Vodafone Paredes de Coura 2026: O segundo dia e a viagem que so terminou de madrugada
O segundo dia começou no Taboão ainda com as últimas memórias da madrugada anterior, mas sem tempo para recuperar. Às 16h30, Milhanas abriram o Coura Sem Paredes, enquanto o recinto começava novamente a receber os primeiros festivaleiros. Pouco depois, às 17h10, A Garota Não levou ao palco Vodafone a sua voz e a sua escrita, dando início a uma tarde que, à semelhança do primeiro dia, iria crescer lentamente até à madrugada.
Com Tomode, às 18h00, e Aldous Harding, às 19h00, o festival começou a ganhar diferentes tons. Aldous Harding trouxe para o palco principal uma presença mais misteriosa e singular, criando um ambiente que contrastava com a energia que se começava a formar no resto do recinto. Às 20h00, Friko ocuparam o Coura Sem Paredes, mantendo a sucessão de propostas diferentes que fazia com que, a cada mudança de palco, fosse possível encontrar uma atmosfera completamente nova.
Quando Kurt Vile & The Violators subiram ao palco Vodafone, às 21h00, o dia já tinha entrado definitivamente na noite. A sonoridade descontraída e psicadélica de Kurt Vile encontrou um cenário particularmente adequado em Coura. Sem necessidade de pressa, as guitarras foram preenchendo o espaço e o público foi-se deixando ficar, numa espécie de suspensão entre a tarde e a noite. Ao mesmo tempo, o Coura Sem Paredes preparava uma mudança de ambiente com Pale Jay, às 22h15, trazendo uma dimensão mais soul e quente à noite.
Às 23h15, chegaram os Hermanos Gutiérrez. As guitarras dos irmãos suíço-equatorianos deram ao palco principal uma atmosfera quase cinematográfica, como se por alguns minutos o Taboão tivesse deixado de ser apenas um recinto de festival para se transformar no cenário de um filme. A música avançava com espaço e calma, criando um contraste interessante com aquilo que estava prestes a acontecer.
À meia-noite e meia, Wu Lyf assumiram o Coura Sem Paredes e começaram a empurrar a noite para um território mais intenso. Já não havia propriamente sinais da tarde que tinha começado horas antes. O recinto estava cheio, as luzes dominavam o espaço e a madrugada começava a aproximar-se.
À 01h30, o palco Vodafone recebeu Underworld, e a transformação ficou completa. O duo britânico trouxe uma dimensão eletrónica que alterou completamente a relação do público com o espaço. Os graves atravessavam o Taboão, as luzes acompanhavam os ritmos e o anfiteatro transformou-se numa enorme pista de dança ao ar livre. Depois de uma tarde marcada pela canção, pelo indie e pelas guitarras, Coura encontrava-se agora mergulhado numa experiência totalmente física, feita para dançar e permanecer acordado.
Mas a madrugada não terminou com Underworld. Às 02h45, Show Me The Body levaram ao Coura Sem Paredes uma energia muito mais agressiva, enquanto às 03h45 Bassvictim prolongaram a noite. A essa hora, já não era apenas o cartaz que mantinha as pessoas no recinto. Era o próprio ambiente de Coura, aquela vontade de adiar o momento de partir por mais um concerto, mais uma música, mais alguns minutos.
O segundo dia percorreu assim um caminho muito diferente do primeiro. Se a abertura do festival tinha sido marcada pelo eclipse e por uma sucessão de momentos muito contrastantes, a quinta-feira construiu-se lentamente até desembocar na eletrónica de Underworld. Pelo meio houve a personalidade de A Garota Não, o universo singular de Aldous Harding, as guitarras de Kurt Vile e Hermanos Gutiérrez, a soul de Pale Jay e a intensidade de Wu Lyf e Show Me The Body.
Quando Bassvictim terminaram, às 03h45, o segundo dia já tinha atravessado mais de onze horas de música. O Taboão começava novamente a esvaziar-se, mas ainda havia luzes, vozes e pequenos grupos a caminhar pelo recinto. A noite tinha começado com calma e terminado em movimento, deixando para trás mais uma madrugada de Coura. E, enquanto o festival começava a preparar-se para um novo dia, ficava a sensação de que o segundo capítulo tinha conseguido fazer aquilo que Coura melhor sabe fazer: mudar completamente de ambiente sem nunca perder o fio à sua identidade.
Texto: Sofia Reis
Fotografias: Hugo Lima








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