Hause Plants: guitarras, inquietação e uma vontade de continuar em movimento
Os Hause Plants começaram em Lisboa, encontraram novos caminhos em Brooklyn e foram construindo uma identidade que hoje se estende por palcos e cidades de diferentes geografias, tal como muitas outras bandas, afina de contas a musica, a sua composição e escrita de leras é feita de experiências. Entre guitarras de espírito indie, melodias que ficam a pairar e uma crescente vontade de explorar ritmos mais dançáveis, a banda portuguesa tem vindo a transformar as experiências acumuladas ao longo do percurso numa linguagem cada vez mais própria. O resultado é um projeto que não se prende a uma única sonoridade e que parece encontrar na mudança uma das suas principais forças.
No centro desta história está Guilherme Machado Correia, que começou por desenvolver as primeiras ideias através de gravações caseiras. O projeto cresceu progressivamente até se tornar uma banda, levando os Hause Plants a atravessar o Atlântico em 2022, quando se mudaram para Brooklyn. A experiência aproximou-os de uma nova comunidade musical e abriu portas a circuitos independentes que dificilmente se resumem a uma única cidade. Entre concertos, encontros e referências vindas de diferentes contextos, o grupo foi alargando os seus horizontes sem perder a ligação a Lisboa, o lugar de onde partiu.
A discografia foi crescendo ao longo desse caminho. Entre 2021 e 2024, os Hause Plants editaram quatro EPs, explorando diferentes possibilidades dentro do universo alternativo que foram construindo. Film For Color Photos, Sleeping With Weird People e Field Trip To Coney Island acompanharam as primeiras etapas do projeto, enquanto Não Sou De Cá, lançado pela editora lisboeta Cuca Monga, marcou uma aproximação mais direta à língua portuguesa. Este último lançamento acrescentou outra dimensão à identidade da banda, mostrando que a mudança de idioma também podia abrir espaço para novas formas de expressão, sem exigir uma rutura com o som que os tinha dado a conhecer.
Entretanto, o percurso ao vivo ganhou uma dimensão internacional, os Hause Plants passaram por mais de quinze países e partilharam palcos com artistas como Dehd, Ducks Ltd., Cola e The Haunted Youth. Marcaram também presença em festivais como o SXSW, o Eurosonic Noorderslag e o FOCUS Wales, além de integrarem cartazes de eventos em Portugal, incluindo o Super Bock Super Rock e o MEO Kalorama. Em junho de 2026, abriram o concerto dos Two Door Cinema Club no Coliseu dos Recreios, em Lisboa, um momento que colocou a banda perante um público mais vasto no seu próprio país. É um percurso que se construiu através da continuidade, da circulação e da capacidade de levar as canções para fora do contexto em que nasceram.
Mas a história dos Hause Plants não se faz apenas de quilómetros percorridos. A mudança mais evidente está na música que têm vindo a desenvolver. Em 2025, Guilherme começou a experimentar novas ideias com sintetizadores, drum machines e pedais de guitarra, procurando outras formas de trabalhar o ritmo e a textura das canções. Essas experiências acabaram por regressar à sala de ensaio, onde foram transformadas em música tocada pelos quatro elementos da banda. O interesse pelas guitarras mantém-se, mas passa agora a conviver com uma pulsação mais eletrónica e com uma energia que aproxima algumas das novas composições do dance-punk.
Os singles Do It Like This e Pleasure, editados em 2026, oferecem os primeiros sinais desta direção. As batidas assumem um papel mais evidente, os baixos ganham peso e os sintetizadores acrescentam novas camadas a uma sonoridade que continua a preservar a espontaneidade de uma banda a tocar em conjunto. Há uma tensão interessante entre a aspereza das guitarras e a vontade de criar música para dançar, como se os Hause Plants estivessem a descobrir o que acontece quando o seu passado indie se encontra com uma abordagem mais física e rítmica. Não se trata de abandonar o que fizeram até aqui, mas de perceber até onde o podem levar.
É neste contexto que surge Shake The Empty Feeling, o primeiro álbum de longa duração da banda, com lançamento previsto para 2026. Gravado nos Eiger Studios, em Leeds, e produzido por Gordon Raphael, conhecido pelo trabalho com os The Strokes, Regina Spektor, Hinds e The Cribs, o disco foi registado com os quatro músicos a tocar em simultâneo na mesma sala. A escolha reforça a dimensão coletiva do projeto e a vontade de preservar a energia do momento, mesmo numa fase em que a eletrónica começa a ocupar um lugar mais importante na composição. Depois de vários EPs e singles, o álbum representa um novo formato para apresentar o trabalho da banda, não um começo do zero.
O percurso dos Hause Plants mostra como uma identidade musical pode desenvolver-se sem depender de uma única fórmula. Lisboa continua a fazer parte da sua história, Brooklyn deixou marcas no caminho e as experiências acumuladas em diferentes palcos parecem ter alargado as possibilidades do projeto. Ao longo dos lançamentos, a banda foi encontrando maneiras de transformar referências e experiências em canções, mantendo uma relação próxima com o circuito independente e uma vontade persistente de experimentar.
Agora, com dois novos singles a anteciparem o primeiro longa-duração, os Hause Plants encontram-se num momento de transformação que não apaga o caminho percorrido. Os quatro EPs anteriores já desenharam uma discografia própria, enquanto os concertos e as digressões ajudaram a consolidar uma presença internacional. O álbum que se prepara para chegar acrescenta outra dimensão a esse percurso, reunindo novas ideias e abrindo espaço para perceber como a banda quer soar daqui para a frente.
Entre guitarras, sintetizadores e ritmos cada vez mais dançáveis, continuam a avançar sem a necessidade de fixar definitivamente o lugar de onde vêm ou o som que devem fazer. Esta curiosidade, coragem de se ir moldado e a inquietação mantém o projeto em movimento: a capacidade de reconhecer o que já construiu e, ainda assim, continuar à procura de outras possibilidades. O próximo capítulo já está a caminho, mas a história da banda começou muito antes de o primeiro LP ganhar forma.
Atuam no Festival MIL Lisboa dia 9, se nunca os viste passa por lá, se já os viste aproveita para ver novamente, são daquelas bandas que nunca nos fartamos de ver ao vivo.

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