Lavoisier estão de volta e a poesia nunca soou tão elétrica

By VoxPop - novembro 17, 2025

Os Lavoisier regressam com um impulso criativo raro: era com h chega como um relâmpago poético, uma descarga elétrica que amplia tudo o que a dupla já vinha a construir. Patrícia Relvas e Roberto Afonso entram em 2025 com o som expandido, a visão afiada e a vontade clara de abrir novas fronteiras para a música em português.

O novo disco nasce do encontro entre poesia contemporânea e experimentação sonora. Dez poetas — de José Luís Peixoto a Alice Neto de Sousa, de Nástio Mosquito a Vinicius Terra — oferecem palavras que se transformam em território vivo, onde cada faixa respira com intensidade, desejo, ritmo e imaginação. É um álbum que pulsa como um manifesto e vibra como um sonho urgente.

A formação cresce e o universo dos Lavoisier também: Pedro Branco, Ricardo Dias Gomes e Diogo Sousa juntam-se à dupla e criam uma força coletiva impressionante. O resultado é um som com textura, espaço, groove e uma energia que se sente logo no primeiro acorde. era com h afirma-se como um corpo sonoro cheio de espírito e movimento, onde a poesia acende guitarras e o experimentalismo abre novas clareiras de luz.

Cada canção parece feita para despertar algo, um pensamento, um impulso, uma memória e o disco inteiro convida a entrar devagar antes de elevar tudo com poder e festa. É música que pensa e faz dançar; poesia que respira e ganha ritmo.

Para descobrir como este universo foi construído e que caminhos aponta, estivemos à conversa com a banda. Aqui começa a viagem. Bem-vindo ao mundo em expansão dos Lavoisier.


 “era com h” é um título enigmático e quase surreal. O que é que vos atrai nessa ideia do “erro” ou do “imaterial”? Há algo de intuitivo, até espiritual, nessa escolha?

O erro, o imaterial, sempre atraiu, e este título está embebido de tudo isso. era com h, aparece num sonho em tom de prenúncio, é quase surreal. 
O ponto de partida para este trabalho foi o subtítulo: A musicalidade e o gesto na poesia contemporânea, e daqui se evocaram todas as questões pertinentes e saborosas, até mesmo a conclusão de que não seria o título desta obra. Por ser este álbum dedicado à palavra, seria difícil ver aparecer o título que faria jus ao trabalho em causa, e vindo do lado onírico, do inconsciente foi óbvia a sua aceitação. Começando a debulhar tudo o que traz consigo, fez sentido a ambiguidade, se for dito provavelmente será escrito de outra maneira, e aqui gostámos dessa dupla interpretação desse lugar múltiplo da poesia, do que nem tudo o que parece é. Depois falamos de uma era, duma geração onde o h, como letra representa o ser, e ser, somos todos, sem h também. Continuando na debulha, existe também a Hera, a deusa grega, rainha dos deuses, ou simplesmente uma planta trepadeira, que ajuda na purificação do ar.

 

Desta vez convidaram dez poetas para escreverem letras inéditas. Como é que se compõe música sobre palavras de outras pessoas? Sentiram que foi um desafio ou uma libertação?

Foi um desafio libertador. 
Já existia esse lugar, de musicar poesia, o primeiro foi Álvaro de Campos, num excerto da Saudação a Walt Whitman, depois Judith Teixeira, para mais tarde nos dedicarmos a Miguel Torga, onde nasce "Viagem a um Reino Maravilhoso".
Manuel António Pina sobre o encontro das palavras e da poesia dizia, que seria a hesitação entre o som e o sentido: a parte do som que faz sentido e a parte do sentido que se perde no som. É esse lugar do som que as palavras emitem que traz já o sentido da musicalidade inscrita, o gesto depois acompanha esse som sentido.
Mas voltando à objetividade da pergunta, neste caso houve que trabalhar com a poesia viva, até então só havíamos cantado poetas mortos. São dois pesos diferentes, ambos com muita responsabilidade e loucura ao mesmo tempo.

 

Há uma clara expansão sonora neste disco: guitarras, baixo, bateria, eletrónica. O que é que motivou essa transição de duo para quinteto? E como é que essa nova química se reflete no som?

O que motivou essa vontade, foi mesmo a vontade de tocarmos com mais músicos. Já lhe tínhamos sentido o gosto um pouco no "Aí ", onde chegámos a apresentar concertos com o Carlos Bica, Lula´s e João Correia, mas era complicado, porque o álbum não tinha sido pensado assim, pois estes músicos participavam apenas em alguns dos temas, então era um corpo estranho. Neste álbum, queríamos muito ter uma banda de raiz, que fizessem as gravações em estúdio e que fossem para a estrada connosco.

Os amigos que se juntaram, foi o acaso dos felizes encontros, o estar atento e valorizar muito a empatia que existe com uns e não com todos.
Pedro Branco, ficou amigo, desde o primeiro dia que nos conhecemos, e foi um dia muito importante para nós e para ele também. Foi o dia em que começamos os ensaios com Fausto Bordalo Dias, para a apresentação na Aula Magna, dos 40 anos de "Por este rio acima". 
Ricardo Dias Gomes, é nos apresentado pela Ava Rocha que colaborou connosco no Aí, aquando uma visita a Lisboa. Mal sabíamos nós, que ele tinha o seu estúdio duas ruas abaixo do nosso, foi muito bom encontrar a sua nave espacial mesmo na galáxia em frente. É um puta músico, produtor,  trabalhou por dez anos com Caetano Veloso, é um ser "espacial" que contribui muito para que este álbum chegasse aqui. 
Diogo Arranja, é apanhado no meio do processo de um álbum, queríamos apenas gravar algumas baterias, o álbum teria sido pensado inicialmente em quarteto. Quando se dá o encontro para as gravações, e um concerto em formato quinteto, vimos o bicho crescer e foi evidente, o Diogo teria que fazer parte de tudo isto. Conhecemo-nos no Faial, numa residência artística para construir Cantares do Andarilho, sobre a obra de Zeca Afonso. É uma pessoa com certeza no olhar, no tempo, no groove que a vida nos dá, se tivermos os olhos abertos, como ele. Esta é a química, para que tudo se transforme.

 

A vossa música sempre teve uma relação muito forte com a identidade portuguesa. Acham que este álbum representa um afastamento disso ou é uma nova forma de o reinterpretar?

É um álbum que se afasta da ideia de identidade portuguesa que nos é oferecida. 
Não é uma reinterpretação, para nós é a realidade, a identidade portuguesa sempre foi construída desses lugares, que através dos tempos nos deram outra cor. Lavoisier começa com a noção de sermos seres antropófagos, como portugueses, como artistas, como seres atentos ao que nos rodeia, nunca puristas, e de uma identidade só.

Em Berlim, há dez anos, tivemos a necessidade de conhecer música que vinha de um lugar chamado terra, que nos emocionava tanto, Vale de Azares e Lagarelhos, as nossas aldeias. Este estudo e o reconectar a um passado que nos pertencia e que desconhecíamos, surge de uma falta de alimento, que já trazíamos de tantas outras terras.
Foi bom deixar de ter preconceitos em relação à música popular, contudo, talvez como tudo, a moda peca pela repetição, logo pela perda de sentido.
Desta perspetiva, este álbum continua a ter uma forte relação com a identidade portuguesa.


O disco fala de distopias, espelhos do presente e da forma como vemos o mundo. Que realidade é que este álbum tenta retratar ou questionar?

O álbum não tenta, ele retrata e questiona o mundo através dos seus intervenientes. Do espelho do presente à distopia, infelizmente, não é tão grande assim a distância, os poetas que escreveram e os músicos que musicaram são filhos do mesmo tempo, e toda esta constelação permitiu organizar este mapa astral, que nos dá pistas de um futuro que se avizinha tenebroso, se não houver questões, atenção, poesia, música, a arte.

 

Depois de explorarem a tradição, a poesia e a experimentação, para onde é que os Lavoisier podem seguir a seguir? O que é que ainda falta transformar?

Continua a faltar tempo, para o tanto que há para se transformar! Sabemos apenas, que a seguir a este álbum, deverá existir a continuação do trabalho de estudo chamado Polifonias Singulares, agora o VOL. II

 

O disco nasce num momento em que a poesia portuguesa está particularmente viva. Sentem que era com h é também uma forma de reivindicar espaço para a palavra dentro da música pop e alternativa?

era com h, vem com o propósito maior de usar e abusar da poesia. Que sejamos inundados com poesia, do pop ao erudito.

 

Trabalhar com dez poetas implica dez universos diferentes. Como é que evitaram que o álbum se tornasse uma colagem e garantiram que tivesse uma identidade sonora coerente?

A identidade sonora coerente é algo que acontece no processo. De fato era uma das coisas que tínhamos algum receio, ser um álbum feito de ilhas, mas sem muita preocupação. Antes de tudo, queríamos conversar com o poema, sem a manipulação de tentar que pertencesse a um todo, mas acho que é mesmo no processo que o todo ganha forma, e não é um processo muito consciente. Ao mesmo tempo, talvez seja até bem natural, porque será sempre a guitarra e voz do Roberto, a minha voz, a guitarra do Pedro, o baixo do Ricardo e a bateria do Diogo.

Há uma dimensão política subtil no vosso som — pela escolha das palavras, pela forma como tratam o português, pela colaboração entre diferentes geografias. Acham que era com h é também um disco político, mesmo que não o pareça à primeira escuta?

É bom que não pareça à primeira escuta, nem seja realçado por isso. Mas, um álbum é sempre político, se quiseres cantar uma canção sobre as tardes de verão em Alvalade, a comer um gelado cor de rosa, é político. Quando pedimos a poetas para escreverem poemas para serem musicados, não lhes pedimos poemas de amor, e até poderia ser mas, na verdade não pedimos nada. Quisemos, sim, marcar um encontro e esse ser o nosso ponto de partida, quando convidámos o Nastio Mosquito, sabíamos ao que íamos, Portugal Não me Respeita, é um poema que retrata o abandono de idosos num interior desertificado, entupidos com medicamentos para não se lembrarem de ser gente. A Maria do Rosário Pedreira, fala de uma menina que morreu, mas estavam todos distraídos a olhar para as fotografias e mal se aperceberam. Todos eles têm uma mensagem política relevante.  

Ao longo dos anos, têm-se reinventado sem perder a essência. Que conselho dariam ao “vosso eu” de há dez anos, quando começaram a desconstruir a canção portuguesa?

Que por mais impossível que pareça, passados dez anos continuaremos aqui, neste mesmo lugar, como Lavoisier, a fazer música.


Entrevista e texto: Beatriz Silva

Fotografias: Daryan Dornelles

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