O eco de Hiroshima na Casa Capitão

By VoxPop - março 19, 2026

 


    A apresentação de Monday in Hiroshima pelos 800 Gondomar na Casa Capitão ficou marcada por um desalinhamento inicial que acabou por contrastar com a força do concerto em si.

    Numa noite em que dois concertos decorreram praticamente em simultâneo, o público viu-se dividido como se o espaço se tivesse fragmentado em duas narrativas paralelas que não podiam ser vividas ao mesmo tempo. Foi uma escolha impossível. Ninguém consegue estar em dois lugares ao mesmo tempo. A própria listen in do álbum no bar acrescentou outra camada a esse desencontro, mas não encontrou o ambiente certo para um disco que depende tanto do detalhe, do silêncio e da tensão suspensa. Ainda assim, importa sublinhar que estes momentos menos conseguidos não refletem o trabalho das bandas, mas sim uma articulação de horários pouco feliz, quase como um erro de montagem fora do controlo dos protagonistas.

    Esse contexto torna-se ainda mais relevante quando se pensa na natureza de Monday in Hiroshima. Não é um álbum novo no sentido tradicional, mas um registo ao vivo que foge deliberadamente à lógica habitual do formato. Gravado num contexto específico, longe de casa, perante uma audiência reduzida, o disco recusa o espetáculo fácil e aproxima-se de algo mais cru, mais exposto, quase sem rede. Não há catarse construída nem picos desenhados para a memória. Há antes uma atenção ao detalhe, ao espaço vazio e à tensão que se instala entre som e silêncio, como planos longos onde nada parece acontecer e ainda assim tudo está a acontecer.

    Há uma sensação constante de deslocamento, não apenas geográfico, mas emocional, quase como se a banda estivesse sempre ligeiramente fora de foco, num plano paralelo ao do próprio mundo onde toca. Em vez de corrigir essa fricção, os 800 Gondomar habitam-na. O silêncio ganha densidade física, a ausência de reação transforma-se em personagem e cada momento parece suspenso num risco permanente. Mais do que um registo de concerto, o disco fixa uma condição, a de tocar sem garantias, aceitando a incerteza como linguagem central da narrativa.

    Transportar esse material para palco implica inevitavelmente uma mudança de linguagem. O que no disco existe como contenção e estranheza, ao vivo transforma-se noutra coisa, mais direta, mais corporal, mais partilhada, como se a câmara tivesse passado de um plano distante para uma proximidade quase tátil.

    E foi precisamente aí que o concerto encontrou a sua força.

    Com a sala cheia, os 800 Gondomar não tentaram reproduzir o disco tal como ele existe e ainda bem. Em vez disso, reafirmaram aquilo que sempre os definiu, uma entrega física e emocional total, onde cada momento parece instável e aberto, como cenas filmadas em tempo real sem margem para repetição. As músicas surgem como entidades vivas, em constante mutação, mais próximas de um gesto do que de uma peça fixa.

    Se o álbum documenta uma tensão quase desconfortável entre banda e espaço, o concerto na Casa Capitão mostrou o outro lado dessa equação, a capacidade de criar ligação, de transformar distância em proximidade. Não como negação do disco, mas como continuação da mesma lógica, a de que cada atuação é irrepetível e moldada pelas circunstâncias, como diferentes versões da mesma história contadas sob luzes diferentes.

    Houve também uma sensação clara de crescimento. Como se a banda incorporasse agora uma nova camada, menos visível mas presente, que acrescenta profundidade ao que já fazia. Um novo membro, parecia feito de experiência, risco e consciência, como um personagem silencioso que passa a fazer parte da narrativa sem nunca lá ter estado antes.

    Ao resumirmos a noite ficou a ideia de que o que falhou nesta tarde e noite esteve fora do palco. Porque quando chegou o momento certo, a música não só compensou como reafirmou tudo aquilo que faz dos 800 Gondomar um projeto tão particular, como um plano final que mesmo depois do corte continua a reverberar.

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