A apresentação de Monday in Hiroshima pelos 800 Gondomar na Casa Capitão ficou marcada por um desalinhamento inicial que acabou por contrastar com a força do concerto em si.
Numa
noite em que dois concertos decorreram praticamente em simultâneo, o público
viu-se dividido como se o espaço se tivesse fragmentado em duas narrativas
paralelas que não podiam ser vividas ao mesmo tempo. Foi uma escolha
impossível. Ninguém consegue estar em dois lugares ao mesmo tempo. A própria listen in
do álbum no bar acrescentou outra camada a esse desencontro, mas não encontrou
o ambiente certo para um disco que depende tanto do detalhe, do silêncio e da
tensão suspensa. Ainda assim, importa sublinhar que estes momentos menos
conseguidos não refletem o trabalho das bandas, mas sim uma articulação de
horários pouco feliz, quase como um erro de montagem fora do controlo dos
protagonistas.
Esse
contexto torna-se ainda mais relevante quando se pensa na natureza de Monday in
Hiroshima. Não é um álbum novo no sentido tradicional, mas um
registo ao vivo que foge deliberadamente à lógica habitual do formato. Gravado
num contexto específico, longe de casa, perante uma audiência reduzida, o disco
recusa o espetáculo fácil e aproxima-se de algo mais cru, mais exposto, quase
sem rede. Não há catarse construída nem picos desenhados para a memória. Há
antes uma atenção ao detalhe, ao espaço vazio e à tensão que se instala entre
som e silêncio, como planos longos onde nada parece acontecer e ainda assim
tudo está a acontecer.
Há uma
sensação constante de deslocamento, não apenas geográfico, mas emocional, quase
como se a banda estivesse sempre ligeiramente fora de foco, num plano paralelo
ao do próprio mundo onde toca. Em vez de corrigir essa fricção, os 800 Gondomar
habitam-na. O silêncio ganha densidade física, a ausência de reação
transforma-se em personagem e cada momento parece suspenso num risco
permanente. Mais do que um registo de concerto, o disco fixa uma condição, a de
tocar sem garantias, aceitando a incerteza como linguagem central da narrativa.
Transportar
esse material para palco implica inevitavelmente uma mudança de linguagem. O
que no disco existe como contenção e estranheza, ao vivo transforma-se noutra
coisa, mais direta, mais corporal, mais partilhada, como se a câmara tivesse
passado de um plano distante para uma proximidade quase tátil.
E foi
precisamente aí que o concerto encontrou a sua força.
Com a
sala cheia, os 800 Gondomar não tentaram reproduzir o disco tal como ele existe
e ainda bem. Em vez disso, reafirmaram aquilo que sempre os definiu, uma
entrega física e emocional total, onde cada momento parece instável e aberto,
como cenas filmadas em tempo real sem margem para repetição. As músicas surgem
como entidades vivas, em constante mutação, mais próximas de um gesto do que de
uma peça fixa.
Se o
álbum documenta uma tensão quase desconfortável entre banda e espaço, o
concerto na Casa Capitão mostrou o outro lado dessa equação, a capacidade de
criar ligação, de transformar distância em proximidade. Não como negação do
disco, mas como continuação da mesma lógica, a de que cada atuação é
irrepetível e moldada pelas circunstâncias, como diferentes versões da mesma
história contadas sob luzes diferentes.
Houve
também uma sensação clara de crescimento. Como se a banda incorporasse agora
uma nova camada, menos visível mas presente, que acrescenta profundidade ao que
já fazia. Um novo membro, parecia feito de experiência, risco e consciência,
como um personagem silencioso que passa a fazer parte da narrativa sem nunca lá
ter estado antes.
Ao resumirmos a noite ficou a ideia de que
o que falhou nesta tarde e noite esteve fora do palco. Porque quando chegou o
momento certo, a música não só compensou como reafirmou tudo aquilo que faz dos
800 Gondomar um projeto tão particular, como um plano final que mesmo depois do
corte continua a reverberar.


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