M.I.A. no Vodafone Paredes de Coura : Entre a festa, a política e a religião
Depois da energia dos Bloc Party, o palco Vodafone preparava-se para receber M.I.A.e se havia alguma dúvida sobre o que o público procurava naquele momento, rapidamente desapareceu: queria dançar.
M.I.A. entrou em palco e transformou o recinto numa pista de dança, cruzando hip-hop, eletrónica, pop e ritmos de diferentes partes do mundo. Os graves tomaram conta do recinto e o público respondeu imediatamente, num concerto onde ficar parado parecia praticamente impossível.
Visualmente, o espetáculo era dominado pelo branco e pelo dourado, com grandes mantas térmicas douradas, semelhantes às utilizadas nas urgências, a fazerem parte da imagem de palco. O resultado era invulgar e, em determinados momentos, quase surreal. O dourado refletia a luz e criava uma espécie de aura em torno da artista.
Havia também uma dimensão política e religiosa muito presente. M.I.A. nunca deixou de trazer para a sua música questões relacionadas com guerra, migração, identidade, poder e desigualdade, e em Coura essas ideias estavam integradas no próprio espetáculo. Por vezes, a forma como se dirigia ao público e conduzia as respostas fazia o concerto parecer quase uma cerimónia.
Mas, no meio de tudo isso, foram as canções mais antigas que provocaram as maiores reações. Temas como “Bamboo Banga”, “Bird Song”, “Bad Girls” e, sobretudo, “Paper Planes” fizeram o público reconhecer imediatamente aquilo que estava a ouvir e responder com uma energia diferente.
“Paper Planes” foi um dos grandes momentos da noite. Bastaram os primeiros sons para o Taboão reconhecer a canção e transformar o concerto num enorme coro. Eram músicas que muitos tinham guardado na memória durante anos e que, ali, voltavam a fazer sentido num palco de festival.
Foi precisamente essa combinação que tornou a atuação interessante, M.I.A. trouxe uma forte componente política e visual, mas Coura queria sobretudo dançar. E quando chegaram as canções que fazem parte da memória coletiva do seu público, a resposta foi imediata.
Entre o branco, o dourado, a política, a religião e, sobretudo, muita vontade de dançar, M.I.A. encontrou em Coura um público disposto a entregar-se ao caos. E quando recuperou as canções antigas, percebeu-se que ainda havia muita gente por ali que sabia exatamente porque tinha esperado tanto por aquele momento, para dançar as musicas mais antigas.
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