No dia 19 de setembro de 2026, foi preciso descer fundo para encontrar o rock no seu estado mais selvagem. Na cave da Groovie Records, em Lisboa, a música tomou conta da sala do terceiro piso subterrâneo do icónico edifício da loja de discos, transformando aquele espaço num dos palcos mais elétricos e insólitos do rock subterrâneo da cidade. Quem desceu aquelas escadas sabia, mais ou menos, ao que vinha. O que encontrou, porém, foi muito mais do que estava à espera.
Os Pink Pussycats From Hell entraram em cena sem tempo para cerimónias. A atuação foi visceral, rápida e sem tréguas, construída a partir de um alinhamento conciso em que havia uma regra tão simples quanto absurda: todas as canções tinham obrigatoriamente de começar pela palavra Hell no título.
Mas o ataque não vinha apenas dos amplificadores. Nos Pink Pussycats From Hell, o espetáculo também se veste e, naquela tarde, vestiu-se para o caos. O baterista Danger Rabbit surgiu completamente equipado com um fato de coelho, como se tivesse saído diretamente de um universo paralelo onde o rock'n'roll e o absurdo decidiram formar uma banda. Atrás da bateria, manteve um ritmo frenético e incansável do princípio ao fim.
À frente, o guitarrista e vocalista Mighty Hunter tratou de acrescentar mais uma camada de teatralidade à coisa. Ao microfone, surgiu com uma máscara de wrestler ao melhor estilo da lucha libre, transformando cada entrada vocal numa espécie de confronto de arena e injetando no concerto uma dose extra de atitude.
O resultado foi uma descarga de energia crua, um som avassalador e uma estética perfeitamente sintonizada com a natureza caótica e festiva da banda. Não havia muito espaço para respirar e aparentemente ninguém na sala estava interessado em fazê-lo.
Quando parecia que o concerto tinha chegado ao fim, os Pink Pussycats From Hell decidiram não sair simplesmente de palco. Em vez disso, convidaram o público a subir e juntar-se à festa, incluindo uma participação direta na bateria. O encerramento deixou assim de ser apenas o último momento do espetáculo para se transformar numa celebração coletiva, num daqueles instantes de pura comunhão rock'n'roll em que a fronteira entre banda e público simplesmente desaparece.
Lá em baixo, no terceiro subterrâneo da Groovie Records, entre paredes carregadas de ressonância, o eco dos amplificadores e o entusiasmo de quem tinha descido para assistir ao concerto, a loja voltou a provar por que razão continua a ocupar um lugar especial no mapa da música de culto em Lisboa.
Os Pink Pussycats From Hell vieram fazer do subterrâneo da Groovie Records um lugar à parte, onde o ruído, a teatralidade e a velocidade se encontraram numa descarga de rock'n'roll sem travões. Quando as últimas notas desapareceram, ficou a sensação de que aquilo tinha acabado demasiado cedo. Setembro nunca tinha soado tão Hell.
Texto e fotografias de Antonio Colombini


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