Dead Sexy, Tsunamiz e Trash Circus: Uma Noite em Chamas no Village Underground

By VoxPop - setembro 27, 2026

 

    Há uma certa injustiça em medir uma noite de música pelo tamanho da multidão. Algumas salas precisam de centenas de pessoas para ganhar vida. Outras precisam apenas de uma mão cheia de gente disposta a deixar a compostura à porta. Naquela noite, o Village Underground, em Alcântara, não estava propriamente a rebentar pelas costuras, mas havia no ar uma energia inquieta, quase clandestina, como se todos soubessem que estavam prestes a assistir a qualquer coisa que dificilmente caberia num concerto convencional.

    A primeira faísca veio de Tsunamiz, o projeto a solo de Bruno Sobral. Sozinho em palco, o músico não pareceu sentir falta de uma banda inteira para preencher o espaço. Pelo contrário, assumiu a solidão como parte da estética e transformou-a numa espécie de arma. Entre o rock alternativo, a eletrónica e uma atitude DIY que atravessa todo o projeto, Tsunamiz construiu uma paisagem sonora densa e inquieta, onde as guitarras e as máquinas se encontram num ponto em que a melodia e o ruído deixam de ser conceitos tão diferentes.

    Havia qualquer coisa de cinematográfico na forma como o concerto se foi construindo. As luzes, a presença isolada do músico e a sucessão de camadas sonoras criavam a sensação de estarmos a assistir a uma cena que se desenrolava diante dos nossos olhos, sem rede de segurança. Tsunamiz não procurou conquistar a sala através do espetáculo fácil. Fez isso através da insistência, da atitude e de uma música que parece nascer precisamente desse lugar onde o rock encontra a eletrónica e a experimentação.

    Depois, a noite mudou de pele. O Trash Circus entrou em cena e levou consigo uma dose considerável de provocação. A performance mergulhou de cabeça no território do erotismo, do absurdo e da estética underground, criando um momento em que o concerto deixou de ser apenas música e passou a funcionar como espetáculo. Havia algo deliberadamente desconfortável na proposta, mas também uma boa dose de humor e irreverência. Entre o choque e o fascínio, o público ficou preso ao que acontecia no palco, sem saber exatamente o que esperar a seguir.

    Quando chegaram os Dead Sexy, a atmosfera já estava preparada. A banda não perdeu tempo a explicar o que vinha fazer. Atacou diretamente. O electro punk e o rock cru encontraram-se num som físico, dançável e agressivo, construído para ser sentido tanto no peito como nos ouvidos. Os baixos pulsavam, as guitarras cortavam o ar e a bateria empurrava tudo para a frente, enquanto a banda transformava cada música numa descarga de eletricidade.

    A proximidade entre músicos e público foi decisiva. Sem a distância dos grandes palcos, os Dead Sexy tocaram praticamente dentro da plateia, e a plateia respondeu na mesma moeda. Aos poucos, o Village Underground deixou de parecer uma sala de concertos e passou a funcionar como um pequeno caldeirão. Corpos a dançar, cabeças a acompanhar o ritmo, suor, luzes e uma energia cada vez mais difícil de conter. O concerto ganhou uma dimensão física que nenhuma gravação consegue reproduzir.

    É aí que esta noite encontra o seu verdadeiro significado. Não houve necessidade de grandes produções, multidões ou efeitos espetaculares. Houve três propostas diferentes, cada uma a empurrar os limites à sua maneira, e um público suficientemente receptivo para entrar no jogo. Tsunamiz trouxe a tensão e a experimentação, o Trash Circus acrescentou provocação e espetáculo, e os Dead Sexy fecharam a noite com uma descarga de puro rock'n'roll eletrificado.

    No fim da noite, pouco importava quantas pessoas tinham passado pela porta. O que interessava era o que tinha acontecido lá dentro. Durante algumas horas, o Village Underground foi uma pequena ilha de barulho, suor e liberdade, longe de qualquer preocupação com números ou expectativas. Tsunamiz, Trash Circus e Dead Sexy trouxeram três formas diferentes de provocar o público, e quem ficou até ao fim acabou por fazer parte da mesma história. Não foi uma noite para encher uma sala. Foi uma noite para a incendiar.

Texto: Antonio Colombini

Fotografias: Antonio Colombini

  • Share:

You Might Also Like

0 comments