CMAT no Vodafone Paredes de Coura: Entre o country, o humor e o caos
Às 21h00, depois do momento quase suspenso de First Breath After Coma + Salvador Sobral e do eclipse que tinha atravessado o céu do Taboão, CMAT apareceu no palco Vodafone como se tivesse entrado no festival por uma porta completamente diferente. A mudança foi imediata. Onde antes havia silêncio e contemplação, passou a haver cor, movimento, gargalhadas e uma artista que parece incapaz de estar parada durante demasiado tempo. CMAT não se limita a cantar as suas músicas: interpreta-as, brinca com elas e, muitas vezes, parece estar tão entretida em palco como o público está a assistir.
Havia, no entanto, uma ligação especial entre CMAT e aquele público. Durante o concerto, a artista falou da relação que tem com Portugal e revelou que viveu em Lisboa, cidade onde escreveu as canções do seu primeiro álbum, If My Wife New I'd Be Dead. De repente, algumas das músicas que estava a apresentar em Coura ganhavam uma história portuguesa. As canções que nasceram durante o período em que viveu em Lisboa estavam agora a ser tocadas perante um público português, num dos maiores festivais do país. Não era apenas uma passagem por Portugal: havia ali uma espécie de regresso.
E CMAT fez questão de tornar essa ligação ainda mais descontraída. Entre as histórias e as piadas, confessou também o seu amor pela Super Bock, bebendo uma lata de penalty, provocando naturalmente a reação do público. Foi um daqueles momentos pequenos que ajudam a definir um concerto: não estava no alinhamento, não estava ensaiado como uma música, mas aproximou imediatamente a artista de quem estava do outro lado. Por alguns instantes, CMAT deixou de ser apenas a cantora irlandesa que tinha acabado de subir ao palco e passou a ser alguém que tinha uma história com o país onde estava a tocar.
Acompanhada pela sua banda, transformou depois o palco numa espécie de espetáculo dentro do próprio espetáculo. Os músicos não estavam ali apenas para acompanhar as canções; faziam parte da personagem coletiva que CMAT construiu. As roupas exuberantes, as cores fortes, os acessórios e aquela estética que mistura country, kitsch e exagero pop deram ao palco uma identidade própria. Nada parecia escolhido para passar despercebido. Cada peça, cada pose e cada movimento contribuíam para um cenário que estava constantemente a mudar.
Não podemos deixar de falar das coreografias, assumidamente exageradas, muitas vezes quase absurdas, mas executadas com uma precisão que revelava que, por trás do caos, existia uma ideia muito clara do espetáculo que queriam construir. CMAT dançava, posava e interagia com os músicos, enquanto a banda respondia com movimentos sincronizados, expressões exageradas e pequenas brincadeiras. Era difícil saber para onde olhar, porque havia sempre alguma coisa a acontecer em palco. Por vezes parecia um concerto de country-pop; noutras, um número de cabaret ou uma comédia encenada em direto.
O humor é precisamente uma das armas mais fortes de CMAT. Há uma enorme vontade de não levar demasiado a sério a própria personagem e de transformar o exagero numa forma de comunicação com o público. As piadas, os gestos, as poses e as interações entre os elementos da banda não aparecem como intervalos entre as músicas: fazem parte da própria identidade do concerto. A artista cria um universo onde o ridículo é assumido sem medo e onde uma gargalhada pode surgir no meio de uma canção emocional.
Mas por baixo de todo esse espetáculo existe uma artista muito mais complexa. As canções de CMAT podem aparecer envolvidas em cores, humor e referências pop, mas falam muitas vezes de inseguranças, relações, solidão e das contradições da própria imagem. É precisamente essa diferença entre a personagem exuberante e aquilo que está por baixo dela que torna a atuação tão interessante. CMAT consegue fazer o público rir e, poucos instantes depois, deixá-lo perante uma música com um peso completamente diferente.
Musicalmente, a banda acompanha tudo isto com enorme segurança. As influências country, pop, disco e americana cruzam-se sem que o concerto pareça preso a um género específico. A instrumentação dá espaço para as canções respirarem, mas também acompanha os momentos mais teatrais, permitindo que a música e a encenação funcionem como uma coisa só. Não existe uma separação clara entre tocar e representar: tudo acontece ao mesmo tempo.
Em Paredes de Coura, essa personalidade encontrou um público disposto a entrar no jogo. Entre uma música e outra, havia sempre uma nova pose, uma coreografia ou uma interação capaz de arrancar risos. A banda parecia genuinamente divertir-se em palco e essa energia atravessava imediatamente o recinto. CMAT não tentou criar distância entre si e quem estava do outro lado; pelo contrário, fez do público parte daquele universo exagerado e divertido.
Depois de um eclipse que tinha feito milhares de pessoas olhar para o céu, o palco Vodafone ganhou agora outro tipo de espetáculo. CMAT transformou o próprio palco num cenário. Entre roupas extravagantes, coreografias deliberadamente absurdas, guitarras, humor, histórias de Lisboa e uma declaração de amor à Super Bock, a artista irlandesa trouxe ao Taboão uma atuação que foi tanto concerto como espetáculo visual.
Quando saiu de palco, a atmosfera já era outra. O público estava preparado para as Wet Leg, que chegariam pouco depois, mas CMAT tinha deixado a sua marca. A mulher que um dia escreveu aquelas canções em Lisboa estava agora em cima do palco de Paredes de Coura a cantá-las para um público português, entre gargalhadas, cervejas, coreografias e memórias. E talvez seja essa a imagem mais bonita da noite: uma história que começou em Lisboa a encontrar, anos depois, o seu caminho de volta a Portugal.
Texto: Sofia Reis
Fotografia: Hugo Lima


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