Amyl and the Sniffers no Vodafone Paredes de Coura: O último murro antes do adeus ao Couraíso

By VoxPop - agosto 21, 2026

    

    Havia uma espécie de ironia em colocar os Amyl and the Sniffers tão perto do fim do Vodafone Paredes de Coura. Depois de quatro dias a acumular concertos, noites mal dormidas e quilómetros percorridos entre palcos, o corpo pedia descanso. Amy Taylor parecia ter vindo precisamente para impedir que isso acontecesse.

    Os australianos chegaram ao palco Vodafone sem qualquer intenção de facilitar a vida a ninguém. Desde “Control”, o concerto foi uma sucessão de golpes rápidos, guitarras afiadas, bateria acelerada e uma frente de palco que rapidamente deixou de conhecer o conceito de espaço pessoal. Não havia tempo para contemplação, havia música para tocar e havia um público para gastar.

    Amy Taylor é, naturalmente, impossível de ignorar, corre, salta, grita, dança e movimenta-se pelo palco com uma energia que parece não obedecer às mesmas regras que o resto dos mortais. Não é apenas a vocalista de uma banda punk; é praticamente o seu próprio acontecimento, cada gesto parece acontecer um segundo antes de ser possível antecipá-lo.

Ao lado dela, Gus Romer no baixo, Declan Martens na guitarra e Jonatan Boulet na bateria mantêm a máquina em funcionamento. E há um elemento que merece particular destaque: os solos de guitarra de Martens ao vivo, ganham uma força que nem sempre é possível perceber nas gravações. São agressivos, imprevisíveis e cheios de personalidade, acrescentando às músicas uma dimensão própria. Não são apenas momentos para mostrar técnica; fazem parte da identidade do concerto e tornam cada tema mais especial, mais físico e, sobretudo, mais original quando ouvido ao vivo.

    O alinhamento percorreu sobretudo o mais recente Cartoon Darkness, mas sem esquecer os temas que ajudaram a construir a identidade da banda. “Do It Do It”, “Cup of Destiny”, “Capital”, “Security”, “Doing in Me Head” e “Balaclava Lover Boogie” mantiveram o concerto em permanente aceleração.

Depois vieram alguns dos temas que já fazem parte do ADN dos Amyl and the Sniffers. “Guided by Angels”, “Me and The Girls”, “Tiny Bikini”, “Jerkin’”, “Hertz” e “Some Mutts (Can’t Be Muzzled)” foram recebidos por um público que já sabia exatamente ao que vinha, não era preciso explicar nada, bastavam os primeiros acordes para o movimento começar.

E o movimento foi uma constante, á frente do palco, formavam-se mosh pits, havia saltos, empurrões e crowd surfing. Atrás, quem já não tinha pernas para acompanhar continuava a cantar e a assistir à tempestade. Era o último dia, mas ninguém parecia interessado em comportar-se como se fosse.

    Há também uma dimensão particularmente divertida nos Amyl and the Sniffers, o punk da banda não se leva demasiado a sério. Existe irreverência, humor e uma certa dose de absurdo, mas tudo isso convive com uma enorme precisão musical. As músicas são diretas, rápidas e aparentemente simples, mas funcionam porque cada elemento está exatamente onde tem de estar.

    Amy é, inevitavelmente, o centro de tudo, há qualquer coisa na forma como ocupa o palco que faz com que as músicas ganhem uma tensão diferente, sobretudo quando decide esticar uma pausa ou carregar numa frase até ao limite. Os refrões deixam de ser apenas momentos de reconhecimento e passam a ser momentos de participação, daqueles que acabam gritados por centenas ou milhares de pessoas. A distância entre quem está em palco e quem está no público praticamente desaparece. Há uma espécie de confronto permanente, mas também de cumplicidade: Amy provoca, a plateia responde, ela devolve, e assim sucessivamente. É dessa troca, quase física, que nasce grande parte da energia do concerto.

    Guitarras, baixo, bateria., gritos, suor e solos de guitarra que ao vivo, dão às músicas uma vida que simplesmente não existe da mesma forma numa gravação.

    Havia qualquer coisa de estranho naquela última atuação: em vez de se sentir o peso de um festival a chegar ao fim, o concerto dos Amyl and the Sniffers tinha a urgência de quem ainda estava a ganhar balanço. A banda tocava como se a noite estivesse longe de acabar e como se aquele palco fosse o ponto de partida para mais algumas horas de caos, suor e guitarras.

    Talvez por isso o fim tenha sido tão certeiro. Coura não recebeu uma despedida sentimental nem uma saída em bicos de pés. Recebeu Amyl e os Sniffers em modo de ataque, a deixar o palco Vodafone depois de o terem tratado como se ainda fosse preciso provar alguma coisa. Se era para fechar a porta, mais valia bater com ela.

Fotografias: Hugo Lima

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