Abrasão Industrial e Catarse Rítmica: O Chicote Sonoro de Evicshen e Gabriel Ferrandini nas Carpintarias de São Lázaro
By VoxPop - junho 04, 2026
Na noite de 2 de junho, o encontro entre a produtora e performer experimental Evicshen e o percussionista português Gabriel Ferrandini assumiu uma dimensão em que o espaço deixou de ser apenas cenário para passar a integrar a própria linguagem da performance. A imponência industrial e crua das Carpintarias de São Lázaro, em Lisboa, revelou-se o enquadramento ideal para uma atuação intensa, onde som, arquitetura e presença física se fundiram numa mesma massa vibratória.
Integrado no ciclo Ufonic (que dialoga com a exposição em curso "To Whom It May Concern” de João Bragança Gil), o evento encontrou na envolvência de betão aparente e linhas duras do espaço o eco perfeito para uma exploração sonora que desafiou os limites da música industrial e da pura performance física. O público, que enchia a sala numa expectativa latente, depressa se viu encurralado por uma muralha de som eletrónico agressivo e dinâmicas percussivas imprevisíveis.
Evicshen (nome artístico da norte-americana Victoria Shen) é reconhecida mundialmente pela sua abordagem iconoclasta à criação de instrumentos. Longe dos sintetizadores convencionais, a artista trouxe para o palco, e para fora dele, um arsenal de "brinquedos musicais" inusitados e geniais. O grande protagonista da noite acabou por ser um chicote modificado, transformado num gerador de impulsos analógicos e ruído de alta voltagem. Cada estalar do chicote no ar não era apenas um golpe visual, mas uma descarga sónica violenta, que fustigava a acústica crua das Carpintarias e parecia fazer estremecer as fundações do edifício. O espaço não foi apenas ocupado; foi literalmente açoitado pela agressividade elétrica dos seus comandos.
Ao seu lado, Gabriel Ferrandini provou mais uma vez por que é uma das mentes percussivas mais vitais e elásticas da atualidade. Em vez de se limitar a marcar um compasso, Ferrandini travou um autêntico diálogo de forças com as explosões de Shen. A sua eletrónica rítmica e intervenção percussiva, ora matemática, ora tribal e caótica, funcionou como a espinha dorsal de um organismo mutante, segurando a cadência industrial enquanto Evicshen disparava texturas abrasivas e agudos cortantes.
Munida dos seus dispositivos portáteis Evicshen infiltrou-se e rasgou o meio do público varias vezes.
A plateia, apanhada de surpresa, assistiu a escassos centímetros a uma entrega física absoluta. Rostos completamente estupefatos e hipnotizados tentavam processar a intensidade sónica que emanava daquela presença elétrica móvel. Ver a artista manipular agulhas, circuitos expostos e o seu próprio corpo no epicentro da multidão transformou o concerto numa experiência comunitária de pura tensão. Sentia-se o perigo, a imprevisibilidade e a genialidade intempestiva de uma artista que recusa as barreiras do comodismo performativo.
Quando o eco final e a poeira industrial finalmente se dissiparam pelas frestas de betão das Carpintarias de São Lázaro, o sentimento geral era de choque e absoluto deslumbre. Evicshen e Gabriel Ferrandini não assinaram apenas uma performance memorável; desferiram um autêntico golpe sónico que chicoteou por completo a arquitetura da sala e as mentes de quem lá esteve. Um verdadeiro triunfo da música de vanguarda que Lisboa demorará a esquecer.
Texto e fotografia de Antonio Colombini




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