Os Baleia Baleia
Baleia chegaram ao Sótão da Casa Capitão como quem entra num
espaço já em movimento, continuando uma linguagem que há muito vem a ser
afinada: a de fazer muito com o mínimo, até que o mínimo deixe de parecer
pouco.
Num
formato reduzido ao essencial, baixo, bateria e voz, o duo mantém-se fiel a uma
gramática própria onde o rock alternativo dos anos 90 não é memória, mas
matéria bruta para reconfiguração. Em palco, essa matéria nunca se fixa. É
instável, respira em tensão e vai-se dobrando entre energia física, ironia e um
certo prazer no desvio.
O
concerto abre antes mesmo da presença dos músicos. A sala cheia é ocupada por
uma faixa que se impõe como um corpo invisível, quase uma música de intervenção
sem rosto, um manifesto sem emissor claro. Prolonga-se no tempo de forma
ambígua, como se recusasse terminar ou começar. O público permanece nesse
intervalo suspenso, entre a estranheza e a expectativa, sem saber bem onde
colocar o corpo.
Quando
o duo finalmente entra em palco, não há corte, apenas continuação. A energia
que parecia dispersa encontra direção, como se aquela introdução tivesse sido
uma preparação silenciosa do terreno. Aos poucos, ao longo das músicas
seguintes, o sentido desse início revela-se. O que parecia enigmático ou
excessivo encaixa, reorganiza-se e ganha lógica interna.
Este
concerto surge no contexto de OUTRA VEZ ARROZ, o próximo disco
da banda, onde a ideia de repetição não é desgaste, mas método. A noção de “receita
sólida” que pode ser refeita sem perder sabor atravessa também o palco. O que
se vê não é variação em torno de uma fórmula, mas insistência até que a fórmula
se transforme.
Em
palco, essa insistência traduz-se numa oscilação constante entre controlo e
ruído. O punk surge fragmentado, o grunge aparece distorcido e a sátira
infiltra-se em tudo, não como comentário exterior, mas como parte do próprio
mecanismo. Mesmo nos momentos mais diretos, há sempre a sensação de que algo
está a ser desmontado enquanto acontece.
O
espaço do Sótão amplifica tudo isto. A proximidade extrema elimina distância e
transforma o concerto num objeto quase táctil. Não há respiro entre palco e
público, apenas uma mesma massa de presença comprimida, onde o som parece
circular sem mediação. O caráter DIY do projeto não é estética, mas condição,
uma forma de estar que recusa acabamento excessivo.
E no
centro de tudo permanece aquele início. A faixa sem rosto, o manifesto sem
corpo, que durante algum tempo pareceu um desvio e que, no final, se revela
como chave de leitura. Como se o concerto tivesse começado antes de alguém o
reconhecer como tal.


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