Festival Iminente são 10 anos a dar voz à cultura urbana

By VoxPop - setembro 09, 2026

 

    Há lugares que desaparecem sem realmente desaparecer, ficam as paredes, os corredores, as janelas, o eco de quem já não está e a memória de tudo aquilo que ali aconteceu. Mas ás vezes, basta alguém voltar a abrir uma porta para que um lugar volte a respirar. Em setembro, uma dessas portas volta a abrir-se em Marvila. Durante quatro dias, a antiga Escola Industrial Afonso Domingues, encerrada há mais de uma década, deixa de ser uma escola abandonada para se transformar num lugar de música, arte e encontro. Talvez um espaço que o deveria ser todo o an, em vez de estar em ruínas. As salas ganham novos sons, os corredores recebem imagens, as paredes tornam-se telas, a escultura encontra a arquitetura e o público encontra os artistas. É ali que o Iminente celebra dez anos.

Nash Does Work . Natasha Cabral

    Criado em 2016 por Alexandre Farto, conhecido como Vhils, o Iminente nasceu em Oeiras a partir de uma ideia tão simples quanto ambiciosa: criar um espaço onde diferentes expressões da cultura urbana pudessem encontrar-se. A música e as artes visuais estiveram desde o princípio no centro do projeto, mas a definição foi sempre mais larga. Graffiti, pintura, escultura, fotografia, cinema, dança, performance, instalação, design, moda e outras formas de criação contemporânea foram encontrando lugar dentro de uma plataforma que nunca quis ficar presa a uma só linguagem.


Ivo Lázaro

    O próprio nome parece conter uma espécie de manifesto. Iminente é aquilo que está prestes a acontecer, aquilo que ainda não chegou completamente, mas que já se consegue pressentir. A ideia de olhar para o que está a emergir tornou-se parte da identidade do projeto. Ao longo da sua história, o festival procurou juntar artistas com percursos consolidados e criadores que ainda estavam a começar, diferentes gerações, diferentes comunidades e diferentes formas de fazer cultura. Diversidade, exclusividade, igualdade e visibilidade são alguns dos valores assumidos pelo projeto, que procura transformar o festival num lugar onde diferentes vozes possam ocupar o mesmo espaço.

Nash Does Work . Natasha Cabral

    A primeira edição aconteceu em Oeiras, em 2016, e o festival regressou à cidade no ano seguinte. Em 2018, o Iminente chegou a Lisboa e encontrou no Panorâmico de Monsanto um cenário que parecia feito para a sua linguagem. 

Nash Does Work . Natasha Cabral

    Um edifício abandonado, com uma vista quase impossível sobre a cidade, tornou-se durante alguns dias um dos lugares mais vivos de Lisboa. Música, arte e público ocuparam um espaço que durante anos tinha permanecido vazio. Em 2019, o festival regressou ao Panorâmico, consolidando aquela relação entre cultura urbana e lugares fora do circuito habitual.

Nash Does Work . Natasha Cabral

    Depois veio 2020 e a pandemia, o mundo parou e os festivais tiveram de encontrar outras formas de existir. O Iminente respondeu com a Oficina Iminente, uma residência artística de dez dias que colocou o processo criativo no centro da experiência. Em vez de apenas apresentar obras terminadas, aproximou o público dos artistas e da própria construção das obras. A fronteira entre quem cria e quem observa tornou-se mais pequena, deixou de ser apenas uma questão de assistir e passou a ser também uma questão de participar.

Nash Does Work . Natasha Cabral

    A história continuou por outros espaços de Lisboa. A Matinha tornou-se um dos lugares do projeto, e o Iminente chegou também ao Terreiro do Paço, levando para um dos espaços mais centrais e simbólicos da cidade uma programação que nasceu de uma cultura muitas vezes associada às periferias. A deslocação dos lugares nunca foi apenas uma mudança de cenário. Cada espaço trouxe consigo uma nova relação com a cidade e uma nova possibilidade de encontro.

Nash Does Work . Natasha Cabral

    Entretanto, o Iminente começou também a atravessar fronteiras. O projeto chegou a Londres, Xangai, Rio de Janeiro e Marselha, levando consigo uma programação onde a cultura urbana portuguesa se cruzou com diferentes cenas internacionais. Ao longo da década, o universo Iminente passou por seis cidades em cinco países e reuniu centenas de artistas. A organização contabiliza mais de 300 artistas nas edições do festival e, no contexto do décimo aniversário, fala já em mais de 600 artistas envolvidos no percurso mais amplo do projeto. São números que ajudam a perceber a dimensão que uma ideia nascida em Portugal conseguiu alcançar.

Nash Does Work . Natasha Cabral

    Vamos olhar para alguns artistas que passaram por esses espaços. No lado da música, o Iminente recebeu nomes fundamentais da cultura portuguesa, como Sam The Kid, Capicua, Mind Da Gap, Allen Halloween, Dino D'Santiago, Gisela João, Mão Morta e Batida. Ao lado deles estiveram artistas internacionais como Yasiin Bey, Sister Nancy e DJ Premier. Nas artes visuais, nomes como Bordalo II, Wasted Rita e o próprio Vhils ajudaram a construir uma identidade visual que sempre acompanhou a música em vez de existir simplesmente como decoração à sua volta.

Nash Does Work . Natasha Cabral

    Porque reduzir o Iminente à música seria deixar de fora uma parte essencial da sua história. A arte visual sempre esteve no centro do projeto. O graffiti e o muralismo convivem com a pintura, a escultura, a fotografia, o vídeo, a instalação e a intervenção no espaço público. Muitas das obras são pensadas em relação direta com os lugares onde aparecem, fazendo com que a arquitetura deixe de ser apenas um cenário para se tornar parte da própria obra. É uma característica que ganha uma dimensão especial na edição de 2026, quando a antiga Escola Industrial Afonso Domingues passa a fazer parte da experiência artística. Salas de aula, corredores, paredes e espaços exteriores tornam-se lugares de criação, com trabalhos de artistas como Vhils, Tamara Alves, ±MAISMENOS±, Wasted Rita, Camila Rosa, AkaCorleone e Pedrita a dialogarem com a arquitetura e a memória do edifício.

    Há ainda uma história escondida dentro das paredes da Afonso Domingues que torna esta escolha particularmente simbólica. Durante décadas, o ensino técnico ocupou um lugar menos valorizado dentro do sistema educativo português e a Afonso Domingues ganhou uma reputação particularmente difícil. Era uma escola exigente, inserida num contexto social complexo, onde as condições de ensino nem sempre eram fáceis e onde, segundo relatos da época, havia professores que não queriam ser colocados ali. Mais do que uma escola fácil, era um lugar onde ensinar e aprender implicavam lidar de frente com uma realidade social que muitas vezes ficava longe das escolas mais privilegiadas.

    Mas entre aquelas paredes estudou um dos maiores nomes da literatura portuguesa. Em 1935, José Saramago entrou na Afonso Domingues, onde frequentou o curso de Serralharia Mecânica, que viria a concluir em 1940. Filho de uma família com dificuldades económicas, encontrou no ensino técnico uma possibilidade de formação que lhe permitiu entrar no mundo do trabalho. Anos mais tarde, o próprio escritor recordaria aquela formação como uma verdadeira preparação para a vida, chegando a afirmar que, se algum curso de preparação para a vida podia apresentar, era precisamente o de Serralharia Mecânica da Escola Industrial Afonso Domingues.

    A escola que tantas vezes foi vista como um lugar difícil foi, afinal, parte da formação de um futuro Prémio Nobel da Literatura. E essa história ganha uma nova camada quase um século depois. Em 2026, as mesmas paredes onde Saramago aprendeu uma profissão voltam a receber pessoas que trabalham com a matéria de formas completamente diferentes: através da música, da pintura, da escultura, da fotografia, da instalação e da intervenção artística.

    Vhils, que construiu grande parte da sua linguagem artística a partir da matéria das paredes, apresenta ali uma obra dedicada precisamente a Saramago. O rosto do escritor surge ligado ao mar e à passagem das marés, numa obra que parece fazer dialogar memória e desaparecimento, aquilo que fica e aquilo que o tempo transforma.

José Saramago por Vhils na Lourinhã

    É difícil imaginar uma melhor síntese para os dez anos do Iminente. Um lugar que durante anos carregou uma reputação difícil volta a ocupar o centro. Uma escola que esteve fechada durante mais de uma década transforma-se num espaço de criação. E uma história que poderia ter ficado esquecida volta a ser contada através da arte.

    Mas se a história do Iminente fosse apenas uma sucessão de artistas e edifícios, faltaria uma das partes mais importantes do projeto. A relação com os bairros e com as comunidades é uma das dimensões que mais profundamente marcou o seu percurso.

    Ao longo dos anos, o Iminente desenvolveu projetos em territórios como a Alta de Lisboa, Vale de Chelas, Vale de Alcântara, Bairro do Rego e Quinta do Loureiro, entre outros. Através de workshops e processos de criação coletiva, levou artistas e comunidades a trabalhar em áreas tão diferentes como música, dança, fotografia, cinema, artes visuais, skate, ambiente ou roupa.

Ivo Lázaro (Londres)

    A diferença está na ideia de participação, não se trata simplesmente de levar cultura a um bairro e apresentar uma atividade às pessoas que lá vivem. A intenção é criar com essas comunidades, permitindo que os habitantes participem nos processos artísticos e que os resultados possam depois ocupar os espaços do próprio festival. Em 2022, por exemplo, foram realizados 16 workshops em cinco bairros, com trabalhos que posteriormente chegaram ao festival.

    É aqui que o projeto se aproxima mais da sua ideia original de visibilidade. Porque muitas das pessoas e culturas que fazem parte da cidade permanecem invisíveis quando olhamos para ela apenas a partir do centro. O Iminente tenta fazer o movimento contrário: levar os bairros para o centro da conversa e reconhecer que também ali existe criação, conhecimento, talento e cultura.

    Essa relação ajuda também a compreender a própria presença de Vhils no projeto. O artista tornou-se conhecido por trabalhar sobre paredes, retirando matéria para revelar rostos e memórias. Há algo de semelhante na forma como o Iminente olha para a cidade, em vez de construir uma narrativa cultural completamente nova, procura descobrir aquilo que já existe e que nem sempre é visto: artistas que estão a começar, comunidades que raramente aparecem nos grandes palcos, linguagens criadas fora das instituições e lugares esquecidos que podem voltar a ter vida.

    Dez anos depois, o Iminente é já maior do que o festival que nasceu em 2016. Continua diretamente ligado a Vhils e integra atualmente a Cultural Affairs, o coletivo criado em torno da sua prática artística, mas desenvolveu uma estrutura e uma identidade próprias. Hoje, o projeto funciona como uma plataforma que cruza música, artes visuais, comunidades e território, criando encontros entre aquilo que já conhecemos e aquilo que ainda estamos prestes a descobrir.

    Uma das suas conquistas está precisamente na possibilidade de ter funcionado como porta de entrada para artistas emergentes. Ao longo dos anos, muitos criadores encontraram no Iminente uma primeira oportunidade para apresentar o seu trabalho a um público mais vasto. Para alguns, o festival é mais um palco num percurso já estabelecido. Para outros, pode ser o primeiro momento em que aquilo que fizeram num quarto, num estúdio, num bairro ou numa parede passa a ser visto por centenas ou milhares de pessoas.

  • Share:

You Might Also Like

0 comments