Bloc Party no Vodafone Paredes de Coura : Vinte anos depois, Coura voltou a dançar
Vinte anos depois da primeira passagem pelo Vodafone Paredes de Coura, os Bloc Party regressaram ao mesmo palco. Havia, por isso, uma expectativa especial em torno deste reencontro: voltar a ver ao vivo uma banda que marcou uma geração, tantos anos depois, traz sempre o risco de a memória ser melhor do que a realidade. Em Coura, esse risco desapareceu rapidamente.
Enquanto esperava pelo concerto, fui falando com algumas pessoas do público. Eram, na sua maioria, bastante jovens e, para minha surpresa, praticamente ninguém conhecia os Bloc Party. Expliquei-lhes que estavam perante uma banda que tinha marcado uma geração e que valia a pena ficar para ver. A verdade é que não precisei de esperar muito para perceber que o concerto falaria por si.
Quando os primeiros acordes começaram, a reação foi imediata. A energia das guitarras, a presença de Kele Okereke e a força das canções começaram a conquistar um público que, poucos minutos antes, ainda não sabia muito bem quem tinha pela frente. E houve um momento particularmente curioso: durante o concerto, algumas das pessoas com quem tinha falado antes vieram ter comigo para dizer que eu tinha razão. Afinal, os Bloc Party eram mesmo muito bons. E talvez não haja melhor elogio para uma banda que regressa vinte anos depois.
O concerto arrancou com “Coming On Strong”, seguindo-se “Mercury” e “Love Bombs”, num alinhamento que desde cedo mostrou que esta não seria apenas uma viagem nostálgica ao passado. Havia espaço para diferentes fases da carreira e para perceber como a identidade dos Bloc Party foi mudando ao longo dos anos.
Mas, inevitavelmente, foi nas canções mais antigas que a ligação com o público se tornou mais forte. “Song for Clay (Disappear Here)”, “Banquet”, “Hunting for Witches”, “Positive Tension”, “Helicopter” e “This Modern Love” trouxeram consigo memórias de uma época em que os Bloc Party estavam no centro de uma nova vaga de indie rock. Algo bastante interessante foi perceber que essas canções continuam a funcionar. “Banquet” continua a provocar uma reação imediata, “Helicopter” continua a ser uma descarga de energia e “This Modern Love” mantém intacta a capacidade de transformar milhares de pessoas num só coro.
Pelo meio, houve também espaço para material mais recente. “Traps”, “Different Drugs”, “Lagoon Blue” e “The Love Within” mostraram que os Bloc Party não vivem apenas da nostalgia e que continuam a procurar novas formas de trabalhar a sua música.
Kele Okereke manteve uma presença segura e carismática, enquanto a banda foi construindo um concerto que alternou entre momentos mais melódicos e outros de pura intensidade. Na frente do palco, o público respondeu com saltos, mosh pits e crowd surfing. Mas talvez mais interessante tenha sido olhar para quem estava a descobrir a banda naquele momento e perceber como aquelas mesmas canções, que já têm duas décadas, continuavam a funcionar com uma geração que ainda não as tinha ouvido ao vivo.
Foi tão bom rever os Bloc Party tantos anos depois e perceber que continuam a ter a mesma capacidade de nos fazer querer saltar, cantar e dançar. Não desiludiram, pelo contrário, provaram que há bandas que conseguem atravessar duas décadas sem perder aquilo que as tornou especiais.
No final, ficou também a sensação de que aquela noite serviu para apresentar os Bloc Party a uma nova geração. Alguns chegaram ao concerto sem saber muito bem quem eram e saíram de lá convertidos.
Vinte anos depois, os Bloc Party regressaram a Coura e não desiludiram. Foi um reencontro com uma banda que continua a saber fazer aquilo que sempre fez melhor: pegar em guitarras, ritmos nervosos e grandes canções e transformar tudo isso num concerto que nos faz lembrar porque é que gostávamos tanto deles e perceber porque é que, para quem os descobriu naquela noite, conheceu mais uma banda para a sua lista de bandas preferidas.
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Texto: Sofia Reis
Fotografia. José Almeida
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