Prostitute no Vodafone Paredes de Coura: Quando a noite ficou mais crua
Quando os Prostitute chegaram ao Coura Sem Paredes, o Vodafone Paredes de Coura já estava completamente mergulhado na noite. Depois da dimensão mais festiva e acessível dos concertos que tinham passado pelo palco Vodafone, a banda trouxe consigo uma atmosfera mais pesada, desconfortável e difícil de ignorar.
O som dos Prostitute não parece interessado em facilitar a vida a quem está a ouvir, há uma base de noise, punk e post-hardcore, mas também uma vontade evidente de levar cada música para um lugar mais extremo. As guitarras são agressivas, a bateria parece estar constantemente a ameaçar perder o controlo e tudo acontece com uma intensidade que não deixa muito espaço para respirar.
No centro de tudo está Kazra, cuja presença em palco funciona quase como mais um instrumento. A voz não surge simplesmente para acompanhar a música, é usada como mais uma camada de tensão, entre gritos, palavras e momentos em que parece estar prestes a romper completamente com aquilo que a banda está a construir. Essa é talvez uma das características mais interessantes dos Prostitute ao vivo: há uma sensação constante de instabilidade. Mesmo quando a banda parece estar perfeitamente controlada, existe qualquer coisa que nos faz pensar que tudo pode desabar a qualquer momento.
O resultado é um concerto particularmente físico. As guitarras criam uma parede de som, a bateria empurra tudo para a frente e Kazra movimenta-se no meio daquele caos como se estivesse simultaneamente a provocá-lo e a tentar escapar dele. Não é uma atuação feita para ficar simplesmente a observar. A música exige uma reação e houve muita, o publico estava on fire.
No Coura Sem Paredes, essa intensidade encontrou um público já preparado para a madrugada. A energia do recinto tinha mudado e os Prostitute aproveitaram esse momento para criar um ambiente muito próprio, mais escuro e agressivo. Era música para quem ainda queria descobrir até onde a noite podia ir.
Há também uma diferença importante entre ouvir os Prostitute numa gravação e vê-los num palco. Em disco, conseguimos perceber melhor as diferentes camadas da música. Ao vivo, essas camadas parecem juntar-se numa massa única de som, onde a guitarra, a bateria e a voz se confundem e ganham uma dimensão mais bruta.
Os Prostitute não procuram tornar o noise bonito nem o punk confortável, eles pegam nesses elementos e deixam-nos existir na sua forma mais áspera, criando uma experiência que pode ser desconcertante, mas que dificilmente passa despercebida.
Quando a atuação avançava, já não havia grande preocupação em separar cada elemento, o importante era a sensação criada pelo conjunto: o peso das guitarras, a bateria, os gritos e aquela tensão permanente que atravessava o espaço e claro a energia que se misturava com a energia do público, como se fosse uma extensão deles mesmos
Os Prostitute não foram ao Coura para tornar a noite mais fácil, ou agradar, foram para a tornar mais intensa. Entre noise, punk, post-hardcore e uma presença em palco impossível de ignorar, deixaram no Coura Sem Paredes um dos momentos mais crus da noite e mais intensos, foi um daqueles concertos que não pedem necessariamente para ser compreendidos, mas que exigem ser sentidos. Estamos ansiosos por os voltar a ver.
Texto: Sofia Reis
Fotografias: Hugo Lima

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