Wet Leg no Vodafone Paredes de Coura: Tornaram a euforia em dança

By VoxPop - agosto 16, 2026

     

    Às 23h05, quando as luzes do palco Vodafone se apagaram, já não havia muito espaço para dúvidas: as Wet Leg eram um dos momentos mais esperados da primeira noite de Paredes de Coura. O público tinha chegado até ali depois de uma tarde que atravessara vários estados de espírito, desde o do eclipse à intensidade de CMAT, e agora encontrava nas duas britânicas uma mudança de energia. “catch these fists” abriu o concerto sem cerimónia, lançando imediatamente guitarras e movimento sobre um anfiteatro que já estava completamente cheio.

    A entrada em “Wet Dream” confirmou aquilo que os primeiros acordes tinham anunciado. A música que ajudou a apresentar as Wet Leg ao mundo transformou-se num coro coletivo, com a voz de Rhian Teasdale a misturar-se com milhares de vozes vindas da plateia. Seguiram-se “liquidize” e “Too Late Now”, duas canções que mostraram desde cedo a capacidade da banda para alternar entre o impulso mais dançável e momentos onde a melodia ganha espaço. O concerto não avançava em linha reta; ia mudando de forma, sempre com aquela estranha combinação de humor, ironia e melancolia que se tornou parte da identidade das Wet Leg.

    Ao vivo, porém, há uma coisa que os discos não conseguem reproduzir: a sensação de que tudo pode descambar a qualquer momento. “Ur Mum” trouxe precisamente essa energia. O público já não estava apenas a assistir; estava dentro da música. Os corpos começaram a ocupar cada vez mais espaço, os saltos levantaram pó do chão e o anfiteatro ganhou uma espécie de movimento próprio. As Wet Leg não precisavam de pedir participação, a resposta estava à frente delas.

    Depois veio “Chaise Longue”, e o concerto encontrou um dos seus momentos mais reconhecíveis. A música continua a carregar aquele humor absurdo e despreocupado que marcou o início da banda, mas em Coura já não tinha nada de novidade. Era uma canção conhecida por milhares de pessoas e, quando chegou o momento certo, o palco praticamente desapareceu atrás do coro do público. A força da música estava precisamente nessa simplicidade: poucas ideias, um refrão impossível de esquecer e um anfiteatro inteiro disposto a gritá-lo.

    A reta final passou por “Angelica”, “CPR” e “mangetout”, aproximando o concerto da atual fase da banda. E é aqui que se percebe que as Wet Leg já não são apenas a banda de “Chaise Longue”. O novo material trouxe consigo uma maior segurança e uma paleta mais ampla, sem apagar a personalidade que as tornou reconhecíveis. Há mais camadas, mais espaço para explorar diferentes ritmos e uma confiança evidente em palco.

Essa evolução foi talvez o aspeto mais interessante da atuação. As Wet Leg continuam a ter o humor e a espontaneidade que sempre as acompanharam, mas já não dependem da surpresa. Rhian Teasdale e Hester Chambers parecem confortáveis dentro do próprio universo e sabem conduzir um concerto entre momentos de pura diversão e outros mais melódicos sem perder a atenção de quem está do outro lado.

    E Coura soube responder. O ambiente junto ao palco foi crescendo até se tornar quase impossível distinguir onde acabava a banda e começava o público. As guitarras atravessavam o recinto, as luzes recortavam a noite e o chão transformava-se numa nuvem de pó sempre que a multidão saltava. Depois de um eclipse que tinha feito toda a gente olhar para o céu algumas horas antes, o espetáculo estava agora completamente no chão, nos corpos e no movimento de quem tinha ficado para ouvir as Wet Leg.

“catch these fists”, “Wet Dream”, “liquidize”, “Too Late Now”, “Ur Mum”, “Chaise Longue”, “Angelica”, “CPR” e “mangetout” funcionaram como uma espécie de retrato da banda neste momento da carreira: reconhecível, mas já muito maior do que o fenómeno inicial que as lançou para o mundo.

    As Wet Leg não deram ao público apenas um conjunto de canções; deram-lhe um espaço para perder o controlo durante alguns minutos. E talvez seja essa a imagem que melhor resume o concerto: um palco iluminado, a banda, à frente, um anfiteatro inteiro transformado numa nuvem de pó em movimento.

A nossa reportagem fotográfica, está no nosso instagram.

Texto: Sofia Reis

Fotografia: José Almeida

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