WU LYF no Vodafone Paredes de Coura: Uma tempestade que aprendeu a voltar
Às 00h30, o palco Coura Sem Paredes recebeu os WU LYF, e havia qualquer coisa de improvável naquele encontro. Uma banda que tinha desaparecido durante anos, que deixara para trás uma legião de seguidores e um disco de culto, estava novamente diante de um público português. Quinze anos depois da primeira passagem por Portugal, o regresso acontecia agora com uma história completamente diferente às costas: a separação, o silêncio, o reencontro e, desde 2025, uma nova vida para os WU LYF.
A primeira coisa que se impõe é o som, não é música que entre devagarinho, entra pelas paredes. As guitarras chegam carregadas de reverberação, a bateria empurra tudo para a frente e a voz de Ellery James Roberts aparece no meio daquele nevoeiro sonoro como se estivesse a tentar rasgá-lo. Há post-punk, rock alternativo, gospel e uma intensidade quase espiritual, mas nenhuma dessas referências explica por completo aquilo que acontece quando os quatro elementos começam a tocar juntos.
A voz de Roberts continua a ser uma das grandes armas dos WU LYF. É áspera, urgente e profundamente física. Há momentos em que parece estar a cantar e outros em que parece simplesmente não conseguir conter aquilo que está a sair de dentro dele. A voz não fica por cima da música como uma camada independente; mistura-se com as guitarras, desaparece no ruído e volta a surgir, como se estivesse a lutar pelo seu próprio espaço.
E as guitarras são fundamentais nessa luta, criam uma massa sonora densa, mas não uniforme. Há momentos de enorme intensidade e outros em que o som se abre, permitindo que a melodia respire. A banda consegue passar de uma sensação quase claustrofóbica para outra mais expansiva sem perder a identidade.
Mas este não é apenas o regresso de uma banda a tocar as canções que a tornaram conhecida. Depois de mais de uma década afastados, os WU LYF voltaram em 2025 e trouxeram consigo “A New Life Is Coming”, a primeira música inédita do grupo em treze anos, o regresso ganhou assim uma dimensão diferente, havia a memória, mas também havia algo novo para apresentar, o que tornou tudo mais interessante. Essa coexistência entre passado e presente estava no centro do concerto. Go Tell Fire to the Mountain continua a ser uma referência inevitável quando se fala dos WU LYF, mas a banda não pareceu interessada em transformar Coura num exercício de nostalgia. As novas canções fazem parte desta nova fase e mostram que o regresso não aconteceu apenas para repetir uma fórmula que funcionou há quinze anos.
Há, aliás, qualquer coisa de fascinante nesta segunda vida, os WU LYF regressaram depois de terem desaparecido num momento em que a sua própria mitologia já estava construída. Poderiam ter voltado apenas para revisitar essa história. Em vez disso, voltaram a escrever, a gravar e a descobrir o que aquela banda pode ser agora. Talvez seja por isso que a atuação tenha tido uma dimensão tão intensa. Existe passado em cada guitarra, mas não há vontade de ficar preso a ele. A música continua a ter aquela atmosfera sombria e quase religiosa, mas agora existe também o peso dos anos que passaram e tudo aquilo que aconteceu durante o silêncio.
Ellery James Roberts permanece no centro dessa transformação, a sua presença em palco é magnética, mas não depende de grandes discursos. É a própria voz que conduz o concerto, quando sobe de intensidade, parece puxar toda a banda consigo; quando recua, deixa aparecer as camadas que normalmente ficam escondidas no meio do ruído.
Àquela hora, o Coura Sem Paredes parecia feito para aquele som. A noite já tinha tomado conta do recinto e as luzes encontravam as guitarras, criando uma atmosfera quase cinematográfica. Não era necessário acrescentar nada. Os WU LYF já traziam consigo a escuridão suficiente.
Há algo particularmente simbólico em vê-los novamente em Portugal quinze anos depois, a banda que em tempos parecia destinada a desaparecer na sua própria lenda voltou a existir fora dela. Não é exatamente a mesma banda, porque nenhum regresso depois de tantos anos pode ser, mas também não é uma versão diluída daquilo que foram. É outra coisa, é uma banda mais velha, com mais silêncio atrás de si, mas ainda capaz de transformar guitarras, bateria e uma voz em algo que parece estar constantemente prestes a explodir.
Os WU LYF passaram quinze anos longe e em Paredes de Coura, não voltaram para recuperar o tempo perdido, voltaram reinventados.
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Edição: Sofia Reis
Fotografia: Jose Almeida
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