Sol da Caparica Dia 3: uma noite para recordar quem abriu o caminho

By VoxPop - agosto 17, 2025

 

    Os festivais vivem frequentemente da promessa do próximo grande nome, da próxima tendência, da próxima geração. O terceiro dia do Sol da Caparica escolheu um caminho diferente: celebrou a memória.

    Rich & Mendes, Soraia Ramos e Lon3r Johny deram forma a uma programação que ligou diferentes momentos da música portuguesa contemporânea, mas foi impossível escapar à sensação de que toda a noite caminhava na mesma direção. O destino tinha nome próprio: Da Weasel. Já Mundo Segundo deram o concerto mais cheio que vimos no Palco Bandida do Pomar.

    Ao longo da tarde, o recinto foi recebendo um público diferente daquele que dominou os primeiros dias do festival. Havia jovens, claro, mas também muitos trintões e quarentões que carregavam consigo uma história feita de discos, concertos e memórias. Via-se isso nas conversas, nas t-shirts antigas recuperadas para a ocasião e na expectativa que crescia à medida que a noite avançava.

    Rich & Mendes abriram o palco com uma atuação descontraída, preparando terreno para uma jornada marcada por diferentes sonoridades. Soraia Ramos trouxe a elegância e a sensibilidade que têm marcado o seu percurso, conquistando o público através de melodias que cruzam influências africanas e pop contemporânea.

    Mais tarde, Lon3r Johny assumiu o palco e representou aquilo que a nova geração do rap português tem de mais interessante: irreverência, criatividade e uma linguagem própria. O público mais jovem respondeu com entusiasmo, mas mesmo durante o seu concerto já se sentia uma espécie de contagem decrescente coletiva.

    Porque naquela noite, para muitos dos presentes, existia um motivo principal para estar ali. Quando os Da Weasel entraram em palco, o festival transformou-se.

    Durante alguns minutos deixou de importar o ano em que estávamos. As canções transportaram milhares de pessoas para uma época em que o grupo dominava os maiores palcos do país e ajudava a redefinir aquilo que a música portuguesa podia ser. Para quem cresceu a ouvir Da Weasel, aquele concerto teve um significado que ultrapassou largamente a simples nostalgia.

    Foi uma alegria reencontrar músicas que serviram de banda sonora a uma geração inteira. Foi uma alegria voltar a ouvir ao vivo temas que marcaram adolescências, amizades, viagens de carro, festivais de verão e noites intermináveis. E foi sobretudo uma alegria perceber que, tantos anos depois, a energia permanece intacta.

    A força continua lá, a intensidade continua lá. A capacidade de transformar um concerto numa experiência coletiva continua exatamente onde sempre esteve.

    O público percebeu isso desde os primeiros temas. Em frente ao palco encontravam-se milhares de pessoas na mesma sintonia, a reviver os bons velhos tempos dos concertos dos Da Weasel. Havia uma cumplicidade rara no ar. As pessoas cantavam como quem reencontra velhos amigos. Cada refrão despertava memórias. Cada música parecia abrir uma pequena cápsula do tempo.

    Talvez muitos dos festivaleiros mais novos desconheçam a dimensão do fenómeno que os Da Weasel representaram para a música portuguesa. Muito antes de o rap e o hip-hop ocuparem o espaço central que têm hoje, a banda já misturava rock, rap, funk e sonoridades urbanas perante multidões. Encheram salas por todo o país, tornaram-se presença habitual nos maiores festivais portugueses e construíram alguns dos concertos mais memoráveis da viragem do milénio.

    A sua história cruza-se com alguns dos momentos mais importantes da música ao vivo em Portugal. Tocaram no palco principal do Festival Paredes de Coura num concerto de enorme intensidade, daqueles que permanecem na memória de quem esteve presente. Partilharam cartazes com grandes nomes internacionais e chegaram mesmo a abrir um espetáculo dos lendários Red Hot Chili Peppers numa altura em que o grupo português consolidava o seu estatuto como uma das bandas mais relevantes do país, no final dos anos 90 e início dos anos 2000.

    Permanecem também as passagens pelo Sudoeste, palco de alguns dos episódios mais marcantes da sua história. Uma dessas recordações continua especialmente viva entre os fãs. Num concerto muito aguardado, Virgul lesionou-se ao entrar em palco após uma acrobacia e acabou afastado de grande parte da atuação. O espetáculo prosseguiu, mas quem assistiu sentiu imediatamente a ausência de uma das peças fundamentais daquela engrenagem. A química manteve-se, mas a experiência ficou inevitavelmente marcada por esse imprevisto.

    Talvez por isso o concerto do Sol da Caparica tenha sabido tão bem. As vozes, a química, a cumplicidade, a energia e sobretudo a dança com o passado tão boa que foi naquela noite.

    Ao longo de mais de duas décadas, muitos artistas portugueses passaram pelos grandes festivais portugueses. Poucos conseguiram criar uma ligação emocional tão duradoura com o público como os Da Weasel. O concerto na Caparica serviu precisamente para recordar isso.

    O terceiro dia do festival terminou como começou: entre memórias. Mas memórias vivas, partilhadas por milhares de pessoas que encontraram naquelas canções uma parte da sua própria história. Durante uma noite, o tempo pareceu encurtar distâncias. Os anos passaram a correr entre um refrão e outro.

    E quando as luzes se acenderam, ficou a certeza de que algumas bandas pertencem ao seu tempo, outras como os Da Weasel conseguem atravessar o tempo, ou melhor manter o seu trabalho anterior a vibrar no presente.

  • Share:

You Might Also Like

0 comments