Sombras e Electricidade: A Pulsação dos Kill Your Boyfriend no Coração da Graça
A noite da Graça transforma-se no exacto momento em que se atravessam as portas do Damas e o mundo exterior se dissolve. Sob a curadoria da Waas.abi, o que se viveu foi mais do que um concerto: foi uma experiência sensorial desenhada para arrastar o público para um território sonoro profundo e controlado. No centro dessa descarga estiveram os italianos Kill Your Boyfriend, na sua estreia absoluta em solo português.
A banda entrou em palco sem preâmbulos. Durante uma hora intensa, a actuação moveu-se entre o ritual urbano e o transe colectivo. Os Kill Your Boyfriend actuam como quem reclama território. O palco tornou-se extensão do corpo e da intenção. Com raízes fincadas no shoegaze mais sombrio e no post-punk mais cru, o grupo construiu um set denso, físico e magnético, daqueles que se sentem tanto quanto se ouvem.
O público começou atento, quase imóvel, e rapidamente se deixou conduzir. A resposta surgiu no corpo, guiada por uma batida constante que atravessava a sala e se instalava nos ossos. Cada cabeça que abanava e cada passo dado faziam parte da mesma corrente eléctrica.
A entrega foi total. Sessenta minutos de intensidade contínua ergueram uma muralha de som distorcido e energia concentrada, envolta numa névoa psicadélica que suspendeu o tempo dentro do Damas.
Quando a última nota se dissipou, a sala manteve-se carregada de electricidade, como se o concerto ainda estivesse a acontecer na pele e no ar. A Waas.abi voltou a afirmar a sua visão, revelando uma Lisboa sedenta de propostas que fogem ao previsível e pedem envolvimento total ao espectador.
O regresso à noite da Graça fez-se com os ouvidos a pulsar e uma certeza bem clara: o rock e os seus derivados, quando entregues sem filtros, com urgência e convicção, continuam a escrever algumas das páginas mais vivas da cidade.
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Texto: António Colombini



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