A BOTA voltou a ser um desses lugares onde a música acontece muito perto de quem a escuta. Sem distância, sem formalidade, apenas presença. Numa noite dividida entre a delicadeza de uma estreia e a energia de um fecho em combustão, Roberto Montisano e os Nite Chimp desenharam dois movimentos distintos da mesma experiência: a descoberta e a libertação.
Roberto Montisano abriu a noite com o seu primeiro EP nas mãos e uma linguagem ainda a ganhar forma diante do público. As canções chegaram com calma, quase como se fossem pousadas no espaço em vez de lançadas sobre ele. Havia nelas uma contenção natural, uma leveza que se entranhava devagar, sem pressa de se querer afirmar de forma forçada.
A maior parte do concerto foi cantada em italiano, e essa escolha deu ao momento uma textura particular. A língua transformou-se em som antes de ser significado, moldando as melodias com uma musicalidade própria, fluida, quase aquática. Em vez de tradução imediata, oferecia sensação. Em vez de clareza direta, abria espaço.
Nesse universo lírico, o italiano trouxe uma beleza diferente daquilo a que o ouvido contemporâneo está habituado. Menos previsível, mais suspenso. Como se cada palavra estivesse mais interessada em soar do que em explicar. O resultado foi um conjunto de canções que respiravam leveza e sensibilidade, criando uma atmosfera íntima que preenchia a BOTA com uma espécie de luz baixa e quente.
No meio desse percurso, surgiu um momento de aproximação evidente: uma canção em português dedicada a Lisboa e a momentos bonitos cá vividos. A cidade entrou na música como memória e presença ao mesmo tempo, aproximando o artista da sala e devolvendo ao público um reflexo mais direto do lugar onde tudo acontecia. O gesto acrescentou um novo centro emocional à atuação, como um ponto de contacto entre mundos diferentes.
A apresentação do EP revelou-se assim um início em voz baixa, feito de detalhe, de atenção e de uma honestidade que se revela aos poucos. Um concerto de estreia que parecia mais interessado em criar atmosfera do que em procurar impacto imediato.
Depois, o ambiente mudou de pele, os Nite Chimp já tinham ficado na memória da sala antes mesmo de voltarem a subir ao palco. O seu som, ouvido como antecipação ou descoberta anterior, já tinha deixado marca, uma presença sonora que se instala antes de ser vista. Quando finalmente começaram, essa expectativa encontrou corpo.
A música dos Nite Chimp vive no movimento, na tensão, na forma como cada tema cresce até ocupar o espaço inteiro. O som ganhou volume, densidade e impulso. As guitarras e ritmos não se limitavam a acompanhar; empurravam, puxavam, construíam ondas que atravessavam a sala. Havia uma energia física, quase tátil, que fazia com que o público não estivesse apenas a ouvir, mas a ser levado por aquilo que acontecia em palco.
A banda revelou uma coesão natural, como se cada elemento soubesse exatamente quando avançar e quando recuar para deixar a música respirar antes de voltar a crescer. Essa dinâmica criou uma sensação constante de fluxo, sem interrupções, sem momentos vazios.
O público respondeu com o corpo e com o olhar, deixando-se entrar nesse ritmo coletivo que se formava tema após tema. O som dos Nite Chimp, já reconhecido como algo que conquista pelo impulso e pela intensidade, encontrou naquele espaço o contexto ideal para se expandir por completo.
Depois da delicadeza inicial de Roberto, a energia final dos Nite Chimp funcionou como libertação. Um encerramento que não apenas terminou a noite, mas a elevou.
Se já eramos fãs de Nite Chimp, banda da qual Roberto também faz parte, ficamos também faz dele como autor, como cantor. Uma noite que cheirou a verão, com amigos perto da praia.




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