ser catártico sem ser cínico.

    Mais a norte, de Leeds, chegam os Yard Act, os cronistas mais irónicos da Grã-Bretanha moderna. O vocalista James Smith fala mais do que canta, num estilo que mistura poesia e crítica social. As suas canções, meio desabafos, são pequenos retratos de um país em colapso.

    E se a sátira britânica tem um sotaque do norte, a revolta política vem da Irlanda do Norte. Os Kneecap, trio de Belfast, são o grupo de hip-hop mais incendiário e controverso a surgir nas ilhas nos últimos anos. Mo CharaMoglaí Bap e DJ Próvaí rimam em gaélico irlandês e inglês, transformando a língua numa arma de resistência cultural. As suas letras, ferozes e provocatórias, falam de identidade, desigualdade e independência, sempre com humor e fúria. Já enfrentaram críticas e censura de setores unionistas, que os acusam de “romantizar” o republicanismo. Eles respondem com sarcasmo e batidas. “Fazemos política porque respiramos política”, disse Mo Chara à Hot Press. No Primavera Sound Porto, o seu concerto promete ser um dos mais intensos, festivos e desafiadores da edição.

    Para continuarmos numa Europa que parece estar em declínio, vem da Suécia, os Viagra Boys que  completam este retrato de caos e sarcasmo europeu. O seu punk-funk é uma mistura de crítica social, humor grotesco e energia bruta. Liderados pelo carismático Sebastian Murphy, oferecem concertos tão imprevisíveis quanto libertadores.

    Juntos, IDLESYard ActKneecap e Viagra Boys formam uma espécie de quadrado mágico da rebeldia contemporânea, quatro maneiras diferentes de dizer que a Europa está cansada, mas não calada.

    Primavera Sound Porto sempre foi um lugar onde o ruído e a introspeção coexistem. Este ano, o leque vai do folk arrebatador de Big Thief ao R&B cru de Dijon, passando pela poesia etérea de Ethel Cain, cujas canções soam a filmes sobre fé, trauma e redenção.

    Há também o regresso dos Slowdive, pioneiros do shoegaze, e a sofisticação pop de Amaarae e Oklou, que apontam para o futuro da música eletrónica e híbrida.

    A música portuguesa como é óbvio também tem espaço no festival. Capicua traz um novo espetáculo em que poesia e ativismo se fundem. PAUS regressam com o seu rock de percussão tribal e eletrónica pulsante. E nomes como NAPARita Vianemmy CurlInês Marques Lucas e MXGPU mostram que o país vive um momento de grande vitalidade criativa, menos preocupado em seguir tendências, mais disposto a criar as suas próprias.

    E como já é tradição, o festival fecha com o Primavera Bits, no domingo, 14 de junho — uma rave ao ar livre onde Peggy GouDixonXinobi e SuM transformarão o Parque da Cidade numa pista de dança sob as estrelas. O fecho perfeito para um evento que vive entre o corpo e o espírito.

    Primavera Sound Porto 2026 é, mais uma vez, um espelho do seu tempo. Num mundo onde as fronteiras entre géneros e identidades se dissolvem, o festival reafirma o seu papel de plataforma global, um espaço onde o underground encontra o mainstream, onde a política se confunde com a arte, e onde o público se torna parte da experiência.

    A curadoria é ousada, mas coerente, o Primavera Sound Porto desenha um mapa emocional de um planeta em constante mutação.

    E como diz a frase num dos muros do Parque da Cidade “A música é o que resta quando o mundo parece demasiado confuso para ser explicado.”


 

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