"Low Expectations" entre a raíva e a vulnerabilidade o EP de estreia de Mild Discomfort
Há estreias que se ouvem como promessas e outras que se sentem como declarações. “Low Expectations” o primeiro álbum das Mild Discomfort, pertence claramente à segunda categoria. O quarteto lisboeta apresenta um disco de estreia com apenas três temas, mas cada um deles transporta uma intensidade que dispensa qualquer ideia de brevidade. É um trabalho coeso, cru e emocionalmente directo, uma estreia há muito esperada depois do concerto delas que vimos no Musicbox.
Gravado entre a Waahs Records e Filipe Marino, “Low Expectations” capta o espírito da banda em estado puro: sem artifícios, sem retoques desnecessários, mas sim com a energia viva de quem grava de corpo inteiro e sobretudo com a alma completa. O trabalho de mistura e masterização ficou a cargo de Dan Luscombe, músico e produtor australiano conhecido pela sua abordagem intensa e cinematográfica do som. A identidade visual do álbum, assinada por Cash & Carry Studio, que complementa a estética: uma imagem limpa, minimalista, mas carregada de tensão, o reflexo gráfico da música que encerra.
As Mild Discomfort formaram-se em Lisboa no final de 2023 e são um quarteto feminino que cruza o pós-punk e o grunge, com ecos do indie-rock mais sombrio. As canções respiram tanto raiva como contenção, vulnerabilidade e ironia. As guitarras soam afiadas e densas, o baixo guia cada tema com firmeza, a bateria pulsa com urgência e a voz, ora doce ora cortante, dá o rosto a um conjunto de emoções contraditórias, entre o tédio e a explosão.
Em “Low Expectations”, começamos com “Mouth Breather”, que é uma descarga directa e sarcástica, um retrato da apatia contemporânea feito de riffs e sarcasmo. “Get It” segue com uma energia crua e impaciente, quase punk, que transforma a frustração em movimento. Por fim, “Dust to Dust” encerra o disco num tom mais introspectivo e melódico, com uma reflexão sobre o desgaste e a efemeridade, sem nunca perder o peso emocional que atravessa todo o registo.
Apesar de conter apenas três temas, “Low Expectations”. soa a álbum completo. A coerência estética é evidente, a produção é honesta e o som é fiel à identidade da banda: directo, sem verniz, carregado de verdade. O título, Low Expectations, pode soar a ironia ou provocação, mas o que aqui se ouve é o contrário da resignação: é uma afirmação de força.
Com este disco, as Mild Discomfort mostram que o rock português ainda tem muito para dizer e que a inquietação pode ser, afinal, o motor mais autêntico da criação. “Low Expectations” é a prova de que a sinceridade e o desconforto podem coexistir, e que, às vezes, são precisamente as expectativas mais baixas que dão origem às revelações mais altas.
📷 Gentilmente cedidas pela Banda


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