Festival Iminente 2026: Uma Escola Que Voltou a Ter Voz

By VoxPop - setembro 23, 2026

 

     Entre 17 e 20 de setembro, a antiga Escola Industrial Afonso Domingues, em Marvila, voltou a ter vida. Durante quatro dias, aquele espaço que esteve abandonado durante anos recebeu música, arte, cinema, performance, dança, skate, futebol, gastronomia e milhares de pessoas. Foi o Festival Iminente a ocupar uma escola que parecia condenada ao esquecimento e a mostrar que aquelas paredes ainda tinham muito para dizer.

    Mas para perceber verdadeiramente o significado desta edição do Iminente, é preciso olhar para a história daquele lugar. A Escola Industrial Afonso Domingues foi encerrada em 2010, estando no percurso dos projetos da Terceira Travessia do Tejo e da ligação ferroviária de alta velocidade. Os projetos não avançaram como previsto e a escola ficou. Ficou fechada, degradada e entregue ao abandono durante anos. Em 2022, o edifício acabou por ser cedido pelo Estado à Câmara Municipal de Lisboa.

    É difícil não pensar no que isso representa quando sabemos que Portugal continua a ter necessidades no sistema educativo, desde o pré-escolar até ao ensino secundário. Crianças e adolescentes que não têm vagas, crianças que passam para o 5º ano e estão desde setembro a janeiro à espera de uma vaga, adolescentes que aos 14 anos têm que escolher a área que querem seguir para a vida mas não há vagas, as escolas profissionais que passaram a ser privadas e os alunos saem de lá na maioria das vezes sem aptidão para começar a trabalhar na área, porque o que interessou à escola foi receber a mensalidade e não a qualidade de ensino, contudo o estado continua a fechar os olhos a isto.

    Aquela escola, aquele edifício podia colmatar algumas destas falhas, mas o estado resolveu deixar em ruínas com o projeto de a destruir para fazer uma acesso a uma nova ponte à margem sul. Estamos a falar de um edifício que já existia, com salas, espaços de aprendizagem, campos e todas as infraestruturas de uma escola, mas que foi deixado degradar-se durante anos. Não estamos a falar de construir uma escola de raiz. A escola já estava lá.

    É precisamente por isso que caminhar pelos corredores da Afonso Domingues durante o Iminente provocava uma sensação estranha. Havia algo de contraditório em ver um edifício que tinha sido deixado ao abandono voltar a encher-se de pessoas, de música e de arte. O Estado deixou aquela escola ficar para trás e o Iminente, durante quatro dias, fez exatamente o contrário: trouxe-a para o centro das atenções. E fê-lo sem precisar de transformar o festival num manifesto político. Bastou ocupar o espaço, abrir as portas e deixar entrar artistas e público.

    De repente, as salas que estiveram vazias voltaram a ter pessoas, os corredores voltaram a ter movimento e as paredes receberam obras. Os espaços exteriores ganharam novos usos. A antiga cantina, onde em tempos aconteciam bailes de finalistas, transformou-se num palco. O antigo campo de ténis recebeu outro palco, acompanhado por um halfpipe, enquanto outras zonas da escola foram transformadas para receber concertos, exposições e diferentes atividades. A escola passou a fazer parte da própria experiência do festival e tornou-se impossível separar o Iminente daquele edifício.

    Não estávamos simplesmente perante um festival montado numa escola abandonada. Estávamos dentro de uma escola que, durante quatro dias, voltou a funcionar como um lugar de encontro. E essa transformação também aconteceu através da arte. Vhils apresentou um vídeo de uma arte sua de José Saramago, antigo aluno da escola, enquanto outras intervenções recuperaram memórias do próprio Iminente e dialogaram com a história do edifício. Havia obras espalhadas pelas salas, pelos corredores e pelos espaços exteriores, obrigando o público a percorrer a escola para descobrir aquilo que estava a acontecer. Era quase como entrar num edifício que tinha sido congelado no tempo e vê-lo ganhar uma nova camada diante dos nossos olhos.

    Na música, a programação foi igualmente diversa. Sam The Kid apresentou-se com a Orquestra e os Orelha Negra, os Mind Da Gap regressaram aos palcos e passaram pelo festival nomes como Capicua, Gisela João, Original Kappa aka Allen Halloween, Bahamadia, Black Milk, Dino D’Santiago, DJ Premier, Conway the Machine, Lena d’Água, Luedji Luna, Mão Morta, Batida e Expresso Transatlântico, entre muitos outros. Mas a música foi apenas uma parte daquilo que aconteceu na Afonso Domingues. Houve cinema, performances, breaking, skate, futebol, gastronomia e projetos comunitários, numa programação que procurou cruzar diferentes linguagens e diferentes públicos.

    O futebol encontrou a arte através do projeto CAMISOLAS, com equipamentos criados por artistas para clubes de bairro, enquanto o breaking e o skate ocuparam outros espaços da escola. Ao longo dos quatro dias, a antiga Afonso Domingues transformou-se numa pequena cidade dentro de Marvila, com diferentes espaços, diferentes públicos e diferentes formas de expressão a coexistirem dentro do mesmo edifício.

    Havia ainda outra realidade que não podia ser ignorada. A escola tornou-se entretanto um lugar onde viviam pessoas em situação de sem-abrigo e o festival entrou naquele espaço sabendo que existiam pessoas que já ali tinham a sua vida. A organização afirmou que não iria expulsar os moradores e disponibilizou alojamento temporário durante os dias do evento para quem quisesse utilizá-lo. Essa realidade acrescentou outra camada à história, porque aquela escola não estava simplesmente abandonada. Havia pessoas a viver ali, havia uma comunidade e havia problemas sociais que não desaparecem quando se acendem as luzes de um festival.

    E foi também através das palavras dos artistas que o Iminente acabou por falar sobre o país em que vivemos. Ao longo dos quatro dias, vozes como A Garota Não, Capicua, Xullaji e Ghoya trouxeram para dentro daquela escola temas que vão muito para além da música: o papel das mulheres na sociedade, as desigualdades, as dificuldades de quem vive com menos recursos, a marginalização, a identidade e a forma como tantas pessoas continuam a ser deixadas para trás. Não eram discursos colocados ali artificialmente para cumprir uma agenda. São temas que fazem parte da obra e da identidade destes artistas e que, naquele espaço específico, ganharam uma força ainda maior.

    Talvez por isso esses momentos tenham feito tanto sentido dentro da antiga Escola Industrial Afonso Domingues. Ouvir falar de desigualdade, de mulheres, de pobreza e de exclusão dentro de uma escola que o Estado deixou chegar ao abandono criava uma espécie de ligação inevitável entre aquilo que era dito em palco e aquilo que estava diante dos nossos olhos. Não era preciso explicar demasiado. Bastava olhar à volta. As palavras encontravam as paredes e as paredes davam-lhes contexto.

    É aí que a programação do Iminente ganha uma dimensão que ultrapassa o entretenimento. O festival não juntou simplesmente artistas diferentes num mesmo recinto. Juntou diferentes formas de olhar para a realidade e permitiu que essas vozes ocupassem um espaço que durante anos esteve vazio. A Garota Não, Capicua, Xullaji, Ghoya e tantos outros estavam ali a fazer aquilo que os artistas fazem quando têm liberdade para falar sobre o seu tempo: observar, questionar, incomodar e dar voz a quem nem sempre consegue ser ouvido.

    E naquele lugar, naquele momento, essas palavras fizeram ainda mais sentido. Enquanto se falava de desigualdade, do papel das mulheres, de pobreza e de exclusão, estávamos dentro de uma escola abandonada, num país onde a educação continua a enfrentar dificuldades e onde pessoas chegaram a viver dentro daquele mesmo edifício por não terem outro lugar. O contexto não precisava de ser explicado, estava ali, à nossa frente.

    Foi talvez uma das maiores forças desta edição do Iminente: deixar que a arte dissesse aquilo que muitas vezes preferimos não ouvir. Sem transformar o festival num comício e sem precisar de apontar o dedo, os artistas falaram do presente. E o presente, naquele espaço, tinha paredes degradadas, salas abandonadas, pessoas que ficaram para trás e uma escola que, durante quatro dias, voltou a encher-se de vida.

    Sérgio Godinho escreveu que só há liberdade a sério quando houver paz, pão, habitação, saúde e educação, e é difícil não pensar nessas palavras quando estamos dentro daquela escola. Num país onde continuamos a falar de falta de respostas na educação, de escolas que precisam de obras e de necessidades que permanecem por resolver, temos também edifícios como este, que já foram escolas e que ficaram abandonados durante anos. É legítimo perguntar quais são as prioridades de um país quando uma escola pode chegar a este estado, sobretudo quando já existiam ali as infraestruturas necessárias para que aquele espaço continuasse a cumprir uma função educativa. Não é preciso transformar essa pergunta num discurso político, até podia, mas não esse o objetivo neste momento, mas é uma pergunta que o próprio edifício coloca.

    E talvez o mais interessante seja que o Iminente não tentou responder através de palavras. Respondeu através da arte. Durante quatro dias, aquela escola voltou a ter pessoas, música, imagens e movimento. Voltou a ser um espaço onde alguma coisa acontecia e onde diferentes gerações e linguagens culturais puderam encontrar-se.

    Quando o festival terminou, as pessoas foram embora e o edifício voltou ao silêncio. Mas quem lá esteve viu uma coisa que durante anos parecia impossível: viu aquela escola cheia outra vez. O Iminente não resolveu o futuro da Afonso Domingues e não podia fazê-lo, mas deu-lhe atenção, deu-lhe luz e devolveu-a, ainda que temporariamente, à cidade.

    E talvez essa seja a imagem que fica desta edição do Iminente. Uma escola abandonada que, através da arte, voltou a mostrar aquilo que poderia ser: um lugar vivo, um lugar de encontro e um lugar de aprendizagem. Durante quatro dias, as paredes da antiga Afonso Domingues voltaram a ter uma função. E talvez o mais importante seja perceber que elas nunca deixaram de a ter. Nós é que, durante demasiado tempo, deixámos de olhar para elas, corrijo, nós não o nosso governo e as suas prioridades.

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