Jorge Palma um dos maiores músicos portugueses

By VoxPop - setembro 22, 2026


    Há noites em que Lisboa ou o país parecem saber antes de nós, noite passa foi uma delas. Fica mais quieta, os elétricos passam ao longe, as janelas continuam acesas e alguém atravessa uma rua vazia sem saber que, algures, uma notícia acabou de partir o país ao meio, de partir quem te admira ao meio.

    Jorge Palma morreu, vemos o seu ano de nascimento 1950 e 2026, custa, custa muito. Nem consigo descrever o quanto me custa escrever esta frase.

        Custa escrever estas palavras porque há nomes que parecem não ter sido feitos para o passado. Jorge Palma era presente. Era aquela voz que parecia vir de uma madrugada qualquer, de um piano cansado, de uma mesa onde já se tinha falado de tudo e ainda havia tanto por dizer. Era a voz de quem conhecia a beleza e a ruína das coisas, de quem sabia que a vida nunca foi muito boa a cumprir promessas, mas que, ainda assim, valia sempre a pena continuar.

    Durante mais de cinquenta anos, Jorge foi deixando canções pelo caminho, como quem deixa pequenas luzes acesas para quem vem depois. “Frágil”, “Bairro do Amor”, “Deixa-me Rir”, “Encosta-te a Mim” e tantas outras que, há muito, já não lhe pertenciam completamente. Talvez essa seja uma das coisas mais bonitas que pode acontecer a um artista: chegar a um momento em que aquilo que escreveu passa a viver dentro dos outros.

    A partir de hoje, vamos ouvi-lo de outra maneira. Vai haver uma música qualquer a tocar no rádio e, por alguns segundos, ninguém vai falar. Vai haver alguém num carro, parado num semáforo, a olhar para a chuva e a pensar nele. Vai haver uma casa onde alguém vai pousar um copo, fechar os olhos e lembrar-se de uma noite de há vinte anos. Haverá filhos que vão descobrir nas canções do pai aquilo que nunca conseguiram perguntar-lhe, amigos que guardarão histórias que nunca chegarão aos jornais e, inevitavelmente, haverá uma cadeira vazia.

    É essa cadeira que dói, doí tanto ou mais como nunca mais ver um concerto dele, ver a tua timidez e por vezes falta de paciência para as coisas chatas.

    Não tanto a fotografia, nem as homenagens, nem sequer todas as palavras bonitas que hoje vamos encontrar. É a cadeira. Porque a morte, no fundo, é uma coisa muito concreta: é chegar a um sítio e perceber que aquela pessoa já não vai entrar pela porta, olhar para o telefone e saber que não vai tocar, ou ouvir uma gargalhada parecida com a sua na rua e, durante um instante, deixar o coração acreditar antes de a cabeça conseguir impedi-lo.

    É isso que significa perder alguém. O mundo continua exatamente no mesmo lugar e, no entanto, o mundo já não é o mesmo.

    Jorge tinha essa coisa rara de quem parece ter vivido várias vidas dentro de uma só. O menino que começou no piano, o adolescente que trocou o clássico pelo rock, o homem que atravessou fronteiras, o músico que regressou, o poeta das noites compridas, o pai, o amigo, o boémio, o sobrevivente, o homem que continuou a escrever enquanto o tempo lhe ia levando coisas.

    Talvez seja também por isso que a sua música nunca tenha soado inteiramente feliz nem inteiramente triste. Soava humana, como nós, feita daquela estranha mistura de amor e perda, de esperança e cansaço, de vontade de ficar e vontade de partir. Jorge sabia qualquer coisa sobre isso.

    E agora somos nós que temos de aprender a viver com o silêncio que ficou e com a eternizarão das suas musicas, que vão sempre saber a saudade.

    Talvez amanhã Lisboa acorde com o mesmo barulho de sempre: os carros, os elétricos, as vozes, o Tejo a fingir que nada aconteceu. Mas alguma coisa mudou, porque há vozes que, quando desaparecem, deixam o silêncio maior. A de Jorge Palma é uma delas.

    Gosto de imaginar que, algures, existe ainda um piano. Não um piano triste, mas um piano à espera. As teclas quietas, a luz baixa, uma cadeira puxada para trás. E Jorge chega, senta-se e põe as mãos sobre o piano. Antes de tocar, olha para nós como quem sabe uma coisa que nós ainda não sabemos: que nenhuma canção acaba verdadeiramente quando acaba. Algumas ficam suspensas no ar, à espera de alguém, de uma madrugada, de uma pessoa que precisa desesperadamente de ouvir que não está sozinha.

    Por isso, Jorge, esta noite não te digo adeus. Ainda não.

    Deixo apenas a janela aberta, deixo Lisboa continuar a passar lá fora e ponho uma das tuas canções a tocar. Baixo o volume e fico quieta, porque há despedidas que não se fazem com palavras. Fazem-se assim, com uma lágrima, uma cidade acordada, um piano imaginado no escuro e a certeza dolorosa de que, a partir de hoje, vamos sentir a tua falta.

    E espero, de coração, que tu e o Zé estejam agora juntos, algures, a pôr a conversa em dia como se o tempo nunca tivesse passado.

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