O Magnetismo Obscuro dos New Candys e o Ruído Vital das Lesma

By VoxPop - maio 04, 2026

 


    Há noites em que as escadas do Aquário da Rua da Barroca parecem abrir um portal, um desvio subtil da realidade onde o tempo abranda e a gravidade deixa de ser regra. Foi nesse limiar que a curadoria da Waahsabi nos colocou, conduzindo-nos até à Galeria Zé dos Bois para um encontro com o universo sonoro dos italianos New Candys, precedidos pela energia indomável das Lesma.

    As Lesma deram o primeiro golpe com uma presença que não pede licença. O ruído, nas suas mãos, não é excesso, é matéria viva, moldada com ironia e tensão. A sala, já preenchida por corpos expectantes e rostos cúmplices, respondeu de imediato. O trio lançou-se num punk noise ainda irregular nas margens, mas carregado de uma verdade crua, sem filtros.

    Houve desordem, mas nunca descontrolo. Houve riso, mesmo quando o som parecia prestes a colapsar sobre si próprio. É música que nasce no pó e no atrito, feita para quem aceita o impacto, um embate seco temperado por um sorriso enviesado. Quando terminaram, o público já estava dentro do turbilhão, pronto para o que viria a seguir.

    Com a entrada dos New Candys, o espaço transformou-se. Como se alguém tivesse alterado a frequência do ar, tudo ganhou outra densidade. Vindos de Veneza, trazem consigo uma precisão quase cirúrgica na construção do som, onde o peso do shoegaze se entrelaça com derivações neo-psicadélicas.

    O concerto desenrolou-se como uma travessia. As guitarras erguiam camadas sobre camadas, num equilíbrio delicado entre melodia e vertigem. A certa altura, já não se tratava apenas de ouvir a musica, mas fazer uma imersão total.

    Bastava fechar os olhos. E ali, na penumbra da ZDB, cada mente projetava o seu próprio filme, fundindo-se com o pulsar repetitivo e as vozes que ecoavam como sinais distantes. O coletivo dissolvia-se no mesmo fluxo, num estado próximo do transe. atravessado algo difícil de nomear. Entre a irreverência das Lesma e a elegância sombria dos New Candys, a ZDB voltou a afirmar-se como um dos núcleos mais intensos e inquietos da cidade, um lugar onde a noite ainda guarda segredos.

 Texto e fotografias de Antonio Colombini

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