Thundercat no Vodafone Paredes de Coura: Quando o baixo ganha vida própria

By VoxPop - agosto 21, 2026

     


    Depois da explosão dos MEUTE, o palco Vodafone mudou completamente de ambiente. Entrou em cena Thundercat, acompanhado por Justin Brown na bateria e Dennis Hamm nos teclados, para um concerto onde o baixo deixou de ocupar o lugar habitual de um baixo e passou a estar no centro de praticamente tudo o que acontecia em palco.

    Isso torna impossível falar de Thundercat sem começar precisamente pelo baixo. O instrumento, de seis cordas, dourado e cheio de brilhantes, era impossível de ignorar debaixo das luzes do palco. É lindo e Thundercat segurava-o como se fosse uma extensão do próprio corpo e, quando começava a tocar, rapidamente se percebia que aquele instrumento não estava ali apenas para compor a imagem. As seis cordas tornavam-se protagonistas, desenhando linhas rápidas, melódicas e cheias de mudanças, enquanto o dourado refletia as luzes a cada movimento. É bonito, estranho e completamente adequado ao universo de Thundercat.

    O concerto começou com “Children of the Baked Potato”, seguindo-se “Candlelight” e “No More Lies”, antes de chegarem “Black Qualls” e “How Sway / Uh Uh”. A setlist continuou por “Overseas”, “I Wish I Didn't Waste Your Time”, “Pozole”, “A.D.D. Through the Roof”, “Walking on the Moon” e “Anakin Learns His Fate”.

    Desde os primeiros minutos viu-se que não seria um concerto para acompanhar apenas pela melodia. Havia demasiadas coisas a acontecer ao mesmo tempo, o baixo avançava por caminhos inesperados, a bateria respondia, os teclados acrescentavam novas camadas e a voz de Thundercat aparecia no meio de tudo, mais suave e melódica, como um abraço. Ao lado dele, Justin Brown era uma presença fundamental, a bateria não se limitava a marcar o tempo: acompanhava as mudanças do baixo, abria espaço e, em determinados momentos, parecia provocar uma nova direção para a música. Dennis Hamm, nos teclados, completava o trio e ajudava a criar aquela sonoridade que parece nunca estar completamente parada.

    Havia momentos em que os três músicos pareciam perfeitamente sincronizados e outros em que a música adquiria uma liberdade diferente, quase como se estivéssemos a assistir a uma conversa entre instrumentos. Uma linha de baixo surgia, a bateria respondia, os teclados entravam e, quando dávamos por isso, a música já tinha seguido para outro lugar, pessoalmente adoramos quando sentimos isto.

As mãos percorriam o baixo com uma velocidade impressionante, mas aquilo que mais chamava a atenção não era apenas a técnica. Era a forma como conseguia fazer um instrumento tão associado ao ritmo assumir tantas outras funções. O baixo podia marcar a base, mas também podia cantar, criar uma melodia ou tornar-se praticamente o protagonista de uma passagem inteira. Quem não sabe o quanto é difícil tocar ritmo e cantar ao mesmo tempo, que é melodia, pode não ter reparado nestes pormenores, para nós é surpreendente.

    A música foi passando pelo funk, jazz, soul, R&B e eletrónica, sem que nenhum destes universos parecesse dominar completamente os outros e é precisamente essa mistura que dava ao concerto uma identidade tão particular.

    Visualmente, também havia espaço para a personalidade do músico. O baixo brilhante, a imagem descontraída de Thundercat e o capacete em forma de bola de espelhos usado por Justin Brown criavam um ambiente quase psicadélico. Nada parecia demasiado sério, mesmo quando aquilo que acontecia musicalmente exigia uma enorme concentração. Foi perfeito a nível visual e de música.

    Era igualmente impossível não reparar na reação do público. Depois da energia imediata dos MEUTE, a resposta a Thundercat acontecia de outra forma. Havia quem dançasse, quem cantasse e quem simplesmente ficasse a olhar para o palco, tentando acompanhar aquilo que estava a acontecer e havia ainda os casais abraçados.

    A certa altura, a música parecia afastar-se completamente da estrutura inicial e os três músicos deixavam-na crescer através dos instrumentos. O baixo acelerava, a bateria acompanhava e os teclados preenchiam os espaços. Por momentos, era fácil esquecer que estávamos num festival e imaginar que aqueles três músicos tinham simplesmente encontrado um palco suficientemente grande para brincar com as suas próprias canções.

    Até chegarem “Funny Thing” e “Them Changes” e a energia mudou. “Funny Thing” trouxe uma resposta imediata do público, com aquela melodia que rapidamente se instala na cabeça, mas foi “Them Changes” que criou um dos momentos mais fortes da noite. A canção aproximou ainda mais o palco da plateia e milhares de pessoas reconheceram imediatamente aquelas notas.

    Thundercat já não estava apenas a tocar para Coura, Coura estava a cantar com ele, o que foi particularmente bonito. Conseguiu assim encontrar um lugar muito próprio no último dia do festival. Depois da festa dos MEUTE e antes da intensidade dos Prostitute e dos Amyl and the Sniffers, trouxe uma energia diferente e muito bonita.

    Três músicos foram suficientes para encher aquele palco de som, ainda temos uma imagem muito marcada, Thundercat no centro, o baixo dourado a refletir as luzes, os dedos a percorrer as seis cordas e, atrás dele, bateria e teclados a acompanhar cada mudança de direção.

    Durante aquele concerto, o baixo deixou de ser apenas o instrumento que segura a música. Tornou-se voz, ritmo, melodia e personagem principal. E naquele palco de Coura, entre brilhantes, funk, jazz, soul e eletrónica, Thundercat mostrou como é possível transformar um instrumento numa linguagem completamente própria.

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