Pale Jay no Vodafone Paredes de Coura: O groove não se parte
Às 22h15, o palco Coura Sem Paredes recebeu Pale Jay, e a noite ganhou outra temperatura. Entre soul, funk e R&B, o músico norte-americano trouxe para o Taboão uma música quente, elegante e cheia de groove. Mas havia uma coisa que o próprio Pale Jay quis explicar logo ao público: tinha partido um tornozelo e, por isso, não podia dançar como costuma fazer nos seus concertos. Ainda assim, estava ali para dar o seu melhor. E a promessa ficou cumprida.
A diferença era visível, Pale Jay esteve sempre de pé, mas os movimentos estavam necessariamente mais contidos. Dançou muito menos do que seria habitual, sem nunca deixar que isso o transformasse numa presença imóvel. Continuou a mexer-se, a sentir o ritmo e a ocupar o palco dentro dos limites que o corpo daquela noite lhe permitia. O tornozelo estava partido, mas o concerto não.
E foi a música que tratou de preencher aquilo que faltava em movimento. A voz de Pale Jay, quente e envolvente, encontrou uma banda capaz de construir à sua volta um groove sólido, elegante e cheio de espaço. O baixo marcava o caminho, a bateria segurava o balanço e os teclados acrescentavam camadas, criando aquele tipo de som que não precisa de pedir ao público para mexer o corpo, o corpo começa a mexer-se sozinho.
Houve algo particularmente interessante em vê-lo naquela condição, pois não tentou fingir que estava a fazer o concerto habitual, sabia que não podia dançar da mesma maneira e o público também sabia. Em vez de deixar que a lesão dominasse a narrativa, simplesmente continuou. De pé, com movimentos mais pequenos, suaves e concentrando a energia na voz e na interpretação, conseguiu manter uma presença forte durante toda a atuação.
Essa entrega sentia-se sobretudo nas canções. O soul aparecia na voz, o funk no ritmo e uma certa melancolia atravessava algumas das melodias, criando um concerto que tanto podia fazer o público balançar como simplesmente ficar a ouvir. Pale Jay tem essa capacidade de juntar calor e fragilidade na mesma música, sem precisar de exagerar nenhum dos dois.
A banda teve também um papel essencial. Em vez de tentar compensar a menor mobilidade do vocalista com excesso de energia, construiu um espaço onde ele podia continuar a comandar o concerto. O som era suficientemente rico para preencher o palco, mas nunca esmagava a voz.
E assim, aos poucos, aquilo que podia ter sido uma limitação tornou-se apenas mais um detalhe da noite. Pale Jay dançou pouco, mas não esteve parado. Esteve de pé, presente e entregue, fazendo o possível para que o tornozelo partido não se tornasse maior do que a música.
Foi um bom concerto precisamente porque não houve necessidade de transformar a lesão numa história de superação. Pale Jay encontrou uma forma diferente de estar em palco sem perder aquilo que o torna especial. Naquela noite, o corpo obrigou-o a reduzir a dança, mas não conseguiu reduzir o groove. E talvez seja essa a melhor imagem do concerto, Pale Jay de pé, a mexer-se dentro do possível, a cantar com toda a força e a deixar a música fazer o resto.
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Edição: Sofia Reis
Fotografia: José Almeida
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