Vodafone Paredes de Coura 2026: Um terceiro dia entre memórias, guitarras e uma madrugada sem travões
A sexta-feira começou cedo no Taboão, com Noko Woi, às 16h15, a abrir o Coura Sem Paredes enquanto o recinto voltava lentamente a ganhar movimento. Pouco depois, às 16h55, Carolina Durante deram início à programação do palco Vodafone, trazendo consigo a energia urgente das guitarras e ajudando a tirar o festival da ressaca de mais uma madrugada. Entre quem chegava, quem ainda procurava um lugar para descansar e quem já estava preparado para mais uma noite, o terceiro dia começou a ganhar forma sem pressa.
Às 17h55, Strawberry Guy assumiram o Coura Sem Paredes, criando um ambiente mais leve e melódico, enquanto às 18h40 chegava um dos momentos mais especiais da tarde: Sérgio Godinho & Os Assessores com Amigos. A presença de Sérgio Godinho trouxe consigo várias décadas de música portuguesa para um festival que, durante estes dias, tinha sido dominado por diferentes gerações e geografias musicais. O concerto funcionou também como um encontro entre passado e presente, com Os Assessores e os amigos a ajudarem a transportar aquelas canções para o cenário de Coura. Num festival habituado a olhar para o que está a acontecer agora, houve espaço para parar e reconhecer aquilo que já faz parte da história da música portuguesa.
Enquanto a tarde começava a desaparecer, Ryan Davis & The Roadhouse Band ocuparam o Coura Sem Paredes, às 19h55, preparando o ambiente para uma noite que iria alternar entre diferentes formas de intensidade. No palco principal, às 20h40, Benjamin Clementine trouxe uma presença completamente diferente. A sua voz, a expressividade e a dimensão teatral da atuação fizeram com que o palco parecesse, por momentos, demasiado pequeno para a personalidade do artista. Depois de uma tarde marcada por guitarras e pela celebração da música portuguesa, o festival entrou num território mais dramático e emocional.
Às 21h55, Terraplana levaram o seu universo para o Coura Sem Paredes, enquanto o palco principal começava a preparar uma das atuações mais aguardadas da noite. Às 22h45, Bloc Party entraram em cena e fizeram Coura regressar às guitarras. A banda britânica trouxe consigo uma parte importante da memória do indie rock dos anos 2000, mas o concerto não viveu apenas da nostalgia. O público respondeu às canções com a intensidade de quem conhece aquelas músicas há anos, criando uma ligação entre diferentes gerações de festivaleiros.
À meia-noite, Vendredi Sur Mer deram início à transição para a madrugada no Coura Sem Paredes. A atmosfera tornou-se mais eletrónica e dançável, preparando o terreno para aquilo que seria o grande momento da noite. À 01h00, M.I.A. subiu ao palco Vodafone e alterou completamente a escala do festival. A artista trouxe para Coura uma mistura de hip-hop, eletrónica, pop e influências de diferentes partes do mundo, acompanhada por uma presença em palco que transformou o concerto numa experiência visual e física. Depois de uma noite em que a memória e a canção tiveram um papel importante, M.I.A. trouxe o festival para o presente, mas numa atmosfera diferente.
E a madrugada ainda tinha muito para dar. Às 02h00, Maruja ocuparam o Coura Sem Paredes, acrescentando uma dimensão mais intensa e experimental à noite. O público que permanecia no recinto começava a distribuir-se pelos espaços, já completamente entregue ao ritmo próprio das madrugadas de Coura. Às 03h25, Joy Orbison fecharam a programação, levando o festival para um território de música eletrónica que prolongou a noite até às primeiras horas da manhã.
Quando Joy Orbison terminou, já depois das três da manhã, o Taboão voltava a entrar naquele estado estranho entre a festa e o silêncio. O terceiro dia tinha atravessado décadas, estilos e estados de espírito sem nunca parecer parado no mesmo lugar. Da voz de Sérgio Godinho aos graves de Joy Orbison, passando pelo dramatismo de Benjamin Clementine, pelas guitarras dos Bloc Party e pelo caos mental de M.I.A., a sexta-feira foi uma viagem que nunca deixou o passado ficar demasiado longe do futuro.
Texto: Sofia Reis
Fotografias: Hugo Lima






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