Ruído Catártico na ZDB: A Carne e o Metal de Pharmakon e Andlos Otukt
Num final de tarde em Lisboa, a Galeria Zé dos Bois voltou a metamorfosear-se num verdadeiro templo de confrontação sonora e libertação avassaladora. O espaço preparava-se para acolher uma noite onde o industrial, o power electronics e o ruído puro assumiriam o controlo absoluto da narrativa, ditando as regras de uma experiência que se queria física, emocional e transformadora. Perante o público surgiram duas visões distintas, mas profundamente complementares, sobre a forma como o som pode ser utilizado como arma de catarse. Entre falhas técnicas convertidas em combustível criativo e uma entrega física levada ao limite, a Vox Pop Music Zine testemunhou uma noite de transcendência ruidosa.
A abrir as hostilidades, Andlos Otukt subiu ao palco trazendo consigo a promessa de uma viagem densa, abrasiva e envolvente. Desde cedo, alguns problemas técnicos insistentes procuraram interferir com a imersão da atuação, testando os nervos tanto do projeto como da própria mesa de som. A tensão instalou-se por momentos no espaço, tornando evidente o desafio que se colocava perante o artista. No entanto, longe de permitir que os contratempos definissem o rumo da performance, Andlos Otukt absorveu essa energia e canalizou a frustração diretamente para a sua expressão artística.
Cada obstáculo acabou por ser integrado na própria intensidade do momento. A resiliência artística falou mais alto, impondo-se sobre as limitações circunstanciais, e o público captou imediatamente essa vibração. O que poderia ter sido um fator de dispersão transformou-se numa demonstração de compromisso e atitude. A receção da plateia acabou por ser calorosa e profundamente solidária, convertendo aquilo que começou como um desafio técnico numa vitória conquistada através da perseverança e de uma genuína ética underground.
Se Andlos Otukt travou uma batalha com as máquinas, Margaret Chardiet, mente e corpo por trás de Pharmakon, surgiu para as dominar e para subjugar a audiência através delas. O que se seguiu ultrapassou largamente a definição convencional de concerto. Foi uma performance artística e física de proporções titânicas, uma demonstração de controlo, vulnerabilidade e intensidade raramente testemunhada com tal grau de entrega.
Pharmakon assinou uma atuação absolutamente memorável. Desde o primeiro segundo, Chardiet utilizou o palco da ZDB como uma extensão direta da sua própria anatomia, como se o espaço, os equipamentos e o seu corpo formassem um único organismo em permanente combustão. Saltava e batia os pés no chão com uma violência rítmica quase ritualística, fazendo com que as vibrações das tábuas do palco se propagassem pela estrutura da sala e ecoassem diretamente no peito de quem assistia.
Cada impacto dos seus pés parecia despoletar uma nova vaga de frequências industriais esmagadoras. O som não era apenas ouvido; era sentido fisicamente, percorrendo os corpos presentes como uma corrente elétrica. A força da atuação criava uma sensação de pressão constante, como se cada movimento desencadeasse uma nova descarga de energia sobre a audiência.
Com uma frequência quase hipnótica, Pharmakon abandonava a relativa segurança dos seus sintetizadores e cabos para descer até ao público. Rejeitando qualquer distância confortável entre intérprete e espectadores, Chardiet mergulhava diretamente na multidão. Misturando-se entre os presentes, cara a cara com quem a rodeava, entregava-se por completo ao momento e às pessoas à sua volta, transformando a barreira invisível entre artista e espectador numa comunhão intensa de gritos, suor e magnetismo puro.
A atuação adquiriu então uma dimensão quase ritual. O palco deixava de ser um território delimitado para se expandir por toda a sala, dissolvendo fronteiras e envolvendo cada pessoa presente na mesma corrente emocional. Foi uma performance crua, despida de pretensiosismo e de filtros, onde o corpo da artista se tornou o principal instrumento de transmissão de uma dor e de uma beleza profundamente eletrónicas. Cada gesto, cada vocalização e cada movimento pareciam transportar simultaneamente violência e vulnerabilidade, caos e controlo.
No final, quem saiu da ZDB fê-lo com os ouvidos a zumbir e com a certeza inequívoca de ter assistido a um daqueles momentos raros em que a música industrial se liberta do peso dos discos e da reprodução mecânica para ganhar presença física diante dos olhos do público. Durante algumas horas, o ruído deixou de ser apenas som e transformou-se em matéria viva, carne, metal, suor e pulsação, assumindo uma forma impossível de reproduzir fora daquele instante.
Texto e fotografia de Antonio Colombini




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