Noite Waahsabi nas Damas com Ideal Victim e os americanos The Macks
Lisboa
tem vindo a mudar, as salas de concertos são cada vez menos, mas há sítios que
não mudam. As Damas são um desses espaços: apertado, quente, imperfeito, e por
isso mesmo essencial. Numa noite promovida pela Waashsabi, que juntou os
portugueses Ideal Victim aos norte-americanos The Macks,
provaram que estilos de diferentes não impendem boas noites, esta foi uma
dessas noites. Duas bandas com estilos diferentes, que arrebataram a noite,
como um foguetão.
Os Ideal Victim
foram os primeiros a tomar conta da sala ou melhor, a desorganizá-la. Não houve
construção lenta, nem uma tentativa de sedução, apenas uma urgência quase
física, como se cada tema existisse apenas porque precisa de existir naquele
exato momento. O som, tenso e anguloso, parece puxar em várias direções, punk,
hardcore, ecos distorcidos de rockabilly, mas o resultado final é mais
emocional do que estilístico e quem disse que uma banda precisa de um rotulo
musical? Eles são descarga pura. A vocalista assume o centro sem recorrer a códigos
fáceis de carisma, o que impõe não é imagem, é intensidade e uma presença que
ao mesmo tempo que é arrebatadora é ao mesmo tempo muito feminina. Cada música
termina antes de se acomodar, criando uma sensação de instabilidade contínua,
como se o chão nunca assentasse completamente. O público, comprimido, a
escorregar no chão (se queres ir ver concertos assim ás Damas convém saberes
patinagem) entra completamente em sintonia com a banda.
Depois, os The Macks entram e fazem o que poderia parecer impossível: não
quebram a tensão, transformam-na. Onde antes havia fragmentação e choque, surge
agora repetição e fluxo. Vindos de Portland, trazem um rock que se constrói na
insistência: riffs que se estendem até ganharem peso quase hipnótico, ritmos
que se fecham sobre si próprios, criando um movimento circular, absorvente. Há
um lado mais psicadélico, mas sem fuga; há groove, mas sem conforto. Tocam como
quem testa limites, até onde pode um riff ser esticado antes de colapsar? E, no
entanto, nunca colapsa. Mantém-se ali, à beira, sustentado por uma banda que
parece plenamente consciente do equilíbrio precário que habita.
Os Ideal Victim são um corte abrupto e The Macks são como que uma
espiral. A diferença não fragmenta a noite, dá-lhe forma. De um lado, a
compressão urgente, quase política na sua frontalidade; do outro, uma expansão
suja, mais abstrata, mas igualmente física. Duas linguagens distintas, unidas
por uma recusa comum: a de tornar a música confortável.
No fim, não há catarse, nem sensação de resolução, e ainda bem. O que
fica é mais próximo de um estado, é um zumbido persistente, físico, difícil de
traduzir em palavras simples. Numa cidade cada vez mais programada, noites
assim lembram que o rock não precisa de escala para ser relevante. Precisa
apenas de fricção, proximidade e um certo grau de risco.
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