Chrystabell e a invocação divina de "The Spirit Lamp": uma viagem pelo legado de David Lynch
By VoxPop - outubro 29, 2025
No panorama da música e arte contemporânea, poucos nomes carregam o peso de um universo criativo tão singular quanto Chrystabell. A cantora e atriz, frequentemente descrita como a musa de David Lynch, transpôs o grande ecrã para os palcos, apresentando na Bienal de Artes Contemporâneas (BoCA 2025) o espetáculo "The Spirit Lamp" – uma experiência que se revela mais do que um concerto ou uma projeção: é uma porta para o desconhecido.
A performance, apresentada na Voz do Operário, em Lisboa, não é apenas um tributo, mas uma reanimação da memória criativa de Lynch, com quem Chrystabell compôs parte da banda sonora. "The Spirit Lamp" é um lugar onde a música e a imagem se fundem numa pura luminescência, transportando o público para um território de fronteiras difusas.
O espetáculo tem um início profundamente íntimo e teatral, estabelecendo de imediato a atmosfera de sonho e ritual. A sala mergulha na escuridão total e a performance começa, não no palco, mas no meio da plateia.
Chrystabell, vendada, atravessa lentamente o público sentado. A sua única guia e a única fonte de luz na sala é um senhor que a acompanha, segurando uma vela. Este gesto inaugural — uma procissão lenta, íntima e quase cega — transforma a escuridão num casulo, preparando o público para a experiência sensorial que se segue.
Após a travessia, o espetáculo avança com um gesto contextual: a própria voz de David Lynch, que introduz Chrystabell como personagem central de uma história de amor. Este gesto abre o palco para a intérprete, cuja voz se move como uma presença etérea, guiando-nos por atmosferas sonoras que dançam entre o sonho e a vigília, o conforto e a inquietação.
As composições instrumentais, da autoria do próprio cineasta, servem de base a esta paisagem sonora hipnótica. Sobre elas, a interpretação vocal de Chrystabell é o fio condutor que nos prende a este universo particular, um local suspenso onde o tempo parece dissolver-se.
Visualmente, "The Spirit Lamp" não desilude a herança Lynchiana. A conceção do espetáculo, que conta também com a participação do cineasta experimental David Gatten, traz para a tela uma série de imagens orgânicas. Entre sombras e clarões, estas visões dialogam com a música de forma quase sinestésica, expandindo e contraindo-se no palco como um pensamento fugaz ou uma lembrança distante.
A música de Chrystabell e Lynch e o vídeo de Gatten constroem uma paisagem sensorial coesa, que faz de "The Spirit Lamp" uma verdadeira invocação. É um lugar onde o legado artístico de David Lynch ressoa de forma vibrante no presente, revigorado pela singularidade de uma intérprete que habita plenamente o seu mistério.
O ritual do espetáculo é enquadrado de forma perfeita: após a conclusão da performance no palco, Chrystabell sai exatamente como entrou. A artista retira-se da vista do público sempre acompanhada pela mesma figura e a mesma vela, reforçando a natureza cíclica e cerimonial da experiência. A luz desaparece lentamente, deixando a audiência a digerir a jornada hipnótica a que acabou de assistir.
Para quem procura uma experiência musical que desafie as categorias tradicionais de concerto, mergulhando na intersecção do cinema, da música de ambiente e da performance art, "The Spirit Lamp" é uma lanterna que ilumina o caminho, confirmando o estatuto de Chrystabell como uma força essencial no experimentalismo musical contemporâneo.
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Autor: António Colombini
Fotografias: António Colombini



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