Femme Falafel: o humor e a ironia como antídoto — “Dói-Dói Proibido” já saiu
Há artistas que se apresentam de rompante. E há outros que, em vez de anunciar a sua chegada, surgem como quem acende uma vela no meio da tempestade. Femme Falafel, alter ego de Raquel Pimpão, pertence a esta segunda categoria, uma trapaceira nobre de coração em brasa, criada na terra das águas termais e dos bibelôs sugestivos, que transforma dores pequenas e grandes num espetáculo de ironia bem afinada.
Apaixonada por acordes malandros, trocadilhos de mãe jovem e petit gâteau, escreve canções que servem de escudo contra os tropeços da vida. Nos seus temas, o humor não é ornamento, é uma arma precisa, de lâmina leve. O seu universo move-se entre o desajeitado e o elegante, sempre com uma flecha apontada ao elogio da tolice.
Agora, esse mundo ganha forma em “Dói-Dói Proibido”, o seu álbum de estreia. Uma coleção de dez faixas que, depois de muito tempo a ferver em lume brando, decidiram soltar-se para o mundo. Aqui, a dor não é silenciada, mas reinventada: é filtrada por fantasia e humor, com um véu transparente de ironia a servir de antídoto possível para o marasmo existencial.
As canções atravessam territórios inesperados — hip-hop, jazz, disco, house e MPB — como quem percorre ruas conhecidas mas pinta cada esquina com uma cor nova. A bússola estilística aponta para onde quer, livre de regras e amarras. No centro de tudo, está a escrita singular de Femme Falafel: metáforas improváveis para crises climáticas, problemas cardiovasculares, mitras intelectualizados, depressões amazónicas ou até a ansiedade de montar um prato num restaurante demasiado moderno.
É nesse olhar que vive o encanto do disco, um humor que não foge da dor, mas dança com ela. Entre arranjos ambiciosos e harmonias caprichosas, a artista constrói um retrato tragicómico e lúcido do seu universo sentimental.
“Dói-Dói Proibido” é, talvez, um lembrete de que nem sempre é preciso dramatizar para falar a sério. Por agora, o dói-dói permanece interdito, mas o resultado é uma viagem criativa, ingénua e certeira, feita para rir com os olhos e pensar com o coração.
O concerto de apresentação será dia 19 de novembro no B.Leza.
📷 Inês Condeço
✍🏻 Vox Pop Music Zine


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